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Shopping Center Federativo do Brasil: um sonho de direita
Essa é a "imagem" do Brasil sonhado por conservadores capitalistas, liberais-econômicos e "libertários"

Essa é a “imagem” do Brasil sonhado por conservadores capitalistas, liberais-econômicos e “libertários”

Andando por um shopping, entrando e talvez comprando em algumas de suas lojas, comendo nas lanchonetes da praça de alimentação, vislumbramos o que grande parte da direita brasileira, principalmente conservadores e livremercadistas, gostaria que o Brasil fosse.

O shopping center é a imagem do país ideal dos adoradores do capitalismo, da cultura de consum(ism)o, da hegemonia dos valores culturais do liberalismo econômico. E se dependesse só deles, o Brasil o adotaria integralmente como modelo de nação, sociedade, cultura, vida.

Seria um país onde quem mandaria em tudo seria a iniciativa privada, o empresariado, os detentores de dinheiro, os conquistadores de almas consumidoras, e o Estado seria simplesmente uma administração. Nele a existência humana teria como sentido e objetivo “vencer na vida”, ou seja, tornar-se um dia um empreendedor, dono de uma robusta e milionária empresa – ou bilionária, na melhor das hipóteses – que teria ali uma ou mais prósperas lojas.

No Shopping Center Federativo do Brasil, o ser humano valeria o que poderia pagar e comprar, ou o trabalho que poderia exercer numa loja – como vendedor, caixa, balconista, gerente, segurança etc. E como tal, deveria ter a condição socioeconômica e educacional de exercer um desses papéis. O indivíduo não teria o sentimento de pertença a uma sociedade solidária que visasse o bem comum, mas sim a ambição de estudar para entrar no mercado de trabalho, trabalhar duro e escalar a hierarquia socioeconômica até virar um empresário.

Viveria, pelo menos fora dos bastidores de sua empresa, uma vida cuja moral é orientada para ser, ou parecer, cordial, prestativo, justo, amigável etc. para com seu próximo. Mas não necessariamente por alteridade, por legítimo e altruístico respeito solidário, e sim para ter uma boa reputação comercial e empresarial, para preservar ou reforçar a imagem institucional de sua empresa.

Quem não se encaixasse em nenhuma dessas funções estaria excluído do sistema. Seria “convidado” a se retirar – com truculência, caso o segurança ache “melhor” -, tal como a polícia retira criminosos de circulação no Brasil real e os joga na cadeia, quem se recusasse a aceitar o shopping como ele é, quem entrasse nele para fazer algum protesto ou for flagrado coletando material para denúncia, quem não aparentasse ser um potencial ou efetivo consumidor. Afinal, para a pessoa ser considerada “membro” da sociedade, teria que aceitar as leis e a ordem social do shopping e exercer um dos papéis já mencionados mais acima.

Pessoas pobres que não tivessem condições de integrar o mercado consumidor do centro de compras não teriam vez. Viveriam na favela situada do lado de fora das grades do estacionamento, implorando por um trocado, um naco de solidariedade e compaixão de alguém que vá ao shopping trabalhar ou comprar e tenha algum dinheirinho sobrando. A administração do recinto fingiria que não existem, a não ser para mandar a segurança expulsar quem da favela for pego andando “maltrapilho” dentro do mall ou no estacionamento. Pobre respeitado, só se for funcionário de alguma loja.

A economia seria centrada nas empresas médias e grandes que podem alugar espaço em shoppings. Nada de cooperativas, artesanatos, campesinato orgânico e familiar – enfim, trabalhos que fugissem à lógica capitalista. Quem não aceitasse o capitalismo de shopping ou não tivesse dinheiro para alugar um slot, simplesmente seria tratado como se não existisse ou sua existência fosse indesejada.

Já o Estado funcionaria basicamente para fornecer o espaço às lojas que queiram se instalar, lhes dar condições de funcionamento, manter os seguranças vigiando o recinto para evitar desvios da ordem e colocar empresas privadas para fornecer água, energia, gás e serviços de telecomunicações aos corredores e lojas.

Como seria um mero administrador, não promoveria políticas públicas, nem de inclusão de pessoas pobres no universo do shopping, nem de exigência de responsabilidade socioambiental às lojas, nem evitar abusos econômicos das empresas nele instaladas.

Serviços hoje públicos, como educação e saúde, seriam prestados por empresas privadas instaladas nos devidos slots. Seria como muitos shoppings de hoje em dia, que já têm consultórios privados e universidades idem em seu interior.

Observando, aliás, todo esse resumo de como seria esse país-shopping, percebemos que o Brasil já tem muitas semelhanças com o shopping center, em se tratando de ordem social e sistema econômico. Muito da descrição feita já pode se identificado com o país.

Mas ainda pode-se dizer que a ordem do país é apenas parcialmente identificável com a do shopping. Ainda há políticas públicas não orientadas ao puro poder policial ou à desregulamentação e privatização. Mas isso a direita brasileira, em sua maioria, almeja mudar. Quer completar esse assemelhamento. Quer concluir a conversão do Brasil numa nação orientada pelo livre mercado, pelos “bons costumes” norteados por sua relevância comercial-econômica, pelo individualismo imoderado, pela privatização do serviço público, pela propriedade de tudo exercida por algumas pessoas físicas ou jurídicas, pela “meritocracia” de fachada, pela exclusão dos “menos aptos”.

Daí pensamos qual é a sociedade brasileira que queremos. Uma sociedade solidária e justa, que goze de patrimônio coletivo, direitos garantidos, políticas públicas de equidade e respeito a todos os seres humanos independente do quanto eles tenham de dinheiro, ou um gigantesco shopping, onde imperariam o capitalismo, a grande empresa, a propriedade exclusivamente privada e a cultura individualista demais e solidária de menos.
Se queremos a primeira opção, precisamos nos contrapor à direita, como a pedra no sapato de quem quer fazer triunfar a cultura da privatização e da capitalização.

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9 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernando

outubro 14 2014 Responder

Tá vendo como tu tá novamente pensando em termos de coletivo? “Sociedade capitalista meritocrática” é algo que não existe por si só, mas que toma forma quando seus membros aderem a esses dois elementos.

E olha só, isso é algo comum. Capitalismo e meritocracia são parte do dia-a-dia das pessoas, não importa quais suas condições. O ser humano tá sempre pensando em como melhorar seu bem-estar, e já descobriu há muito tempo que a receita é acumular capital e produzir. De que modo um eremita numa ilha vive melhor: catando peixes com as mãos ou usando uma rede? A rede é o capital dele, que possibilita que ele tenha resultados melhores no mesmo tempo ou até em menos tempo. Conforme houver mais pessoas, a capacidade de produção (e de suprimento das necessidades) aumenta, se umas delegarem às outras determinadas tarefas. Isso é a divisão do trabalho.

Por isso se espera que, sendo deixadas em paz, as pessoas ajam de modo capitalista, no fito de satisfazer seus próprios interesses. Todas elas.

Quanto à meritocracia, bem, se tu achar justo que eu te obrigue a ir em todas as padarias próximas da tua casa e comprar um pão em cada uma, em vez de comprar todos os pães numa só (que é, presume-se, a padaria que tu considera a melhor), acho que tu não ia gostar.

Já quanto à questão do determinismo ser uma ideia conservadora: tu é conservador? Não? Então talvez não devesse adotar ideias deles.

    Robson Fernando de Souza

    outubro 15 2014 Responder

    E você pensa em termos de individual e anticoletivo – e a-histórico -, pelo visto.

      Fernando

      outubro 15 2014 Responder

      Eu considero coletivos como uma reunião de indivíduos. Não há nada, dentro da seara das ciências humanas, localizado fora do indivíduo. Se algo acontece com um determinado coletivo (por exemplo, o Brasil) numa determinada área das ciências humanas (economia, por exemplo) a razão tem de estar dentro do indivíduo. Logo, tem de se estudar o indivíduo. Isso se chama individualismo metodológico. Um ocasional agrupamento dos indivíduos em coletivos serve apenas para facilitar a análise da história em termos estatísticos.

      Já a história de nada vale sem uma teoria para interpretá-la. Sendo a história uma ciência humana, também deve-se estudá-la a partir do indivíduo.

Fernando

outubro 14 2014 Responder

Que amor. Meu coração e minha roupa íntima se derretem com tanta preocupação com os mais pobres e os excluídos.

Só tem uma coisinha que ficou de fora desse texto tão fofo: o governo ajuda apenas numa proporção bem menor do que ele atrapalha. O governo vai lá, desvaloriza a moeda, arruína o poder de compra do pobre, emperra o empreendedorismo, encarece artificialmente o custo da mão-de-obra, impõe cobrança de tributos a bala que no fim só atingem aqueles mais pobres (os ricos sempre acham maneiras de preservar seu patrimônio), enfim, causa uma série de problemas. Daí depois de ter feito tudo isso o governo vai lá, dá uma “ajudinha” e posa de salvador dos pobres, pra eles e pros outros.

É mais ou menos como eu quebrar tuas pernas, te dar uma cadeira de rodas e depois outra pessoa te cobrar gratidão pela minha caridade.

No fim talvez isso faça parte do projeto de poder coletivista oligárquico (aquela história de “quanto mais pobres eles forem mais eles precisam de nós”) mas não é nem um pouco defensável.

    Robson Fernando de Souza

    outubro 14 2014 Responder

    Seu comentário foi considerado agressivo e fechado a debate, por isso o autor do blog se reserva o direito de não respondê-lo. RFS

      Fernando

      outubro 14 2014 Responder

      Tá bem, eu edito.

      O governo ajuda apenas numa proporção bem menor do que ele atrapalha. O governo vai lá, desvaloriza a moeda, arruína o poder de compra do pobre, emperra o empreendedorismo, encarece artificialmente o custo da mão-de-obra, impõe cobrança de tributos a bala que no fim só atingem aqueles mais pobres (os ricos sempre acham maneiras de preservar seu patrimônio), enfim, causa uma série de problemas. Daí depois de ter feito tudo isso o governo vai lá, dá uma “ajudinha” e posa de salvador dos pobres, pra eles e pros outros.

      É mais ou menos como eu quebrar tuas pernas, te dar uma cadeira de rodas e depois outra pessoa te cobrar gratidão pela minha caridade.

      Não vejo como isso seria defensável.

        Robson Fernando de Souza

        outubro 14 2014 Responder

        Ok, é o que vc pensa – e eu precisaria dar uma lida pra (tentar) refutar -, mas isso não tem muito a ver com o tema do texto – que não é especificamente intervenção estatal na economia.

          Fernando

          outubro 14 2014

          Não tem muito a ver? Tem tudo a ver. Foi o intervencionismo que nos trouxe para onde estamos agora. Foi o intervencionismo que ferrou com a vida de muita gente enquanto privilegiava os amigos do rei. E é agora o intervencionismo que tenta corrigir essas distorções a base de caridade – sem, é claro, reduzir os danos que causou antes, num ciclo infindo de dependência e colheita de dividendos políticos.

          Dá uma lida nesse gráfico que tu vai ver que a disparada na desigualdade ocorreu justamente na época das piores políticas econômicas de que se tem notícia no Brasil:

          http://www.tradingeconomics.com/brazil/gini-index-wb-data.html

          Quanto ao texto: é um pretenso retrato de uma distopia, de quem pensa em termos de cidade dividida. Algo do tipo “o pobre é pobre porque sim, e nada vai fazê-lo mudar de situação, a não ser que o estado intervenha e repasse parte dos ganhos do rico para o pobre, porque o rico é sempre egoísta e gosta de viver à parte do tecido social”.

          Esse raciocínio é estruturado em conceitos errados:

          1) Apresenta a economia como um jogo de soma zero, algo que, se tivesse a mínima lógica, faria a humanidade ficar estagnada no Paleolítico, fazendo guerra por punhados de frutinhas;

          2) Contém uma forte dose de determinismo histórico, um fatalismo pessimista e completamente absurdo, pondo pessoas como autômatos da história; e

          3) Ignora o fato de que a economia é um sistema complexo, onde todos dependem de todos (veja quantas pessoas são envolvidas na produção de um simples lápis, por exemplo) e não há quem usufrua de “poder” (entre aspas, porque em um livre mercado de fato o poder maior é o do consumidor) sem uma grande contraprestação.

          Vai me desculpar, mas não há como ter uma leitura correta da situação partindo desse tipo de ideia, advinda claramente de quem pensa em termos de classe e não de indivíduo.

          Robson Fernando de Souza

          outubro 14 2014

          1. Economia ou sociedade capitalista “meritocrática”?
          2. Esse determinismo histórico e fatalismo pessimista não seriam algo inspirado no que muitos conservadores acreditam?
          3. Idem ao item 1.

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