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Orgulho de viver num “país conservador”? Conte-nos mais
Dizer ter orgulho de viver num "Brasil conservador" implica ~necessariamente~ ter orgulho de ver perpetuado o estado de coisas que inspira charges como essa.

Dizer ter orgulho de viver num “Brasil conservador” implica ~necessariamente~ ter orgulho de ver perpetuado o estado de coisas que inspira charges como essa.

Depois dos resultados do primeiro turno das eleições de 2014, muitos brasileiros argumentaram que o cenário político brasileiro foi “realinhado” com o perfil do eleitorado, alegadamente “muito conservador”. E muitos direitistas tomaram isso como motivo de orgulho. Para eles, nada mais “feliz” do que pertencer a um “país conservador” apegado aos “valores da tradição” e “da moral e dos bons costumes”. Vale então questioná-los sobre do que estão se orgulhando mesmo.

A essas pessoas, que votaram assumidamente em candidatos assumida ou enrustidamente de direita, façamos uma pergunta com dez pontos, cujas respostas pode ser “sim”, “não” ou alguma embromação: vocês têm de fato orgulho de serem parte de uma sociedade que, alegadamente conservadora como vocês, pretende perpetuar:

1. uma multicentenária tradição cultural marcada por autoritarismo, ausência de espírito democrático, cultura de violência, cidadania para poucos, machismo/misoginia, racismo, ódio de classe contra os pobres, contraste entre privilegiados e despossuídos, políticas de “limpeza” social que vitimam principalmente pessoas negras pobres, discriminação sistemática de pessoas que não são cisgêneras e heterossexuais, restrição de direitos civis e sociais, desprezo profundo para com o meio ambiente e a fauna não humana, aversão à universalidade dos Direitos Humanos, entre outros desvalores?

2. uma cultura permeada por valores violentos, discriminatórios, opressores e egoístas que contribuem decisivamente para a perpetuação de índices nacionais de violência urbana e rural comparáveis a países em guerra?

3. uma “consciência” política baseada em ódio passional contra a oposição (dita) de esquerda, muito mais do que em argumentos racionais para se defender determinada(s) ideologia(s)?

4. um cenário de profundas desigualdades sociais que, se dependesse de vocês, nunca mudaria para um estado de justiça social, uma vez que vocês vivem vociferando contra o Bolsa Família, a construção de habitações populares, as cotas raciais e sociais em universidades e no serviço público, as políticas localizadas de inclusão de dependentes químicos e pessoas em situação de rua e outras políticas sociais?

5. um quadro político no qual prevalecem esmagadoramente os interesses de latifundiários adeptos do crime contra o meio ambiente e a vida humana, de teocratas contrários ao Estado Laico, de empresários mi e bilionários, de policiais ultraviolentos violadores costumeiros da própria lei que dizem defender e de neofascistas defensores do ódio contra múltiplas minorias e da supressão da democracia?

6. o mesmo quadro político que tem como seculares tradições a corrupção, o governo para interesses privados, o coronelismo, o patrimonialismo, o corporativismo, a privatização daquilo que é público e outros vícios antidemocráticos e anticidadãos?

7. o mesmíssimo cenário político no qual improbidades administrativas e crimes de corrupção cometidos por políticos não pertencentes aos partidos que vocês mais odeiam são impunes e vocês não falam um “ah” sobre isso?

8. a falsa meritocracia que vocês dizem reger a economia e a sociedade brasileiras, que não consegue esconder que homens brancos cis-héteros filhos de pais ricos têm dúzias de vezes mais chances de “vencer na vida” do que mulheres negras trans homossexuais de origem pobre e estas últimas têm dezenas de vezes mais chances de serem torturadas e/ou assassinadas a qualquer momento – simplesmente por serem quem são – do que os primeiros?

9. uma realidade na qual direitos que deveriam ser universais nada mais são do que privilégios de poucos?

10. um estado generalizado de violência urbana e rural em vários sentidos, ódio e preconceito contra minorias, exploração de pessoas socialmente vulneráveis, egoísmo, consumismo, degeneração ambiental, imaturidade político-democrática, exclusão social e governo para poucos?

Vale pensar se algum desses dez pontos dá orgulho para alguém. Porque orgulhar-se de viver num “país/sociedade conservador(a)” implica necessariamente achar bom que todos esses aspectos desse “Brasil conservador” estejam sendo perpetuados e qualquer esforço para diminuí-los ou eliminá-los seja rechaçado e revogado.

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