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As três lições das eleições de 2014
No final das contas, os protestos de junho de 2013 tiveram mais efeito (?) para os inimigos dos Cavaleiros do Zodíaco do que para o quadro político brasileiro

No final das contas, os protestos de junho de 2013 tiveram mais efeito (?) para os inimigos dos Cavaleiros do Zodíaco do que para o quadro político brasileiro

Editado em 06/10/14 às 21h00

Os resultados das eleições de 2014 foram estarrecedores e decepcionantes. Passados um ano e quatro meses dos protestos de junho de 2013 que supostamente pediam mudanças, a maioria da população votou pela conservação ou mesmo retrocesso da ordem vigente, e deixou claro que não há nenhuma grande mudança política em andamento no Brasil.

Alckmin foi reeleito com folga em São Paulo e Serra ganhou o Senado. O Rio terá um segundo turno com Pezão, sucessor de Sérgio Cabral, e Marcelo Crivella. Pernambuco elegeu o último poste de Eduardo Campos, Paulo Câmara, com ampla vantagem. Collor foi reeleito senador em Alagoas. Pessoas de outros estados também lamentam a eleição de representantes do atraso.

O extremista Jair Bolsonaro foi o deputado federal mais votado no Rio, elegeu um dos seus filhos para estadual no mesmo estado e terá como colegas de Congresso outro filho seu e a filha de Garotinho. Marco Feliciano, Coronel Telhada, Celso Russomanno e uma enorme quantidade de deputados do PSDB, PSC, PR, PP, DEM e outros partidos pró-status quo triunfaram estadual e federalmente em São Paulo.

As demais Assembleias Legislativas e o Congresso ficarão ainda mais cheias de gente que odeia a mudança e o progressismo. Os partidos ninhos de ruralistas e teocratas cresceram bastante. Tudo conspirou para um Poder Legislativo mais retrógrado e opressor.

Esses acontecimentos, que foram uma “ótima” notícia para os direitistas e uma péssima para defensores dos Direitos Humanos, do meio ambiente e de outras bandeiras de esquerda, nos deram três lições para não serem esquecidas nem tão cedo.

 

1. Fora a esquerda que nunca deixou de protestar, não havia nenhum “gigante acordado” nas ruas em junho de 2013

Falava-se muito, na época daqueles numericamente grandes protestos, que “o gigante” havia “acordado”, e que “os filhos” do Brasil “não fugiriam à luta”. Mas depois dali – aliás, depois de 30 de junho, final da Copa das Confederações – as manifestações que reuniam centenas de milhares de pessoas não teriam mais continuidade.

Houve algumas vagas promessas, como plebiscito para reforma política e investimentos em mobilidade urbana, mas isso acabou ficando no campo das promessas esquecidas. Tudo continuou como estava, exceto por alguns cancelamentos de aumentos de passagens de ônibus e trens e a sanção de algumas leis municipais de passe livre estudantil.

O sistema sociopolítico continuou do jeitinho que estava. E com exceção dos movimentos sociais que nunca deixaram de ir às ruas, o tal do “gigante” acabou na prática esquecendo tudo. Voltou ao seu dia-a-dia despolitizado. Mais adiante, passou a curtir e compartilhar as “TVs Revoltas” da vida e votou justamente em quem é contra qualquer perspectiva de mudança social no sentido progressista. E em seguida votou logo em quem lhe havia ordenado a repressão e o silenciamento violento.

O que se viu foi que não existia ali nas ruas de junho nenhum “gigante” que tivesse estado “deitado em berço esplêndido” e depois “acordado”. O que houve era um conjunto de indivíduos reunidos que simplesmente demonstraram insatisfação e queriam “mudanças”, mas não sabiam como essas mudanças seriam realizadas.

No fundo reivindicavam que os políticos de sempre mudassem o Brasil por eles. Queriam que fizessem por conta própria todo o trabalho, mesmo que fossem comprometidos com a ordem vigente. Não estavam dispostos a buscarem tal mudança eles mesmos. Tratava-se, em sua maioria, de analfabetos políticos tentando escrever alguma coisa, sem muito sucesso.

Esse mesmo analfabetismo os impediu de perceber que o problema ia muito além de, por exemplo, tirar o PT e José Sarney do poder, derrubar alguns projetos de lei e ganhar linhas novas de metrô.

Não tinham ali a capacidade de enxergar as raízes históricas da corrupção endêmica, do patrimonialismo, do autoritarismo e do governo para poucos, todos esses problemas que enraízam os conhecidos problemas de saúde e educação ruins, economia fraca, violência urbana galopante e salários baixos.

Em outras palavras, a maior parte das massas manifestantes de junho de 2013 eram apenas numerosas. Politicamente eram pequenas demais e estavam muito longe de se tornar gigantes e poderosas. Isso ficou evidente nos resultados de ontem.

De grandiosidade política, só havia a minoritária parcela dos movimentos sociais de esquerda, que sempre frequentaram as avenidas como palcos de manifestações e lutas. Os que, ao contrário dos “gigantes acordados” de faz-de-conta, nunca haviam dormido. Mas mesmo eles acabaram não conseguindo eleger tantas pessoas assim.

 

2. O Brasil não está preparado para discutir o aprofundamento e radicalização da sua democracia. Tampouco para participar de campanhas radicais de boicote eleitoral

Além da pequenez do falso “gigante” de junho, o que se viu ontem foi que a sociedade brasileira não está preparada para discutir a expansão de seus direitos políticos e o aprofundamento da sua democracia. A maioria da população mostrou que ainda está escorada na tradição de deixar ou mesmo pedir que outros – os que têm poder – façam a política, ajam, governem, pensem por eles.

O exemplo atual mais clássico é o da maioria dos evangélicos. Procuram votar em quem chamam de “homens e mulheres de Deus”, atribuindo-lhes praticamente uma autoridade baseada no Direito Divino pós-medieval.

Não lhes importa se as bancadas teocráticas estaduais e federal sejam as mais improdutivas e corruptas de suas casas legislativas. Nem se rasgam a Constituição quase o tempo todo e vivem atentando contra os Direitos Humanos, o patrimônio público, a justiça social e a laicidade do Estado brasileiro. O mais “importante” é que os eleitos são “pessoas de Deus”, portadores de um poder religioso a ser fundido com poder político.

Milhões de não evangélicos pensam parecido, mesmo que de maneira mais secularizada. Apegam-se às tradições, por mais violentas, opressoras, discriminatórias e abusivas que elas sejam. E repudiam quando alguém tenta promover mudanças que impliquem perda de privilégios, o questionamento da tradição e o combate ao ódio.

Por isso, não hesitam em votar nos seus próprios algozes. Não lhes importa se a polícia é abusiva e ineficaz, se universidades renomadas como a USP estão sucateadas, se a manifestação de insatisfação política nas ruas é tratada como caso de polícia, se a própria educação pública está em frangalhos.

Se for para não deixar que aconteçam avanços que consideram “absurdos”, como o reconhecimento dos direitos das minorias políticas, a subversão da “meritocracia” social e o desprivilegiamento dos carros nas ruas, elege-se conservadores, por mais corruptos e autoritários que sejam.

Por outro lado, a parcela de esquerda da população permanece figurando como uma pequena minoria. Seus ideais e suas denúncias parecem estar restritas a uma parcela mínima da população – aquela que tem acesso amplo às redes sociais e seguem páginas, perfis, noticiários e blogs que problematizam os problemas do Brasil e do mundo e estimulam a pensar politicamente.

As campanhas de boicote às eleições, então, só parecem ser levadas a sério por poucos milhares de pessoas. As mensagens que tentam conscientizar para a necessidade de se rejeitar a “democracia” restrita ao voto periódico são fracas, têm alcance ínfimo e, por esses dois motivos, não são levadas a sério.

São rebaixadas ao atributo de “radicais, logo inválidas”, e não emplacam entre uma população que sequer sabe direito o que significa a palavra democracia. Não têm espaço numa sociedade que acha que “participação política” é simplesmente votar em qualquer um e/ou dizer “Fora PT” nas redes sociais.

Daí é ingênuo achar que hoje, na década de 2010, a sociedade está politicamente madura o suficiente para superar o voto e o sistema representativo e pedir por uma democracia mais radical. Se nem mesmo houve o pudor de promover o “voto consciente” e rejeitar nas urnas a permanência de gente corrupta e autoritária no poder, menos ainda há hoje condições para o povo libertar-se da tradição de confiar a outrem o poder de pensar e governar por ele.

 

3. Nunca devemos considerar nosso círculo de contatos e amizades nas redes sociais uma amostra válida da realidade política nacional

Se dependesse do círculo social de algumas pessoas, Luciana Genro e Eduardo Jorge iriam disputar o segundo turno. O Brasil estaria a poucos passos de concluir uma revolução sociopolítica libertária de esquerda e enterrar para sempre o reacionarismo no fundo do abismo das ideologias desprestigiadas e esquecidas.

Além disso, nessa utopicamente hipotética situação, nossa sociedade teria se tornado plenamente igualitária e erradicado o machismo, o racismo, a transfobia, o heterossexismo, o elitismo, o capacitismo, o autoritarismo e outros preconceitos enquanto valores culturais coletivos. E se alguém viesse vomitar uma ou mais dessas abjeções, bastaria que fosse excluído das redes sociais e tudo voltaria instantaneamente a ser as mil maravilhas.

Mas o mundo não é assim. Nem o é o Brasil. Fora das centenas de amigos e colegas progressistas que alguns de nós temos em nossos contatos de Facebook e Twitter, há centenas de milhões de pessoas ao redor do planeta cultivando e manifestando os mais nojentos preconceitos e intolerâncias e as mais vorazes sanhas autoritárias e reacionárias por aí, dentro ou fora das redes sociais.

Todos os dias é evidenciado que a humanidade ainda está longe de alcançar as utopias de igualdade, justiça, paz, sustentabilidade, respeito às diferenças e ausência de hierarquias sociais. Pelo contrário, um sem-número de pessoas, tendo ou não vastos poderes políticos, econômicos e/ou religiosos em suas mãos, advogam em favor da manutenção das estratificações opressoras.

Não aceitam a vida senciente e a dignidade como valores a serem respeitados. E, direta ou indiretamente, derramam anualmente milhares de metros cúbicos de sangue humano e não humano para que seus interesses prevaleçam.

Os resultados das eleições nacionais de ontem foram um exemplo disso. Mostraram que o mundo e o Brasil são muito maiores, e piores, do que as nossas bolhas facebookianas dentro das quais nossas utopias estão prestes a serem concretizadas. Evidenciou-se diante de nós que há muito trabalho a ser feito, e ele deve ser muito mais forte e dedicado do que postagens e compartilhamentos no Facebook, no Twitter e em blogs de esquerda.

Com essas três amargas lições, aprendemos que a crença no progresso constante e na linearidade da História é ilusória. Assim como há progressos, também há retrocessos. E devemos imperativamente parar de acreditar que o Brasil já está avançando em termos de amadurecimento político, sair da bolha e fazer um balanço do que é possível fazer nos próximos anos. Transformar o país e a humanidade é mais complicado do que se imagina.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

jose filho

outubro 7 2014 Responder

Luciana Genro até que conseguiu uma quantia considerável de votos, óbvio que seria muita inocência achar que ela conseguiria mais de 3% de votos; mas, acredito que ela já tenha chamado a atenção, o que afasta ela da população, além da falta de doações milionárias igual os grandes partidos são o apoio dela a Venezuela do Maduro, que a visão predominante é a que a população tem mais acesso de uma ditadura de um louco e a proposta do salário máximo, mesmo que na prática hoje um governador ganhe o valor proposto; afasta mesmo quem nunca ganhará esse valor na vida

Jay

outubro 6 2014 Responder

Eu acho um fato interessante que o estado que historicamente produz uma grande parte dos políticos adeptos das piores práticas foi exatamente o mesmo que mostrou algum movimento de mudança. O Rio de Janeiro de Garotinho e Bolsonaro elegeu 5 deputados estaduais e 3 federais do PSol. Nessas horas eu imagino se o que faz a esquerda ou os defensores dos direitos humanos crescer é ter um “inimigo” ou um oposto bem visível, como é o caso do RJ obviamente. Já temos bem claro que a direita e o conservadorismo se mantém por meio de instituições como igrejas evangélicas e do poderio económico de alguns. Será que o que é necessário para a esquerda crescer é uma oposição forte junto com bons líderes como o Freixo e o Chico Alencar são no Rio? Faz sentido essa tese?

    Robson Fernando de Souza

    outubro 7 2014 Responder

    A questão, Jay, é que atualmente só há um partido de esquerda com uma representatividade minimamente razoável, e é o PSOL. É PSOL praticamente sozinho contra dezenas de partidos que vão do centro à direita.

      Jay

      outubro 8 2014 Responder

      Exato, Robson. Eu concordo que o PSol é o único partido de esquerda com uma representação minimamente relevante. O meu ponto é que para que surja lideranças que se propõem como alternativa ao conservadorismo e ao estado policialesco é necessário que a situação já esteja muito complicada em um lugar. Eu digo isso porque parece que as pessoas esperam para que uma situação muito crítica para poder se importar em procurar alternativas. O Rio é notoriamente um lugar onde a polícia comete inúmeras infrações aos direitos humanos, e não a toa, foi lá que surgiu uma liderança como o Freixo. Por outro lado, em outros lugares onde há abusos do estado mas que isso é, digamos, menos comum, como o DF ou Minas, o PSol não cresce. Eu me pergunto, enfim, se é necessário que a população sinta mais o gosto do ferro da direita para que a esquerda possa crescer, infelizmente. Ou não, espero que eu esteja errado e que só o que precisamos é de mais um evento aleatório e outro grande político surja no cenário de outra unidade federativa.

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