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2014 ou 1914? Comentário sobre o nível do “debate” entre os eleitorados de Dilma e Aécio

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Contemplando as discussões políticas entre o eleitorado de Dilma Rousseff e o de Aécio Neves, fico pensando se realmente estamos no século 21 ou ainda estamos mofando nas primeiras décadas do século passado. Porque, pelo que está parecendo, não avançamos em muita coisa em se tratando de qualidade do debate entre opositores ideológicos e/ou partidários. E, claro, está-se provando dia após dia que o Brasil está astronomicamente distante do amadurecimento de sua dita democracia e da possibilidade de sua radicalização, e está despreparado para vivenciar mudanças progressivas no seu quadro político.

Tem-se visto de tudo no tal “debate” político entre “dilmistas” e “aecistas”, menos debates racionais de ideias e visões político-ideológicas de mundo. A dita “festa da democracia” está mais para guerra entre torcidas organizadas de times adversários, com direito a episódios literais de agressão física contra eleitores adversários.

A baixaria e a irracionalidade têm sido regra dos dois lados. Do lado pró-Dilma, apelos ao medo, terrorismo psicológico, apelos de intolerância religiosa (tachando Aécio de “devoto do diabo” por sua filiação à maçonaria), incapacidade aparente de defender a presidenta com foco em suas realizações e promessas. Do pró-Aécio, ebulições de ódio contra nordestinos, negros e pobres; paranoias anticomunistas; maniqueísmo fanático de “PSDB do bem vs. PT do mal”; rompantes antidemocráticos – uma contradição gritante com o fato de que as eleições são uma das únicas manifestações ditas democráticas no Brasil atual.

Dos dois lados, ataques virulentos, muitos deles fortemente pessoais, contra o(a) candidato(a) opositor(a) e seu eleitorado; boatos atrás de boatos; caricaturizações verbais que deixariam crianças com vergonha alheia; manifestações intensivas e incitações de ódio político mútuo; literais guerras verbais entre as “torcidas” eleitorais em fóruns; criação e atuação de perfis falsos que tentam queimar o filme do eleitorado opositor; acusações vorazes muitas vezes sem provas; adjetivos para xingar os eleitores do(a) outro(a) – “coxinhas” (palavra cujo sentido objetivo original acabou sendo desmontado) vs. “petralhas” –; denuncismos moralistas sobre a vida privada dos dois candidatos; atributos como “Dilma terrorista comunista” e “Aécio corrupto cheirador de cocaína”; adjetivações ilimitadas contra a(o) candidata(o) opositor(a); entre outros atos baixos.

Para uns, não importa o que Dilma pretende fazer pelo meio ambiente, pelos Direitos Humanos ou em prol do amadurecimento político brasileiro, mas sim que Aécio é primo de Lex Luthor e discípulo de Sauron e vai instaurar um reino de terror no Brasil. Para outros, é “desnecessário” discutir se Aécio é realmente capaz de engrenar a economia e se suas propostas em prol da segurança pública serão de fato eficazes, já que o que lhes importa mesmo é que Dilma é um demônio a ser eliminado pelos anjos celestiais da direita e o PT é uma corporação de seres malignos e corruptos criada por Satanás em sociedade com Anhangá e Angra Mainyu que deve ser destruída.

Medo e ódio lutam um contra o outro, ambos pisoteando o cadáver da racionalidade político-democrática e usando esse arsenal de baixarias como armas. E reina também a centenária inocência de crer piamente nas promessas de campanha e render-se aos cantos de sereia dos candidatos, mesmo diante de uma tão longa e forte tradição de mentiras e descumprimentos por parte de quem se elege. Enquanto isso, as bandeiras da esquerda e de parte da própria direita permanecem abaixadas, situadas à parte desse violento “debate” eleitoral.

E nessa quase sangrenta guerra entre os dois eleitorados-torcidas, independentemente de quem vencer o segundo turno presidencial, quem perde é a democracia. Fica cada vez mais claro, à medida que passam os dias que antecedem 26 de outubro, que a sociedade brasileira está completamente despreparada para debater o aprofundamento do regime democrático, a extensão das prerrogativas políticas dos cidadãos.

O sonho de ver a democracia brasileira sair dos meros atos de votar em urnas ou assinar projetos de lei de iniciativa popular e tornar-se muito maior do que isso se esvai e é adiado para várias décadas à frente. Ao invés de se discutir racionalmente a transformação das massas em coletividades cidadãs decentemente politizadas, padece-se na decepção de perceber que a política brasileira, pelo visto, não avançou muito nos últimos cem anos.

Estamos em 2014, mas está parecendo que o tempo parou em 1914, auge da República Velha. É como se nunca tivéssemos saído da época da Política do Café com Leite, marcada por campanhas eleitorais restritivas (mulheres e analfabetos[as], que compunham a maioria da população, não podiam votar), fraudulentas e extremamente violentas que, no final das contas, mantinham intacta e indiscutida uma ordem política oligárquica e fortemente opressora.

Esse bizarro cenário de “discussão” política que soa como uma grande briga de turbas fanáticas mostra que o povo brasileiro está longe de ser politicamente maduro. Fica evidente que nos próximos quadriênios não conseguiremos conquistar nenhum avanço realmente significativo, nem social, nem político, nem econômico, nem educacional, nem ambiental, nem ético. Seja lá quem ganhar nesse segundo turno, a população e a dita democracia brasileira inescapavelmente sairão perdendo de lavada.

Com esse clima de guerra política, evidencia-se que a sociedade brasileira, em sua maioria, está incapacitada de exigir uma mudança progressista no quadro político brasileiro, ou, como Marina Silva parecia defender no primeiro turno, uma nova política. Se não conseguimos mudar nem a nós mesmos, amadurecer e começar a promover debates político-ideológicos civilizados, racionais e frutíferos, como teremos condições de demandar que a política nacional mude e avance?

imagrs

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julio cesar

janeiro 4 2015 Responder

comunismo=nazismo=fascismo=racismo

Ronaldo

outubro 17 2014 Responder

O entendimento do Homem depende da cultura existente ou disponível. Não é fácil inovar ou ser diferente do que a maioria das pessoas seguem. Todo cientista sofre por ter que mostrar o que a maioria não percebeu ou não viu. Se até hoje não sabem distinguir quem é Deus e quem é o Diabo, como discernir quem é mais bom ou quem é mais mau que outro?!

dsdsd

outubro 17 2014 Responder

PT quer instaurar o comunismo? Veja o video com o discurso do PT e tire suas proprisa conclusoes

https://www.youtube.com/watch?v=S9ijixX0ve8

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