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Votar por medo X votar por ódio: a que ponto chegamos

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O primeiro turno dessas eleições deu um duro golpe em quem acreditava, por causa do seu círculo social progressista do Facebook e da ilusão das Jornadas de Junho, que o Brasil estava enfim começando um caminho de mudanças políticas sólidas. Depois dos resultados estaduais, em cuja maioria o conservadorismo triunfou, estamos diante de um segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. As manifestações dos dois lados nas redes sociais nos mostram que teremos uma eleição na qual se votará por medo ou por ódio.

De um lado, muitos eleitores de Aécio declaram ódio contra os nordestinos, negros e pobres que votaram em Dilma no último domingo. Gente de extrema-direita está declarando voto nele. Ele e o PSDB não dão qualquer perspectiva mínima de governo para os mais humildes e necessitados.

A tendência é que veremos milhares ou milhões de pessoas votando no senador mineiro por ódio. Levarão às urnas o desejo de vê-lo acabar com programas sociais; enterrar qualquer traço de política equitativa; atender aos anseios, muitos deles privilegiosos, de teocratas, ruralistas, empresários ricos e representantes da PM e das Forças Armadas; apoiar doutrinas policiais de extermínio racista e autoridade abusiva “contra o crime”; entre outros severos descaminhos que tendem a afundar o Brasil ainda mais numa areia movediça de injustiça, violência, opressão e discriminação generalizada.

E do outro, eleitores de Dilma expressam profundo medo de ver tudo isso acontecer. Mesmo que não consigam garimpar programas muitos bons, presentes ou futuros, que sejam mérito dela, defendem arduamente que o Brasil vote nela.

Ela tenderá a ganhar votos não tanto porque irá promover um governo tão socialmente aclamado quanto o de Lula, ou pela possibilidade de rever os erros do endireitamento e do zelo imprudente pela “governabilidade” cometidos por ela e sua equipe no primeiro mandato. Mas sim porque vai ao mesmo tempo (tentar) continuar parte do bom legado dele e impedir que Aécio vença, emposse e faça valer as demandas rosnadas de quem quer um governo pró-reacionário.

Para milhões de pessoas, não há para onde correr. Muitas daquelas que, até domingo passado, declaravam voto nulo no segundo turno, estão começando a mudar de ideia e considerar um voto pragmático que impeça o triunfo daqueles que vão às urnas votar com ódio.

Das esperanças de ver Luciana Genro e/ou Eduardo Jorge contrariarem as pesquisas de intenção de voto e surpreenderem, muita gente está resignadamente tendendo a votar em Dilma. Mesmo que isso as faça se arrepender – afinal, o arrependimento poderá ser menor do que o de votar nulo e assim deixar Aécio ganhar e cumprir as demandas da direita radical.

Um voto nulo expressará, com justiça, a descontente decepção com os rumos que o PT tomou desde 2011. Com o endireitamento de Dilma. Com as fracassadas tentativas dela de aplacar uma base “aliada” conservadora com retrocessos contra as minorias políticas e a justiça social.

Mas acabará, como efeito colateral, contando como um voto a menos contra Aécio, uma pedra a menos no caminho dele rumo a uma possível vitória e à comemoração urrada dos eleitores reacionários.

Diante de tudo isso, vemos a que ponto chegamos. Ao ponto de parte da esquerda se ver obrigada a apoiar, a um amargo contragosto, um governo que migrou da centro-esquerda lulista para a centro-direita. De haver muito mais motivos para votar contra Aécio e o PSDB do que realmente a favor de Dilma e do PT. De ver esse partido, outrora uma agremiação de esquerda representante das esperanças dos mais sofridos, juntamente com seus apoiadores, ter que apelar para que as pessoas votem por medo para que não deixem triunfar aqueles que vão votar por ódio.

Essa situação, de voto ao PT por medo X voto ao PSDB por ódio, contraria por completo os anseios expressos nos protestos de junho de 2013. A juventude que então foi às ruas manifestava seu cansaço, seu descontentamento pela estagnação sociopolítica que o modus operandi da díade PT X PSDB acabou provocando.

Mas o que foi visto domingo, e será de novo contemplado no próximo dia 26, é praticamente uma anulação do que houve naquele mês. Será o retorno justamente à dicotomia de votar no PT por medo do retrocesso – e talvez também por um traço de ingênua esperança por um arrependimento por parte de Dilma e uma guinada sua à esquerda – ou no PSDB por ódio à equidade e às minorias.

É como se não tivesse acontecido nenhum daqueles protestos nas ruas das grandes cidades brasileiras desejando uma sólida mudança da ordem política. No final das contas, todo mundo ali que havia ido às avenidas ser cidadão terá que votar no PSDB ou no PT ou optar por uma temerosa omissão na disputa.

Esses primeiros dias seguintes ao primeiro turno são de lamentação, pelo fracasso do falso “gigante” do ano passado diante do triunfo do status quo político nas urnas deste ano. Mas a seguir, a velha dicotomia PT X PSDB vai pegar fogo novamente, talvez ainda mais do que em 2010 e nas eleições que Lula havia vencido. A disputa eleitoral na internet e fora dela promete ser pesada, e também suja para os dois lados.

É talvez algo parecido com o que houve na França em 2002. Naquela ocasião, os franceses se viram obrigados a votar no segundo turno em Jacques Chirac, que tendia à direita, para não deixarem que Jean-Marie Le Pen, de extrema-direita, triunfasse. Mas no caso do Brasil de 2014, não é Aécio o extremista, mas sim muitos de seus eleitores e alguns deputados e senadores eleitos que poderão lhe declarar apoio.

Diante desse cenário de decepção e temerosidade, seremos praticamente obrigados a tomar partido. De um lado, um governo que já é nota zero, que pretende conservar o que hoje aí está e cujas realizações positivas acabaram anuladas pelos retrocessos de Direitos Humanos, meio ambiente e politização das massas. Do outro, um governo abaixo desse zero, cuja tendência é tornar tudo ainda pior graças ao seu eleitorado cheio de rancor e ódio, aclamado como representante por gente que odeia pobres, nordestinos, negros, mulheres feministas, homossexuais, pessoas trans, afrorreligiosos etc.

É o zero contra o -1. Um voto nulo ou em branco, ou uma abstenção intencional, são posturas muito arriscadas nessa hora.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

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outubro 8 2014 Responder

Concordo.

Por mais que o PT se sujou com a merda do PMDB, com eles ainda temos alguma chance de ter alguma migalha. :(

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