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A crise da água em São Paulo é reflexo da seca nas relações entre a política estadual paulista e federal e o meio ambiente
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Alckmin e Dilma, dois responsáveis pela crise ambiental que secou os reservatórios de São Paulo. Promoveram agendas ambientais negativas que contribuíram respectivamente com o desmatamento ciliar e poluição do Sistema Cantareira e com a destruição amazônica que interrompeu os “rios voadores” que levavam chuvas a SP

Tem ficado cada vez mais óbvia a responsabilidade direta da desgovernança ambiental do Governo de São Paulo (GESP) pela crise da água no estado. E há esforços em evidenciar, com ou sem interesses ocultos, que há uma responsabilidade indireta também do governo federal pelo lamentável cataclismo hídrico. Nos dois casos, a seca paulista é reflexo de uma outra seca: a de boas relações entre o Estado, em seus três níveis, e o meio ambiente no país.

O governo paulista tem culpa na questão não só porque deixou de investir na captação de novos mananciais para atender às necessidades de uma população que se multiplicou nos últimos 40 anos. Mas também porque teve, tem e continuará tendo uma péssima política ambiental.

Ou melhor, praticamente não tem política ambiental, no sentido de planejar ações que costurem uma harmonização entre as dinâmicas cíclicas da Natureza e a satisfação das demandas humanas por água e outros recursos naturais e promovam a reversão da destruição ambiental, a recuperação de áreas degradadas e a valorização do patrimônio ecoturístico do estado.

É visível a atenção negativa que os governos do PSDB dedicaram aos mananciais paulistas, incluindo tanto a questão da poluição de suas águas como a da destruição das matas ciliares. Negativa porque foi nos vinte anos de governos tucanos que, segundo o portal Terra, o Sistema Cantareira perdeu 70% de sua cobertura florestal.

Isso para dizer o que há de mais direto na relação entre o desgoverno ambiental do GESP e a atual seca. Deve-se trazer como exemplo uma outra extremamente relevante problemática que só fez se agravar nesses mandatos do PSDB: a poluição do ar e dos rios na mancha urbana da Grande São Paulo, graças à qual teremos centenas de milhares de mortes humanas e a continuação do declínio da qualidade de vida na região nas próximas duas décadas.

E por mais que se tenha tentado impor ao governo tucano paulista o monopólio da culpa pela crise hídrica, está difícil negar que o Governo Federal também tem uma parcela de responsabilidade por tudo que tem acontecido. A relação cada vez mais realçada entre o desmatamento na Amazônia, o esvaziamento dos “rios voadores” direcionados de lá até São Paulo e a seca paulista não deixa este texto mentir.

A destruição da Floresta Amazônica não para – pelo contrário, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais apontam que o desflorestamento naquele ecossistema em agosto e setembro de 2014 foi 122% maior do que nos mesmos meses de 2013. E o governo de Dilma, claro cúmplice disso, tem promovido a pior política ambiental federal desde o fim da ditadura civil-militar.

Como exemplos mais notáveis do descaso do governo do primeiro mandato da presidenta reeleita, temos:
– a aprovação e sanção de um Código Florestal degenerado, impondo retrocessos à sua versão de 1965 apesar de todos os clamores populares pelo veto presidencial total;
– a construção de usinas hidrelétricas de impacto ambiental superpesado na Bacia Amazônica, como Belo Monte – construções inclusive divulgadas como algo “positivo” pelo guia eleitoral de Dilma;
o quase zeramento da criação de unidades de conservação, principalmente nas terras amazônicas;
– o desprezo aos povos indígenas, que atuam como verdadeiros guardiões das florestas e historicamente têm ajudado a preservar grandes áreas de ecossistema, mas têm sido vítimas de genocídio pelas armas dos capangas dos latifundiários cuja bancada parlamentar é aliada do governo federal e receberam da presidenta a pior política de demarcação de territórios nativos desde a redemocratização;
– os enormes incentivos financeiros ao agronegócio, o setor econômico que mais destrói ecossistemas no Brasil – mas também foi considerado “bom” para o país pelo programa eleitoral de Dilma –, com destaque à pecuária bovina, campeã de desmatamento, e às grandes monoculturas que fornecem a maior parte de seus frutos à alimentação de rebanhos;
– entre tantos outros, isso em se tratando específica ou principalmente da Amazônia.

Com toda essa cruzada contra a continuação da existência da Floresta Amazônica, é ingenuidade não acreditar que há sim culpa também do governo Dilma pela míngua dos “rios voadores” que mantinham os reservatórios paulistas em níveis seguros. Governos federal e estadual, com suas políticas ambientais de sinal negativo, trabalharam “juntos” pela situação de catástrofe atualmente configurada, por mais que muitos eleitores de Dilma tenham negado isso durante o segundo turno da campanha eleitoral presidencial.

Os maus exemplos dos governos estadual paulista e federal brasileiro deixam claro, para a população, que o anseio pela sustentabilidade passa diretamente pela pressão política em cima de governos que desprezam o meio ambiente, pela disputa sociopolítica e ideológica com lobbies antiecológicos – como o latifundiário, o das indústrias pesadas, o petrolífero e o automotivo – e, sobretudo, pelas lutas sociais em prol dos direitos de continuarmos vivos e usufruirmos de um meio ambiente íntegro e equilibrado.

E sendo Dilma e os governadores tucanos líderes de uma política de descaso ambiental e tendo eles sido reeleitos agora em 2014, essa luta precisa ser não redobrada, mas sim requadruplicada. Se não queremos ver a crise hídrica de São Paulo piorar e se repetir nas próximas décadas e mais focos de distúrbios ecológicos pipocarem nos outros estados da federação, precisaremos, desde já, colocar o meio ambiente entre nossos focos primários e prioritários de luta política, ao lado dos Direitos Humanos e da inclusão social integral.

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5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ronaldo

novembro 19 2014 Responder

No comentário abaixo eu disse NH4, corrijam para CH4. Parece que o efeito estufa é causado por uma catalização destes poluentes sobre o vapor d’agua. Quem sabe, alguém descubra um elemento catalizador que faça o oposto!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 19 2014 Responder

    Corrigi aqui. Abs

Ronaldo

novembro 18 2014 Responder

A realidade atual é um conjunto de fatores e não podemos desprezar nenhum deles. São claros os efeitos dos poluentes (CO2, CH4, etc) nas mudanças climáticas; a destruição das matas expõe o solo às intempéries e muda o ambiente (mais um fator contra o clima); a queima de combustíveis fósseis e nucleares (mais calor e poluição). As consequências disto tudo tão se acelerando. Esta máquina tá sem freios! Preparem-se para tempos piores!

Alysson

novembro 8 2014 Responder

Ótimo artigo, que prova o que muitos insistem em não enxergar, que nossos problemas vão muito além do embate PT X PSDB!! E se ampliarmos o foco da questão, chegaremos à situação extremamente crítica que vive o Cerrado brasileiro, impactado pelo agronegócio e, no caso daqui de MG, das atividades minerárias (só pra citar os problemas que mais se destacam). E como se não bastasse, ainda temos a absurda transposição do Rio São Francisco. Aqui na RMBH, temos a polêmica questão da criação da reserva do Gandarela, talvez a principal área de recarga do aquífero, na cabeceira do Rio das Velhas, responsável por grande parte do abastecimento da RMBH, rio que também é um importante afluente do “velho Chico”! A questão é que a criação da reserva do Gandarela deixou de fora uma das mais importantes áreas de recarga hídrica, pois há no local um projeto de mineração da Vale. Especialistas afirmam que se a pequena área for explorada, pouco adiantaria o restante do parque!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 9 2014 Responder

    Valeu, Alysson =) []s!

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