06

set14

Muita imaturidade nas discussões político-eleitorais no Brasil. Assim a democracia não evolui nem tão cedo
marinistao

Uma das imagens de apelo ao medo usadas por militantes pró-Dilma contra Marina Silva

A internet tem sido um caldeirão de baixaria política nesses meses de campanha eleitoral. No nível nacional, o abordado aqui, militantes das três candidaturas mais apoiadas têm agido de formas igualmente vis e desonestas para tentar atrair o eleitorado para seus respectivos candidatos. Isso deixa claro como muita gente que se diz democrata ainda é imatura demais para discutir os rumos do país. E evidencia o quanto estamos longe de termos o mínimo de condições de debater e promover a evolução e radicalização da democracia brasileira.

Aqui não se está falando daquelas pessoas que disponibilizam seu voto ao conselho alheio. Ou de quem vota em candidatos teocratas sob influência da igreja que frequenta. Ou de quem vota em alguém por motivos como troca de favores, beleza física, escolha aleatória, opção pela “mania do momento”, “voto de protesto”, programa negativo reacionário etc. Mas sim de quem diz ter uma convicção política “madura” e certeza de que votará naquela pessoa e promove militância por ela.

Muitos desses eleitores mais firmes têm agido com ainda mais virulência depois que Marina Silva começou a ameaçar superar Dilma Rousseff nas intenções de voto e deixou Aécio Neves comendo poeira no terceiro lugar das pesquisas.

De um lado, muitos “aecistas” e “marinistas” estão fazendo com que seus presidenciáveis ganhem votos não por terem as propostas mais justas e viáveis ou serem os mais confiáveis para fazer com que o Brasil comece a resolver suas injustiças. Mas sim por representarem a possível saída do PT do topo do poder político no Brasil.

Ou seja, pelo ódio irracional que muita gente adquiriu contra o PT por causa das incitações vindas da mídia e das páginas da direita antipetista nas redes sociais.

o-que-e-a-nova-politicaJá do lado dos “dilmistas”, tem-se tentado incitar que muita gente desista de votar em Marina e passe a optar por Dilma ao invés. Mas não por merecimento da presidenta, por políticas aclamadas criadas no mandato dela, por mudanças legítimas ocorridas na sociedade entre 2011 e 2014. E sim através da incitação do medo, ou seja, para que as pessoas votem em Dilma por terem medo de Marina.

Propagam que um eventual governo da pessebista seria a instauração de um verdadeiro regime de terror, com depressão econômica, religiosos fundamentalistas ganhando poderes políticos ainda maiores, grandes empresas mandando e desmandando nos direitos das pessoas etc.

Ressalte-se, aliás, que muitas das “catástrofes” cuja possibilidade militantes petistas têm atribuído à vitória de Marina já acontecem hoje sob o primeiro mandato de Dilma e, pelo visto, continuarão no segundo. Fica clara a falta de autocrítica da parte deles, sobre as omissões, retrocessos e conservadorismos promovidos pela presidenta.

É visível também o que a psicanálise chama de projeção: quando a pessoa atribui ao seu opositor um defeito que é dela mesma. Nisso, aqueles que tentam encurralar e controlar os votos dos brasileiros pelo medo e pelo ódio irracional também agem com irracionalidade.

Enquanto isso, as discussões de amadurecimento da política e democracia no Brasil ficam relegadas a um número relativamente reduzido de pessoas. E candidatos que realmente põem a evolução da democracia em discussão e se colocam como dignos de atenção positiva e voto não passam do traço nas intenções de voto, como Luciana Genro do PSOL e Eduardo Jorge do PV.

Diante disso tudo, contemplamos como a democracia brasileira ainda padece na imaturidade. Ou melhor, como muitos autointitulados “democratas” fazem tudo menos fortalecê-la.

brasil-acordou-perplexoLembremos que temos vivenciado e reivindicado, como se evidenciou em 2013, demandas por uma democracia mais profunda. Um modelo político que enfoque menos os representantes e dê aos cidadãos poderes de participação mais determinantes nas decisões políticas do país e dos estados e municípios.

Mas pelo que parece, isso se perdeu. Retrocedeu-se à velha cultura de controlar os votantes pelo medo do adversário, pelo ódio contra ele ou pelo apelo aos seus interesses egoístas para direcionar seus votos ao candidato defendido.

Esse cenário mostra como petistas, tucanos e “marinistas” têm mantido os debates políticos brasileiros dentro do poço, não tão acima das violentas e baixas campanhas eleitorais da época da República Velha (1889-1930). E escancara como essas pessoas têm posto a perder tudo o que havia sido reivindicado por grande parte dos manifestantes dos Protestos de Junho.

Nessas condições, com o eleitorado sendo manipulado e puxado pela irracionalidade e havendo atenção de menos à honestidade, às propostas e à viabilidade das políticas prometidas dos candidatos, não há a mínima condição de se debater a superação do sistema político representativo.

Hoje não se consegue nem mesmo observar criticamente o sistema político baseado em representantes eleitos e reconhecer seu caráter ilusório e limitado. Visto isso, é ingênuo acreditar que conseguiremos debater com propriedade desde já um sistema ainda mais avançado em se tratando de direitos políticos universais.

Não há por aqui maturidade de consciência política suficiente para isso. Acredito que precisamos primeiro amadurecer os próprios debates eleitorais, mesmo com todas as suas ilusões, antes de pretendermos dar o passo seguinte.

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