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Resenha do livro “Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política”, de Norberto Bobbio

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A obra Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política foi publicada em 1994 pelo cientista político e então senador vitalício italiano Norberto Bobbio (1909-2004), autor também de obras como A era dos direitos, Teoria das formas de governo e As ideologias e o poder em crise. O livro foi inspirado por um contexto histórico de campanha eleitoral na Itália, no qual a esquerda e a direita mostravam ter sobrevivido, enquanto conjuntos de ideologias distintos, à redução à impotência do “sonho comunista” novecentista resultante do fim da Guerra Fria.

Ele se foca em comprovar (por) que direita e esquerda nunca deixaram de existir desde a Revolução Francesa, mesmo com os eventos bombásticos da ascensão nazi-fascista e da desintegração soviética. E faz uma abordagem sobre os fundamentos básicos da distinção entre ideologias de esquerda e de direita, pelo menos em se tratando do contexto político da Europa Ocidental da primeira metade da década de 1990.

Bobbio começa o livro refutando, no prefácio “1995: resposta aos críticos”, da sua segunda edição, as alegações de que a dicotomia esquerda-direita teria deixado de existir ou fazer sentido. Ele coloca o exemplo da campanha eleitoral de 1994, na qual os partidos deixavam claras suas posições ideológicas, facilmente classificáveis como de esquerda ou de direita.

O corpo principal do livro aborda que a díade em questão continua conceitualmente válida nas áreas de conhecimento ligadas à Política. Cita abordagens alternativas do espectro ideológico, como aquela que o coloca não como uma dicotomia de dois pontos, mas sim uma linha com cinco pontos – esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita –, e um espectro alternativo que defende a existência de uma “terceira via” – interpretável como se houvesse não uma reta bidirecional, mas sim três linhas dispostas num mesmo plano saindo de um ponto central para direções diferentes. Mas deixa clara sua preferência pela dicotomia.

Nesse início ele traz alguns axiomas sobre a dicotomia esquerda-direita, como o fato de que não existe uma política ou pessoa ao mesmo tempo de esquerda e de direita. Mais adiante, no capítulo 3, explica as semelhanças entre a extrema-esquerda e a extrema-direita, esclarecendo que a proximidade entre ambas está no fato de compartilharem com o mesmo extremismo tendente ao autoritarismo e ao uso recursivo da violência explícita, embora ocupem cada uma um dos dois extremos da linha esquerda-direita.

Nesse capítulo, deixa-se a entender que a linha ideológica é não uma reta, mas sim uma linha finita com formato de ferradura. Nas suas pontas opostas extrema-direita e extrema-esquerda – espacialmente próximas entre si, entretanto –, estão respectivamente o fascismo e os socialismos autoritários (estes indevidamente unificados sob o termo guarda-chuva “comunismo”). E na região segmentar mais próxima do centro estão as ideologias que não abrem mão do sistema político representativo baseado em eleições, como o liberalismo, o conservadorismo contemporâneo e a socialdemocracia.

Mais adiante ele se engaja em buscar os critérios que fazem uma ideologia ser de esquerda ou de direita. E dá, como resposta, que os principais pontos de distinção entre esquerda e direita são a visão sobre a igualdade ou desigualdade humana e a opinião se o mais preferível é conservar a tradição vigente ou submetê-la à mudança histórica.

Segundo o autor, a esquerda visa, essencialmente, promover a igualdade entre os seres humanos – havendo, a depender da ideologia, critérios diversos sobre igualdade “entre quem, em relação a quê e com base em quais critérios” – e a mudança da ordem social. Já a direita prega que a desigualdade seria algo intrínseco aos seres humanos e dá ao apego às tradições uma valoração positiva. Fique claro, porém, que o leitor pode ficar confuso sobre o que Bobbio denomina de “desigualdade”, porque há partes em que o termo parece confundível com diferença, que não é rigorosamente a mesma coisa. E sentirá falta do uso do conceito de equidade.

O livro ajuda a ter uma compreensão inicial sobre o que fundamenta a dicotomia entre esquerda e direita, independente da época, e o que faz a esquerda ser esquerda e a direita ser direita. Mas peca pela pouca profundidade e pela omissão de aspectos cuja importância não deveria ser negada ou subestimada ao se falar dessas duas metades do espectro político.

A pessoa que o lê vai sentir falta de uma abordagem mais profunda sobre propriedade pública X propriedade privada, livre mercado X economia regulada, os conceitos destros e canhotos de ordem social, a intervenção do Estado na vida dos governados, a valorização ou desvalorização dos Direitos Humanos, entre outros conflitos ideológicos. E sentirá a ausência também de uma relativização necessária da dicotomia “esquerda que muda X direita que conserva”.

Isso porque há pontos em que a esquerda pode visar a conservação de algo, como, por exemplo, no caso do Brasil, o caráter misto da economia nacional (capitalista com a regulação da economia pelo Estado e a coexistência entre empresas públicas e companhias privadas em diversos setores) e a existência de políticas públicas afirmativas. E a direita pode almejar mudanças que nem sempre podem ser objetivamente definidas como retrocessos, como a transformação de uma economia mista em uma de livre mercado, a abertura da economia nacional ao capital estrangeiro, a redução de impostos a grandes empresas, a valorização de uma tradição meritocrática de ascensão social e o enrijecimento de leis punitivas como tentativa de coibir a violência urbana.

Outra séria falta sentida ao se ler o livro é das ideologias de Estado mínimo ou nulo, como o “libertarianismo” de direita, defendido por Hayek, Nozick e Mises, e o anarquismo de Proudhon, Bakunin, Emma Goldman etc. O anarquismo só é citado uma vez no livro, como uma ideologia “romântica” de esquerda, mas de forma praticamente descontextualizada. Ficamos sem saber em que região do espectro político a ideologia anarquista fica situada. Já a existência do “libertarianismo” é totalmente ignorada, muito embora Bobbio cite o nome de Mises uma vez, no último capítulo.

E aí percebemos o quão limitado é o mapa ideológico – a linha finita em formato de ferradura – que Bobbio usa para localizar cada ideologia – liberalismo, conservadorismo, fascismo, socialismo, comunismo etc. Ao visualizá-lo mentalmente, sentimos falta das ideologias que defendem a minimização ou abolição do Estado, como o “libertarianismo” de direita, o neoliberalismo, o “anarco”capitalismo e o anarquismo. Isso porque todas as ideologias incluídas por Bobbio no tal mapa pressupõem a existência de um Estado dedicado a criar e executar as leis, regulações e políticas para todos os âmbitos das sociedades modernas, uma entidade muito mais forte do que o Estado Mínimo dos “libertários”.

Esse modelo de linha-ferradura acabou sendo superado por mapas ideológicos bidimensionais, como o plano cartesiano do site The Political Compass e o Diagrama de Nolan. Estes colocam, ao invés dos limitados critérios unidimensionalmente dicotômicos estipulados por Bobbio, dois eixos: um horizontal, onde continua existindo a linha que passa por extrema-esquerda, esquerda, centro (no caso do Diagrama de Nolan), direita e extrema-direita; e um vertical, que delimita se uma pessoa defende um Estado totalitário, uma ditadura não total, um estatismo moderado, um Estado mínimo ou uma sociedade sem Estado. E neles, os critérios que colocam a convicção política do indivíduo na esquerda ou na direita são bem mais variados, tratando-se de diversas questões sociais e/ou econômicas.

O livro Esquerda e Direita… tem diversas limitações que acabam por torná-lo menos profundo do que se desejaria. Mas isso não anula sua importância histórica e didática, tanto porque ele reafirma a sobrevivência dessa dicotomia perante o fim da Guerra Fria, como porque ajuda um público iniciante nas discussões políticas do final do século 20 a introduzir-se nas leituras sobre a política contemporânea.

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10 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Matheus

maio 17 2016 Responder

Ao autor do blog:

Tendo em vista que você o considerou um bom livro, porém limitado, poderia me indicar uma outra obra para aprofundar um pouco mais no assunto após a leitura dele?

    Robson Fernando de Souza

    maio 17 2016 Responder

    Matheus, ainda não conheço um livro que aborde de maneira suficientemente completa o gradiente esquerda-direita. Abs

Gustavo

janeiro 14 2016 Responder

Acabei de ler o livro, achei também muito limitado conforme os motivos indicados na sua resenha. Excelente texto!

Diogo

novembro 18 2015 Responder

Excelente resenha! Parabéns!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 18 2015 Responder

    Obrigado, Diogo =) Abs

Thiago

abril 21 2015 Responder

Ao autor do blog:

Eu, particularmente, gostei de sua resenha. Ela é capaz de demonstrar que um “bom” livro pode ser, na verdade, limitado. Mesmo assim, este livro poderia ser usado como material introdutório em discussões sobre política. A propósito, como você demonstrou, e vem demonstrando, existe vida inteligente além da dicotomia Direita x Esquerda, ou mesmo além da dicotomia PT x PSDB…

    Robson Fernando de Souza

    abril 21 2015 Responder

    Obrigado pela apreciação, Thiago. =)

matheus

abril 19 2015 Responder

muito bom texto.

    Robson Fernando de Souza

    abril 19 2015 Responder

    Valeu, Matheus =)

Aquiles

setembro 2 2014 Responder

Excelente critica, me deu informações para entender melhor sobre o assunto. Obrigado.

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