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O bizarro conceito reacionário de “liberdade”

liberdade-democracia-golpe

Uma palavra muito repetida e, ao mesmo tempo, muito maltratada no reacionarismo brasileiro é liberdade. Muita gente na direita brasileira vive falando, por exemplo, de liberdade de expressão, de liberdade econômica, de proteger suas liberdades de serem eliminadas por uma ditadura “comunista”, da Marcha da Família com Deus pela Liberdade de 1964 e o remake fracassado de 2014, entre outras alusões a um dos mais nobres desejos e direitos humanos. Mas essa “liberdade” defendida pela ideologia reacionária tem um conceito bizarro, que no final das contas orienta para a supressão das liberdades alheias e a reconversão delas em privilégios.

Pode-se deduzir que essa definição de “liberdade” consiste na preservação dos privilégios do conservador de direita endinheirado (de classe média a alta) de:
– usufruir de uma liberdade absoluta de expressão, incluindo a de proferir discursos contrários às liberdades e direitos de outras pessoas;
– receber a maior parte dos lucros de uma economia de livre mercado e/ou na qual a função do Estado seja preservar os poderes das grandes empresas e dos grandes donos de terra;
– continuar exercendo poderes de dominação sobre o outro sem que seja punido pela lei por isso;
– manter sua propriedade privada alheia a qualquer intervenção social estatal ou popular, mesmo que essa manutenção implique prejuízos e privações a muitas outras pessoas e seja assegurada com mortes por assassinato, fome ou doenças;
– ser da única categoria que pode manifestar plenamente suas crenças religiosas, sua ideologia política e seus pensamentos sociais e ter acesso integral a serviços básicos de qualidade;
entre outros.

Daí é possível perceber que a “liberdade” do reacionário é essencialmente o “direito” ao privilégio inabalado, ainda que só exista graças à privação de liberdades e direitos a outras pessoas, especialmente daquelas de minorias políticas.

É imbuída, por exemplo, na “liberdade” de expressar preconceitos e incitar opressões contra mulheres, pobres, negros, pessoas não heterossexuais, pessoas trans, adeptos da cultura da periferia, minorias religiosas ou irreligiosas, migrantes de países ou regiões nacionais mais pobres etc.. Mesmo que isso impeça ou limite todas essas pessoas de usufruir dos direitos ao reconhecimento de sua dignidade humana, à educação, à segurança, à liberdade religiosa, à livre expressão cultural e política ou mesmo à vida.

Querem liberdade de expressão, mas rejeitam as responsabilidades e limites dela. Ou sejam, querem poder abusar dessa liberdade. Desejam continuar proferindo desimpedidamente discursos que passam por cima, violentamente, das liberdades das minorias, sem que sejam processados ou presos por isso.

E ao mesmo tempo, muitos deles defendem, na internet, nas conversas offline ou nas ruas, a repressão aos que chamam de “comunistas”, que se tratam na verdade de toda e qualquer pessoa que, seja de esquerda, de centro ou mesmo liberal de direita, defenda a manutenção e asseguramento de direitos e liberdades individuais para minorias políticas e opositores de esquerda.

A partir disso, introduz-se outra faceta da “defesa da liberdade” reacionária: a reivindicação da eliminação de supostas ameaças à liberdade de ser de direita.

Pode-se dizer que essa liberdade já existe e não corre risco de ser eliminada na democracia brasileira. E ela tem sido desfrutada todos os dias por colunistas, comentaristas e jornalistas na mídia e por outros cidadãos em páginas sociais e comentários de portais de notícias. E também até vem sendo estimulada pelo próprio governo federal petista, com vultosas verbas de publicidade de empresas estatais e/ou do governo em si para as grandes empresas de comunicação de massa.

Da mesma maneira, pessoas de direita não foram impedidas de votar, em 2014, em Aécio Neves, Pastor Everaldo, Geraldo Alckmin, José Serra, Marco Feliciano, Jair e Eduardo Bolsonaro, Coronel Telhada e centenas de parlamentares evangélicos, ruralistas e/ou defensores da violência policial. Tanto que no mesmo ano conduziram ao Congresso Nacional o Poder Legislativo federal mais conservador desde 1964.

Mas mesmo assim muitos reacionários dizem que sua liberdade política está “sob ameaça”. E as “soluções” que dão para acabar com essa suposta ameaça são medidas completamente autoritárias, ou mesmo totalitárias.

Pedem “intervenção” militar, ou impeachment desprovido de embasamento na lei e nos fatos, para derrubar quem não gostaram de ver sendo eleitos ou reeleitos, como Dilma Rousseff, Jean Wyllys, Marcelo Freixo e outros políticos de esquerda e/ou do PT. Compartilham qualquer informação que atente contra esses mesmos políticos, não verificando se a denúncia propagada é verídica ou caluniosa – ou mesmo propagando propositalmente informações sabidamente mentirosas –, na tentativa de derrubá-los a todo custo.

E alguns não hesitam em pedir não só um golpe militar, mas sim a restauração da ditadura civil-militar encerrada em 1985. Afirmam que é preciso “derrubar o comunismo”, mesmo que isso implique voltar a oficializar a tortura, a censura, a perseguição armada, o assassinato de opositores e tudo mais que demonstre o retorno de uma ordem totalmente desprovida de liberdade de expressão e manifestação política.

Sacodem a bandeira do autoritarismo sangrento desejando que, no final das contas, existam ou sejam permitidos de se expressar apenas conservadores 100% alinhados com a ideologia oficial do regime. Não se importam que essa eventual nova ditadura vitime com a morte ou o exílio forçado aquela parcela da própria população conservadora que, por algum motivo, venha a discordar do regime autoritário em algum aspecto.

Ou seja, defendem a “preservação da liberdade” pedindo pela supressão da mesma, ou pela sua completa conversão em privilégio. E fazem isso mesmo que ponham em risco de silenciamento e morte outros conservadores, que pensem um pouco diferente deles.

Também é de se ver que outra “liberdade” que veem como sendo “posta em risco”, e defendem com unhas e dentes, é a de continuar exercendo poderes de dominação e opressão contra as já mencionadas minorias políticas.

No contexto disso, homens cisgêneros heterossexuais, por verem sob risco seu “direito” de explorar, discriminar e violentar mulheres, pessoas trans e pessoas não héteros, demandam a criminalização do feminismo e dos movimentos LGBT. Moradores endinheirados de bairros de classes média a alta sentem-se “ameaçados” e “amordaçados” por não poderem mais explorar empregadas domésticas como antes, e por serem repreendidos quando expressam ou praticam seu ódio contra o diferente. Consumidores de produtos de origem animal tornam-se carnistas militantes depois de serem criticados por estarem financiando a exploração e morte de incontáveis animais.

Empresários vociferam contra a regulação da economia pelo Estado quando são alvo de processos judiciais por terem explorado funcionários de suas companhias e/ou promovido crimes ambientais. Brancos racistas sentem-se “encurralados” por, mais do que nunca, estarem sendo hostilizados por causa de declarações preconceituosas contra negros, como “piadas” e julgamentos de padrão de beleza. Reveses como esses e tantos outros impulsionam o “movimento” conservador brasileiro a demandar a restauração ou preservação dos privilégios opressores que tanto chamam de “liberdade”.

Ao mesmo tempo, não se vê dos mesmos reacionários que tanto se dizem “defensores da liberdade” uma luta pelo reconhecimento e asseguramento das liberdades democráticas de mulheres, negros, pobres, minorias (ir)religiosas, pessoas trans, pessoas não héteros, (i)migrantes pobres, entre outras categorias historicamente oprimidas e excluídas.

Muito pelo contrário, são os primeiros a se opor aos direitos individuais e coletivos dessas pessoas e querer silenciá-las à força. Tanto que um dos tipos de conteúdo mais comuns em páginas brasileiras de direita nas redes sociais é a reação raivosa ao crescimento do reconhecimento legal e cultural das liberdades delas. Daí vem, inclusive, a definição moderna de reacionário, o indivíduo que reage de forma negativa e raivosa aos avanços progressistas de sua sociedade e tenta revogá-los e retrocedê-los.

Quando se observa o que é realmente a “liberdade” defendida pela categoria reacionária da direita brasileira, percebe-se que não é a liberdade definida pela democracia e pelos Direitos Humanos. Mas sim um conjunto de costumes abusivos que implicam a supressão das liberdades democráticas alheias, a manutenção ou restauração de privilégios e o “livre” exercício de opressões. É uma “defesa da liberdade” que em última análise põe em risco a integridade de muitos dos próprios brasileiros autodeclarados de direita.

Por isso, ao vermos pessoas “defendendo a liberdade” de uma maneira raivosa e avessa à democracia, precisamos lhes questionar que “liberdade” é essa que estão reivindicando. Perguntemos se é o respeito ao conjunto das liberdades universais asseguradas por uma democracia plena, ou na verdade a restrição e revogação das mesmas.

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13 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Gabriel

dezembro 28 2014 Responder

Coxinha é foda mesmo, um texto sobre o conceito de liberdade dos reacionários e os caras querem ir pro lado da economia. Ta ligado aquela criança que não aceita nunca que ta errada? E que quando descobre tenta a todo custo mudar o foco para algo em que ela esteja certa ou pelo menos ache que está certa.

interessante

novembro 17 2014 Responder

Robson, gostaria de saber se vc realmente conhece o significado da palavra “reacionário”. Ainda mais no dicionário da esquerda

“Reacionario” a principio seria um contra revolucionário, usando um dicionário e definições de pessoas mentalmente normais.

Mas nao na mente esquerdista. Na mente esquerdista , um “reacionario” é aquele que se opoe a regimes de esquerda (ou como o proprio Marx definiu, seriam aqueles que sao contra o comunismo), por isso os cubanos que sao contra o governo castrista também sao chamados de “reacionarios”, apesar de serem contra o regime vigente a 50 anos e de por definição serem revolucionários (afinal sao contra o ‘sistema’, contra aqueles que lutam pela manutenção do governo)

Ou seja, onde quero chegar, que Robson, é um comunista. Pois usa o termo reacionario como mentalidade de um esquerdista, e que portanto, é a favor de regimes comunistas. Estou correto?

Richard Silva

novembro 16 2014 Responder

Amigo, entrei em seu blog achando que viria um conteúdo consciente, mas infelizmente vi apenas um discurso ideológico político totalmente voltado para a esquerda. As pessoas tem o direito de se posicionar politicamente como elas bem entenderem e seu Blog ataca e generaliza toda a forma de pensamento contrário ao seu pensamento político.

Me posiciono, politicamente, ao centro, justamente para evitar estes embates entre esquerda e direta, mas seu blog é extremamente agressivo nas críticas, além do que você não possui propriedade alguma para falar de assuntos econômicos. Eu que sou formado na área, fico pasmo ao ler tanta aberração sobre o assunto.

Sobre os movimentos que estão acontecendo, as pessoas possuem o direito e a liberdade de expressarem sua indignação sim contra o atual governo. Isso é democracia.

Mas enfim, estamos numa democracia que “ainda” possui liberdade de expressão, tanto para se expressar quanto para criticar. Ainda bem! Mas para alguém que possui um blog chamado “consciência”, falta ainda muita “consciência” para ser “consciente”.

    HELOISA HELENA

    novembro 17 2014 Responder

    Richard Silva, acompanho este blog e a matéria exposta me pareceu cristalina e até pedagógica. Onde você viu agressividade, eu vi veemência (leituras diferentes). Fiquei curiosa a respeito daquilo que você define como “aberração” em assuntos econômicos. Como não tenho formação acadêmica na área, talvez eu possa vir a entender melhor. Obrigada!

      Fernando

      novembro 17 2014 Responder

      Os erros que o Robson comete nas análises econômicas dele estão bem explicitados num link que eu só vou postar se ele autorizar.

      Mas já posso adiantar que a mola mestra das análises atrapalhadas dele advém do fato de ele não estudar com base no indivíduo, mas em coletivos que ele supõe homogêneos.

      Richard Silva

      novembro 17 2014 Responder

      Cara Heloisa Helena, o colega de debate Fernando postou um link que define quais os erros que o blog comete ao falar de economia. No entanto, vale apena ressaltar o erro mais recorrente não só daqui, mas de muitos locais de debate: é que muitos esquecem que a economia é uma ciência social, mas que gira em torno de INDIVÍDUOS.

      Citando parte do link apresentado:

      “Termos coletivos como “sociedade”, “comunidade”, “nação”, “classe” e “nós” são abstratos e meras abstrações. Não são entidades vivas, que respiram, pensam e agem. A falácia aqui é justamente a de presumir que um coletivo é, com efeito, uma entidade viva, que respira, pensa e age.

      A fonte de toda a ação humana é o indivíduo. Outras pessoas podem aquiescer com a ação de um indivíduo, ou até mesmo participar em conjunto, mas tudo o que ocorrer como consequência pode ser atribuído a indivíduos específicos e identificáveis.

      Considere isso: poderia existir uma abstração chamada “sociedade” se todos os indivíduos desaparecessem? É óbvio que não. Em outras palavras, um termo coletivo não existe na nossa realidade, independentemente das pessoas específicas que o compõem.

      Para se atribuir corretamente responsabilidades, causa e efeito, é absolutamente essencial que economistas evitem a falácia dos termos coletivos. Aquele que não o fizer irá incorrer em horrendas generalizações. Ele irá atribuir crédito ou culpa a entidades inexistentes. Ele irá ignorar as ações reais (ações individuais) que estão ocorrendo no mundo à sua volta.”

      Portanto, quando eu disse “aberrações” foi justamente nesse sentido. O Blog pensa que economia funciona em torno de organismos coletivos, quando na verdade é em torno do indivíduo e seus desejos que a economia gira. E qualquer sistema que prime pela liberdade individual, ou seja, que coloque a liberdade do indivíduo em primeiro plano, este servirá melhor à humanidade em todos os sentidos.

      Abs.

        Tiago

        novembro 18 2014 Responder

        Do mesmo link acima:
        “Atualmente, sempre que uma indústria passa por dificuldades, algumas pessoas exigem que ela seja socorrida “custe o que custar”. Elas querem que bilhões em subsídios sejam dados a ela para impedir que o veredito do mercado seja executado. O mau economista irá se juntar a esse coro e ignorar os efeitos deletérios que isso acarretaria para o consumidor.”

        Quer dizer, que para o Instituto Von Misses, Olivio Dutra estava correto quando se negou a dar subsídios para a Ford instalar uma montadora no Rio Grande do Sul, fazendo com que a empresa optasse por se instalar na Bahia?

        HELOISA HELENA

        novembro 18 2014 Responder

        Agradeço ao Fernando, Richard Silva e Tiago pelos esclarecimentos.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 17 2014 Responder

    Ou seja, se eu quero ser consciente, preciso pensar parecido com você e falar do jeito que mais agrada você (inclusive sendo “neutro” ou de direita, já que criticar o reacionarismo é visto como algo “agressivo” por você), é isso?

Fernando

novembro 16 2014 Responder

Liberdade, pra mim, significa eu poder dispor de mim e da minha propriedade como desejar, sem que isso acarrete em agressão contra terceiros inocentes.

E isso é algo diuturnamente atacado pelos fetichistas da função social, tanto de esquerda quanto de direita. Não tem santo nessa palhaçada.

    Alex

    novembro 18 2014 Responder

    “Liberdade, pra mim, significa eu poder dispor de mim e da minha propriedade como desejar, sem que isso acarrete em agressão contra terceiros inocentes.”

    Concordo, só um adendo: por “terceiros inocentes” eu considero apenas seres humanos – afinal, fora os vegans em um mundo ideal; para atividades básicas que vão desde a alimentação até o uso de remédios é necessário agressão contra animais.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo