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nov14

“Contra a corrupção” só quando convém: o anticorrupcionismo seletivo e interesseiro na direita conservadora brasileira

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Os conservadores e reacionários costumam declarar-se “revoltados” com a corrupção no Brasil. A cada escândalo descoberto envolvendo gente do PT, exigem a remoção do partido do poder. Mas essa “revolta”, se se perceber bem, é seletiva, permeada de interesses e revela que não há nenhum compromisso genuíno da direita revoltosa com a moralização da política no país. Pelo contrário, é possível dizer inclusive que os reacionários “indignados” são eles próprios cúmplices da corrupção.

Os antipetistas de direita são do tipo da pessoa que ignora ou deixa de ver a trave no próprio olho enquanto aponta para o cisco nos olhos alheios. Isso porque, enquanto vivem gritando “Fora PT/Dilma/Lula!” por causa do envolvimento de alguns políticos desse partido com corrupção, costumam deixar passar quando corruptos de direita são flagrados em iniquidade. E nessa condescendência, contribuem eles mesmos com a perpetuação da corrupção na política brasileira.

Isso é facilmente percebido quando comparamos a reação deles aos escândalos de corrupção, comprovados ou não, que tiveram a participação de petistas denunciada, como o Mensalão e o Escândalo da Petrobras, com a inação dos mesmos quando veem sendo denunciado o envolvimento de gente do PSDB, do DEM e/ou de outros partidos de tendência conservadora com corrupção similar.

Um exemplo disso são as fanpages de direita no Facebook, que manifestam, ou fingem manifestar, uma contundente indignação quando iniquidades são cometidas por integrantes do PT. A cada nova revelação em denúncias de escândalos envolvendo petistas, a “revolta cidadã” nessas páginas ferve.

Daí seus donos incitam que seus leitores tenham mais e mais ódio contra o partido, contra Dilma e contra Lula – mesmo que não tenha sido provado o envolvimento desses dois com a corrupção. Exortam a exigência de que o PT seja definitivamente removido, nem que seja pela força das armas, do Poder Executivo federal.

Passam adiante a falsa crença de que, se o Partido dos Trabalhadores perder a próxima eleição para presidente ou for removido do poder for força da lei ou de intervenção militar, a corrupção na política brasileira vai magicamente ter um fim imediato.

Mas quando os denunciados da vez são pessoas de partidos de oposição à direita, como tucanos e evangélicos fundamentalistas antipetistas, ainda mais quando a corrupção denunciada ocorreu a nível estadual ou municipal, a “indignação” dá lugar a um silêncio de cemitério. Os tais “cidadãos engajados contra a corrupção” não soltam nem mesmo uma palavrinha sobre estarem “revoltados”. Nem uma sílaba pedindo a cassação dos mandatos dos denunciados.

Os “patriotas indignados” dão lugar a indivíduos conformados, consentidores da iniquidade alheia. O “Fora PT!” dos protestos contra “a corrupção e os desmandos petistas” dá lugar ao “E eu com isso?” ou ao “Hã?”. Em alguns casos, como nessa imagem, até zomba-se das denúncias voltadas contra opositores do PT.

Sendo omissos e conformistas diante dos desvios de verba e outros crimes cometidos por políticos conservadores – e em muitos casos reelegendo-os apesar de todas as denúncias –, estão sendo cúmplices e protetores da corrupção. Por não exigirem a responsabilização e punição dos culpados, estão consentindo que ela continue fora dos quadros petistas. E graças a essa omissão cúmplice, que deixa passar toda a impunidade favorecedora de tucanos, teocratas e outros não petistas, a cultura política de governar para fins privados e tomar para si dinheiro público permanece forte.

E disso pode-se deduzir uma conclusão constrangedora sobre a seletividade dos “protestos anticorrupção” dessa parcela da direita brasileira: ela não quer o fim da corrupção, mas sim apenas a saída do PT do poder, de um jeito ou de outro. Não intenciona moralizar a política, mas sim tirar proveito, por interesses político-ideológicos e às vezes partidários, das denúncias que incriminam petistas.

Não importa aos reacionários se há violações éticas entre gente de outros partidos, com exceção de alguns aliados do PT. O que lhes é importante é não serem governados por um partido considerado “comunista”, que de certa forma ampara com políticas sociais as categorias (pobres, negros, mulheres etc.) que eles odeiam e discriminam.

Essa seletividade interesseira deixa claro que a categoria conservadora-reacionária brasileira não tem moral, nem vontade ética, para pedir de fato o fim da corrupção. Pelo contrário, ao protegerem com seu silêncio corruptos do PSDB, das bancadas teocrática e ruralista e de outros redutos da oposição de direita, estão contribuindo para a perpetuação da cultura política corrupta no Brasil.

Portanto, se alguma página de “revolta política” vive criticando a “corrupção do PT” enquanto se omite perante a de outros partidos, desconfiemos se ela quer a derrubada de todo e qualquer corrupto ou só deseja simplesmente a substituição do PT por um partido conservador no poder.

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