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Por que ser contra o Bolsa Família: palavra de um cidadão de bem politizado, democrata e consciente

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Editado em 29/01/2016 às 13h02

Muita gente por aí é visceralmente contra o Bolsa Família. Afinal, esse programa é uma diabólica anomalia num país tão meritocrático como o Brasil. E aqui logicamente todos têm as mesmas condições e oportunidades de vencer na vida, sendo qualquer programa governamental de renda mínima uma afronta que tira dos pobres a obrigação de trabalhar e faz a classe média e os ricos sofrerem. Então venho escrever este texto mostrando dez motivos por que todos deveriam ser contra esse programa lançado em 2004 pelo satânico, maléfico e destruidor governo Lula:

1. O Bolsa Família faz pessoas muito pobres pararem de trabalhar e as torna acomodadas com sua condição de vida. Afinal, um valor tão alto quanto 77 e 332 reais por mês, mesmo que a pessoa tenha quase uma dezena de filhos, é praticamente o prêmio de uma Mega-Sena.

Essa dinheirama não só cobriria 20 vezes todas as necessidades básicas (alimentação, transporte, lazer, vestuário, habitação etc.) de uma família com tantas crianças e adolescentes, como também dá plenas condições de todo mundo, dos pais aos filhos mais novos, ter uma vida tranquila pelo resto da vida sem que precisem procurar mais nenhum trabalho.

E lhes dá tanto conforto que deixam de precisar pensar em melhorar de vida. Para que subir ainda mais na vida quando se conta com uma fortuna dessa?

2. O BF torna seus beneficiários bon vivants felizes da vida. Já mencionei acima que esse enorme valor mensal de 77 a 332 reais torna qualquer pessoa um marajá ou magnata permanentemente livre da necessidade de ganhar seu sustento num trabalho.

E assim sendo, é óbvio que essa colossal renda dada de graça pelo governo torna seus beneficiários literais bon vivants, gente que vive do luxo, do requinte e das mil e uma regalias.

Para quem ganha esse Rio Amazonas de dinheiro, nada mais lógico do que viver de festas, de viagens internacionais que duram meses cada uma, de banquetes que mais parecem o de alguma família real europeia, entre outros luxos que a sofredora e fustigada classe média jamais nem poderá sonhar em alcançar;

3. Enquanto os beneficiários do BF passam a ser, como diz a honrada classe média conservadora (CMC), vagabundos, esta mesma classe média continua sendo fustigantemente obrigada a trabalhar de sol a sol, para ter pelo menos 5% da abastada condição de vida daqueles que ganham mensalmente a já mencionada dinheirama.

A CMC diferencia-se dos ganhadores de BF porque, afinal, enquanto estes vivem do bem-bom, aquela vive de um árduo trabalho esforçado desde a adolescência e vence na vida sempre pelo mérito próprio.

Essa história de jovens da CMC já nascerem quilômetros à frente dos pobres na maratona capitalista por ganharem vultosas mesadas desde pequenos, estudarem em escolas sofisticadas com mensalidades de quatro dígitos de reais, passarem nas primeiras colocações do vestibular graças ao cursinho que cobra mensalidade de mil reais, poderem viver do “paitrocínio” ou “mãetrocínio” até encontrarem um emprego à altura do seu doutorado e já começarem a vida laboral ganhando 6 mil reais é tudo trololó de esquerdopata comunista.

Também é lorota esquerdista esse negócio de que, enquanto esses jovens contam a priori com tantas condições de vencer na vida, a grande maioria dos jovens pobres só tem acesso a uma destroçada educação básica pública e um ou outro programa comunitário de cursos profissionalizantes, passa décadas num trabalho que paga menos de mil reais e não tem a mínima condição de alcançar os filhos da CMC em remuneração, status e conforto. Quem fala isso é maconheiro vagabundo dos cursos de ciências humanas de universidades federais, gente que não tem o que fazer e perde tempo questionando a miséria, as desigualdades sociais e a exploração dos trabalhadores pelo grande empresariado;

4. A CMC também é muito mais honrada do que os ganhadores de BF, porque nunca precisaram nem precisarão de qualquer ajuda, direta ou indireta, vinda do Estado. Esse negócio de restituição do imposto de renda render a uma família de classe média-alta bem mais do que um ano inteiro de Bolsa Família a uma família pobre pequena é fantasia comunista. As ajudas financeiras estatais dadas em 2008, quando estourou a crise dos EUA, ao banco onde a mãe da CMC trabalha, também.

Também é lorota esse papo de que, graças às políticas de redução do IPI, a montadora automobilística onde trabalha o pai da CMC pôde evitar demiti-lo. E outra conversa para boi dormir é o fato de que a padaria do tio de classe média, aquele mesmo que votou no Pastor Everaldo no primeiro turno e declarou voto em Aécio Neves no segundo, foi salva de fechar em 2009 porque, graças às políticas federais do PT de geração contínua de empregos, o Brasil não afundou com a crise internacional;

5. O BF foi feito para o PT comprar os votos dos mais pobres e obrigá-los a votar no partido. Afinal, pouquíssimas pessoas abriram mão do benefício – essa história de mais de 1,5 milhão de famílias que puderam declarar saída do programa por melhoria de condição de vida é balela que nem quero me dar ao trabalho de refutar. Além disso, o PT também está comprando votos nos Estados Unidos, no Japão governado pela direita, na Alemanha e em outros países que eu, um homem de bem conservador, tanto admiro como exemplos de nações a serem seguidos;

6. O BF é uma aberração, um absurdo inaceitável numa sociedade capitalista como a nossa. Não importa se isso aumenta o volume de dinheiro em circulação, melhora a economia e é adotado também nos países capitalistas que eu mencionei acima. Nem que o programa nasceu influenciado pela ideia do imposto de renda negativo do liberal Milton Friedman, pensador capitalista do século 20 e da virada do milênio. Vou insistir até a morte que o BF é uma aberração comunista e só causa desgraça para a economia;

7. O ideal seria acabar com todo e qualquer programa governamental de renda mínima e obrigar todos os brasileiros a lutarem por conta própria para vencerem na vida. É lógico que aqueles moradores de rua que vieram de uma favela da capital do estado vizinho, aquelas pessoas já de meia idade que moram em palafitas e não terminaram nem o equivalente ao atual Ensino Fundamental 1, e aqueles despossuídos que acabaram de perder os barracos onde moravam depois daquele deslizamento de terra no morro onde viviam, entre tantas outras pessoas em condições similares, têm as mesmas condições e oportunidades de prosperar e ganhar muito dinheiro que as famílias da nobre CMC e os filhos e netos herdeiros dos bilionários brasileiros;

8. O Brasil é uma sociedade plenamente meritocrática, e o BF caracteriza uma infeliz aberração que vem bagunçar tudo. Essa história de gente privilegiada, que já nasce em berço de ouro e herda milhões ou bilhões de reais dos seus pais ou avós, e de jovens da CMC que estudam nas melhores escolas particulares da capital e nas melhores universidades do país, vivem do “mãe-e-pai-trocínio” até acabarem o mestrado e já começam o primeiro emprego na empresa do pai ganhando 5 mil reais, é balela. É claro que as mulheres negras que padecem na miséria da classe E, e ainda sofrem com racismo, machismo e ódio contra pobres, têm as mesmíssimas chances de se esforçarem e vencerem na vida que os homens brancos heterossexuais da classe média-alta;

9. Para manter suas despesas com o BF, o governo arranca o couro da classe média com os impostos – ou seja, o BF é uma bolsa feita com o couro da sofrida CMC. Esse programa arranca muito mais impostos do que os gastos do governo com os juros e amortizações da dívida pública e as despesas com a previdência social. É inadmissível ver 0,5% do PIB brasileiro ser gasto num programa social como esse. Muito mais inaceitável do que os mais de 42% do Orçamento da União destinados a pagar juros da dívida e dos quais eu nunca me queixei;

10. O BF me faz rosnar de ódio. Eu não admito, de jeito nenhum, ver pessoas pobres melhorando de vida e ganhando um pingo de chance de sonhar com uma vida melhor. Onde vou conseguir uma empregada doméstica e um funcionário ganhador de salário mínimo, para eu poder explorá-los, maltratá-los e exercer neles meu poder dominador?

Por isso tudo, defendo, se não a abolição do Bolsa Família, a cassação do direito de seus beneficiários ao voto. Afinal, eu sou amicíssimo da democracia – desde que essa democracia seja como eu quero, gire em torno de pessoas como eu, atenda unicamente a meus interesses e inclua apenas pessoas como eu. Sou tão defensor da democracia e da liberdade que defendo que pessoas percam seus direitos políticos por estarem sendo socorridas em sua miséria social pelo Estado, e que elas percam a liberdade de comprar, graças à ajuda estatal, uma comidinha que seja.

E aí, galera, sou um cidadão de bem politizado, democrata, consciente e bem informado?

Obs.: Fica muito claro que este texto é uma ironia.

imagrs

8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Rodney Cruz

abril 1 2016 Responder

Eu li a manchete e confesso que me assustei. Não parecia conteúdo de seu blog. Nossa, texto muito bom! Sou vagabundo estudante de humanas de universidade federal e adorei o que foi escrito! Abraço!

ksdjn

outubro 25 2014 Responder

jose filho

outubro 24 2014 Responder

só por curiosidade: O BF é inconstitucional, art 195 § 5º CF 88 determina que qualquer benefício tem que ter fonte de custeio e o Bolsa não tem; nada impede que isso seja corrigido com essa indicação na lei como também nada impede que seja declarado inconstitucional e perca seus efeitos.

    Robson Fernando de Souza

    outubro 24 2014 Responder

    “Art. 6o As despesas do Programa Bolsa Família correrão à conta das dotações alocadas nos programas federais de transferência de renda e no Cadastramento Único a que se refere o parágrafo único do art. 1º , bem como de outras dotações do Orçamento da Seguridade Social da União que vierem a ser consignadas ao Programa.

    Art. 7o Compete à Secretaria-Executiva do Programa Bolsa Família promover os atos administrativos e de gestão necessários à execução orçamentária e financeira dos recursos originalmente destinados aos programas federais de transferência de renda e ao Cadastramento Único mencionados no parágrafo único do art. 1º .”

    Fonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/l10.836.htm – Lei 10.836/2004, que institui e regulamenta o Bolsa Família como política de Estado

    Lima

    abril 1 2016 Responder

    Comentário grosseiro contra outro comentador apagado. Refaça seu comentário sendo pertinente e respeitoso. RFS

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