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10 notícias que mostram que a mídia não sabe falar de pessoas trans

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TW (aviso): as páginas linkadas aqui contêm transfobia e cissexismo

As pessoas trans são tratadas como “corpo estranho”, pessoas menos dignas de respeito do que as cisgêneras, na sociedade pela mídia. Isso se reflete em tantas notícias que lhes desrespeitam a identidade de gênero e lhes negam qualquer traço de dignidade. Este post traz uma pequena amostra de como esse desrespeito é disseminado por uma imprensa que não sabe como tratá-las como dignidade.

Referência a mulheres trans (travestis, transexuais e transgêneras binárias) pelo masculino e homens trans pelo feminino, menções ao nome de registro, apagamento ou secundarização do nome social, realce desnecessário da transgeneridade da pessoa, referência a pessoas trans como gente que “era Fulano e virou Beltrana” ou vice-versa, transfobia “convertida” em homofobia, confusão entre identidade de gênero com orientação sexual, abordagem da transgeneridade como se fosse uma “super-homossexualidade”… São diversos os erros de tratamento que promovem desumanização, coisificação, ridicularização, discriminação e constrangimento contra essa categoria que é uma das mais pesadamente oprimidas e discriminadas no Brasil e no mundo atualmente.

Leia abaixo dez exemplos recentes – uma amostra ínfima entre um universo de milhares – de notícias que promovem o preconceito transfóbico e cissexista:

1. “Marcelo Tas conta como sua filha *** se tornou [sic] seu filho Luc”
Menção ao nome de registro, abordagem de homem trans como alguém que “era mulher e virou homem”. Mesmo tentando conscientizar o leitorado sobre a questão da visibilidade trans, a matéria incide em desrespeito;

2. “‘Império’: Enrico ganha bolo com travesti e deixa Maria Clara esperando no altar”
Confusão de transfobia com homofobia, travesti tratada pelo masculino, ridicularização e desumanização, negação da identidade de gênero da travesti. A cena da novela, em si, já é transfóbica, e a matéria do site piora ainda mais as coisas;

3. “Homofobia matou ao menos 216 no Brasil em 2014”
Confusão de transfobia com homofobia, travestilidade tratada como uma “super-homossexualidade”. A matéria menciona crimes contra travestis, mas trata-as como se fossem uma espécie de “homens supergays vestidos de mulher”;

4. “PM prende travesti que agrediu a mãe com dificuldade de locomoção”
Menção desnecessária à travestilidade da moça, tratamento da travesti pelo masculino, menção ao nome de registro, total apagamento do nome social, negação da identidade de gênero da travesti, ridicularização, desumanização. Reportagem inteiramente transfóbica;

5. “Jovem e travesti são mortos a tiros em frente a motel em cidade de MT”
Menção desnecessária à travestilidade da moça, tratamento da travesti como se fosse de uma categoria “à parte” e “excepcional” de ser humano, tratamento da travesti pelo masculino;

6. “Em ‘Império’, Enrico vai bater em um [sic] travesti”
Tratamento da travesti pelo masculino, confusão de transfobia com homofobia. A nota também fala de uma cena transfóbica da novela “Império”, mas também comete cissexismo;

7. “Travesti é assassinada com tiros no rosto na região metropolitana”
Menção ao nome de registro, exposição desnecessária de foto da vítima trucidada;

8. “Corpo de travesti foi para Belém”
Tratamento da travesti pelo masculino, menção ao nome de registro, desvalorização do nome social (colocado entre aspas);

9. “Brigada Militar realiza duas prisões em Ijuí, inclusive de travesti”
Menção desnecessária à travestilidade da moça, tratamento da travesti como se fosse de uma categoria “à parte” e “excepcional” de ser humano, menção ao nome de registro, apagamento do nome social, tratamento da travesti pelo masculino;

10. “Mesmo com evidências de traição, Kendra Wilkinson decide manter casamento”
Menção desnecessária à transexualidade de uma moça, desumanização da mulher trans.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ricardo Ibn

outubro 21 2014 Responder

Esse grupo realmente precisa de atenção, o isolamento social é muito grande.

Quanto a essa questão Robson, eu tenho duas dúvidas cabeludas sobre o relacionamento entre transexuais e a sociedade. Veja se você pode me ajudar. Eu não sei se você já elaborou alguma matéria desse tipo nesse blog ou em algum outro espaço, se for o caso, me passe apenas os links que eu ficarei satisfeito.

1ª – Não poucas feministas tem uma certa resistência no trato com transexuais que “nasceram com pênis” por assim disser que desejam frequentar as mesmas rodas e espaços tipicamente frequentados por feministas, sejam espaços físicos, sejam espaços na web. Houve casos de feministas que queriam (e querem, creio) excluir trans de suas militâncias alegando, que são, de fato, homens. Você crê que trata-se de problemas pontuais entre indivíduos, ou que se deve prestar atenção a isso para não haver uma rusga entre grupos feministas e grupos LGBT num futuro próximo, prejudicando a agenda progressista?

2ª – Muitos transexuais querem usar o banheiro oposto ao seu sexo original. É muito difícil crer que, caso esse direito seja garantido, pessoas mal-intencionadas não se aproveitem da situação para praticar crimes. E eu não estou falando de transexuais não. É muito fácil um homem heterossexual se vestir como uma mulher com o objetivo de ter acesso ao banheiro feminino para praticar um estupro, só para citar um exemplo. Como lidar com essa situação?

Obrigado pela atenção!

    Robson Fernando de Souza

    outubro 21 2014 Responder

    Ricardo:
    1. Isso vc teria que perguntar a transfeministas. Eu como homem cis não tenho plena condição de responder isso. Tudo o que sei é que vi reações das chamadas TERFs (feministas radicais trans-excludentes) contra as mulheres trans.
    2. Isso é um caso muito excepcional. Estupradores não precisam se vestir de mulheres, se fingir de falsas mulheres trans, pra invadirem banheiros femininos e cometerem estupros. Sendo os misóginos autoarrogados “poderosos” que são, não terão qualquer vergonha em invadi-los pra cometer esse tipo de crime.
    Esse argumento do “receio de homens vestidos de mulher estuprarem mulheres cis nos banheiros”, inclusive, também poderia ser usado pra, por exemplo, proibir a entrada de homens cis gays em banheiros masculinos, já que não é nula a possibilidade de aquele homem entrando no banheiro ser um estuprador de outros homens.
    E além disso, mulheres trans não são comparáveis a “homens vestidos de mulher” – inclusive se você falar desse argumento do estuprador vestido de mulher pra alguma mulher trans, ou ela vai desatar em choro, ou vai reagir de forma muito agressiva a você.

Ronaldo

outubro 20 2014 Responder

Caro Robson,
todos os seres humanos precisam ser tratados com respeito e igualdade, no que tange aos aspectos espirituais (correlato a capacidade de entendimento e raciocínio). Não se pode fugir da realidade ou da verdade: ou é ou não é. A moral serve-nos principalmente como referência para a nossa evolução cultural e social. Sem a ética (entendimento e bons fundamentos) a moral se transforma em uma receita obscura (pedra de tropeço). O fundamento maior do sexo é a procriação com responsabilidade. Cada pessoa faz da sua vida o que quizer. Se ela não quer conselhos ou um estudo ético, paciência! Bem disse o Pai que escandalos devem ser tratados em particular ou em secreto. Se você prefere tratar isto em público (dado a sua revolta explicita), então a minha opinião só procura contribuir neste entendimento.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo