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Na forjada divisão “nós os esclarecidos retos e direitos X eles os ignorantes estúpidos e iníquos”, a iniquidade é de quem faz tal separação

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Existe, entre muita gente da parcela reacionária da sociedade brasileira, o costume de promover uma discriminatória e arbitrária divisão do povo. Separam a população entre os “conservadores do bem”, “gente direita” que “ama o Brasil”, e os “esquerdistas ou bolsistas do mal”, “vagabundos” que “querem transformar o país numa ditadura comunista corrupta”. Colocam-se como “iluminados do bem” e tacham os demais como “imbecis que só fazem o mal”, mas não têm consciência de que são eles os mais “malvados” da história, justamente por fazerem tal divisão e promoverem preconceito e discriminação com base nela.

Esse é um daqueles casos em que o próprio ato de julgar o outro como “mau” e autoarrogar-se o “bom” da história é em si mesmo algo maléfico, antiético. Resulta em discriminação, ódio, intolerância e incita emoções destrutivas e muito perigosas.

E nada além de ignorância, preconceito e tendências comportamentais violentas sustenta esse tipo de visão maniqueísta. No caso dos reacionários, eles veem aqueles que votam no PT, recebem Bolsa Família e/ou defendem ideologias de esquerda como “maus” e “inferiores”, gente a ser discriminada, hostilizada, calada à força, excluída da sociedade.

E isso, de um ponto de vista ético, democrático e respeitador do ser humano, não poderia ser considerado algo bom de forma alguma. Pelo contrário, só traz consequências destrutivas e depõe contra o caráter de quem “pensa” assim.

Um exemplo muito óbvio da iniquidade dos que separam o povo entre “nós os retos esclarecidos” e “eles os iníquos estúpidos” foi o que aconteceu no Brasil inteiro, principalmente no Sul-Sudeste, durante e após o segundo turno presidencial de 2014. Milhares daqueles que tanto se dizem “cidadãos de bem” revelaram a crueldade que permeia seus corações.

Durante a segunda campanha eleitoral de Aécio Neves, representante de quase toda a direita brasileira, fervia em grande parte de seus eleitores um violento ódio contra quem havia votado em Dilma Rousseff no primeiro turno, assim como um fanático desejo de expulsar “de qualquer jeito” o PT do Palácio do Planalto. E muitos de seus motivos derivavam dos mais abjetos preconceitos – racismo, ódio de classe, xenofobia regional, egocentrismo etc.

E essa raiva política explodiu depois que a presidenta foi reeleita. Viu-se uma horda de “aecistas” despejando seu ódio contra minorias – principalmente nordestinos, nortistas, negros e pobres –, contra a presidenta e o PT, contra os eleitores destes e contra a própria democracia. Afinal, os “cidadãos de bem e direitos” haviam sido contrariados em seu desejo pela maioria do eleitorado, com a derrota de Aécio.

Segundo eles, nessas eleições “o mal” venceu “o bem”. Os “homens e mulheres de bem” que “queriam mudar o Brasil” foram derrotados pelos “burros”, “ignorantes” e “miseráveis” (no sentido de xingamento e de ódio de classe) que haviam votado em Dilma. E essa “indignação” explodiu sob a forma de centenas ou milhares de crimes de ódio por todo o país, seja em forma de xingamentos e ameaças nas redes sociais da internet, seja através de violência física nas ruas.

Isso tudo se baseou na divisão arbitrária que essa parcela mais raivosa da direita brasileira fez entre eleitores de Aécio e eleitores de Dilma. Do lado dele estavam os “cidadãos direitos” que “lutam para vencer na vida” e “não vendem seu voto em troca de Bolsa Família”. E do dela estavam os “vagabundos” “miseráveis” que “votam com o estômago”. Em outras palavras, na separação entre “nós os direitistas do bem” e “eles os esquerdistas do mal”.

E nisso, como fica claro, a grande iniquidade foi justamente essa divisão entre “justos” e “iníquos”. Os “justos” foram os maiores iníquos dessa história, especificamente por terem promovido essa separação artificial da sociedade e feito de tal atitude sectária o fundamento de uma série de discursos de ódio e ações violentas. Fizeram o que todos os opressores da História humana fizeram e fazem: dividir o mundo em que vivem entre “nós” e “eles”, glorificando “nós” como seres “superiores” e discriminando e oprimindo “eles” como seres “inferiores”.

Esse paradoxo moral deixa evidente que devemos desconfiar de quem se diz “cidadão de bem” e tenta se distinguir dos “ignorantes do mal”. Não existem anjos e demônios nas lutas políticas, mas sim pessoas que buscam interesses diferentes, assim como condutas éticas e condutas antiéticas, as quais podem pesar a favor ou contra os diversos lados do conflito. E nisso a condenação do outro que pensa diferente como o “ruim” a ser “combatido” pesa apenas contra o próprio julgador, ao invés daquele que é julgado.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Gustavo

novembro 1 2014 Responder

Você só está esquecendo que houve motivos de sobra para a repulsa que o PT despertou em uma boa parte dos eleitores, boa parte desses eleitores, assim como eu, ex-petistas. Você coloca o antipetismo como se fosse sinônimo de reacionarismo, como se todo antipetista fosse um fascista que agora está culpando o nordeste e fica mimimi separatista. Isso é muito longe da realidade.

Você faz um post sobre gente criando divisões entre bonzinhos X malvadinhos sem perceber que está se colocando (e colocando os que pensam como você) como o bonzinho em cruzada contra os malvados fascistas/rascistas que querem a morte dos pobres por inanição.

O governo PT foi um continuísmo descarado do governo FHC. Descarado. Tão corrupto e pró elite quanto o antecessor. Você defendia o voto na Dilma como um voto contra o conservadorismo? Faça-me o favor!!!

Você me censurou DUAS vezes sem motivo algum, vamos ver se terá a terceira…

    Robson Fernando de Souza

    novembro 1 2014 Responder

    Você já teve dois comentários apagados por grosseria e agressividade. Próximo comentário assim, vai ser vetado de comentar por aqui. E seu comentário não será respondido além desta minha resposta, por também ter sido agressivo (embora dessa vez não a ponto de inspirar uma nova deleção por violação das regras dos comentários).

      Ícaro Motta

      novembro 5 2014 Responder

      Pensar e ter opinião contraria a do blogueiro é ser grosseiro e agressivo a ponto de ser alijado de comentar no blog?
      Viva à “democracia” bolivariana!

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo