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nov14

Conservadores brasileiros em defesa da tradição: que tradição é essa que defendem?
Imagem de página facebookiana de um projeto de partido conservador. O conservadorismo brasileiro dá atenção de menos para os valores humanistas da tradição brasileira, e demais para resgatar e exaltar o lado autoritário, violento e excludente da mesma

Imagem de página facebookiana de um projeto de partido conservador brasileiro. O conservadorismo tem dado atenção de menos para os valores humanistas da tradição brasileira, e demais para resgatar e exaltar o lado autoritário, violento e excludente da mesma

Muitos conservadores e reacionários brasileiros dizem promover a defesa da tradição no Brasil. Segundo eles, há valores, crenças, normas e costumes que não deveriam sucumbir à mudança dos tempos. Mas quando vemos o que se tem noticiado sobre discursos e medidas de políticos, pastores, militares e outros defensores mais notórios do conservadorismo, nos perguntamos que tradição é essa. Que valores, crenças, normas e costumes está-se realmente tentando conservar?

Quando lemos ou assistimos aos noticiários, mesmo dos veículos de imprensa conhecidamente de direita, temos a forte impressão de que o conservadorado brasileiro não está preocupado em defender, por exemplo, a multicentenária diversidade cultural e religiosa brasileira, a preservação das riquezas naturais do país, o resgate do respeito à população idosa, as lutas sociais por dignidade, soberania e emancipação que marcaram os séculos, ensinamentos morais cristãos como o respeito ao próximo e o não julgamento do outro, a sobrevivência do bucolismo e da atmosfera pacata de muitos municípios interioranos e bairros de cidades, entre outros aspectos que ao menos são atribuídos à história da tradição cultural brasileira.

Se há pessoas no meio conservador que querem defender essas tradições, não conseguem se fazer ouvir. Suas vozes acabam silenciadas pelos urros e gritos raivosos de quem usa o conservadorismo como palanque de discursos de ódio, opressão e naturalização da violência.

Isso porque pouco ou nada se fala, na direita política brasileira, em defender essas tradições mencionadas. Por outro lado, o que mais tem sido visto é gente engajada em incitar o preconceito e a exclusão contra minorias sociopolíticas, exaltar a cultura do autoritarismo sociocultural e político, legitimar e naturalizar o uso de violência para manter a ordem de desigualdade social, defender as raízes machistas e racistas da sociedade brasileira, pregar o individualismo predatório, negar liberdades básicas às categorias vítimas de discriminação, entre outros valores nada construtivos que marcaram e ainda hoje marcam a história do Brasil.

E as mesmas pessoas que vão ao plenário do Congresso ou ao púlpito das igrejas defender esses aspectos da tradição não sofrem repúdio suficiente de outros conservadores. Não são apontados por estes como imorais defensores de costumes ruins, destrutivos e prejudiciais. Pelo contrário, são aplaudidos pela maioria, aclamados como líderes natos admiráveis, reeleitos nas eleições políticas – o que resultou, por exemplo, na eleição, em 2014, do Congresso mais reacionário em 50 anos.

Visto isso, solidificou-se no Brasil a justificável associação da palavra conservador(ismo) a tudo o que há de mais odiento, preconceituoso, intolerante, excludente, violento, corrupto, autoritário. E isso tem sido reforçado a cada discurso que um político ou sacerdote cristão autodeclarado ou considerado conservador faz.

As propostas de novos partidos conservadores que têm aparecido não defendem o resgate de valores humanistas e ecológicos atribuídos ao passado. O que trazem é o inverso: um cruel anti-humanismo, a estagnação da mudança social e da democratização e a reversão da inclusão sociocultural das minorias políticas (mulheres, negros, pobres, pessoas não héteros, pessoas trans, ateus, afrorreligiosos, pessoas com deficiência etc.).

Daí percebemos, e pensamos, que o conservadorismo brasileiro tem feito um péssimo trabalho em se tratando de preservar ou resgatar os costumes e valores da secular tradição brasileira que podem ser considerados bons em termos de ética. Ou seja, os que mais dizem representar a “defesa dos bons costumes da tradição” são os que mais têm advogado contra o lado bom da herança cultural do país, contra aquilo que faz bem às pessoas e aos seres não humanos.

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