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Declaram-se “inimigos da ditadura comunista” e “defensores da democracia e da liberdade”, mas são severos autoritários, proibidores e censuradores
Dizem-se "defensores da democracia" e "inimigos da ditadura comunista (sic)". Mas são os primeiros a clamar por autoritarismo contra a esquerda e as categorias sociopolíticas historicamente oprimidas.

Dizem-se “defensores da democracia” e “inimigos da ditadura comunista (sic)”. Mas são os primeiros a clamar por autoritarismo contra a esquerda e as categorias sociopolíticas historicamente oprimidas.

Uma das muitas hipocrisias e contradições da militância conservadora brasileira é o contraste entre seus discursos de “defesa da liberdade e da democracia” e oposição ao que chamam de “ditaduras comunistas” – e também à “ditadura gay e feminista” – e suas práticas e princípios autoritários. Os aderentes desse “ativismo” de direita se dizem “apaixonados pela liberdade”, mas são os primeiros a atentarem contra ela.

Como o artigo O bizarro conceito reacionário de “liberdade” mostrou, eles embandeiram uma abstração que chamam de “liberdade” mas na verdade se trata da conservação de uma diversidade de privilégios que atentam contra as liberdades humanas e democráticas alheias. E nesse duplipensamento, não se importam em se colocar a favor de um distópico reinado de proibições, censuras, repressões, violências militares e outros decretos morais e políticos que fariam de nossa sociedade uma cultura essencialmente não livre.

No âmbito político-ideológico, em seus sonoros clamores de que o Brasil está ameaçado de virar uma “ditadura comunista” ou já está sob uma, não hesitam em defender medidas claramente autoritárias para derrubar esse “comunismo”.

Alguns fazem isso reivindicando providências extremas, como um golpe militar e a restauração da ditadura civil-militar que foi encerrada em 1985, com todas as suas violências – censura oficial, tortura e/ou exílio de opositores, assassinato de militantes de esquerda etc.

Tantos outros, mesmo que não demandem um novo regime militar, exigem decretações também severamente antidemocráticas. Entre elas, estão o impeachment ilegal de “inimigos” políticos, motivado por pura discordância política ou calúnias ao invés de indícios criminais válidos; o fechamento do Congresso e a perseguição política paramilitar contra movimentos e partidos considerados de esquerda.

Também é comum ver páginas reacionárias defendendo, por meio de sua oposição ao “marxismo cultural”, o reestabelecimento da censura política nas escolas. Reivindicam, sutil ou explicitamente, a proibição de temas ligados à esquerda política em disciplinas como História e Geografia – em especial as teorias marxistas –, a eliminação de métodos pedagógicos de estímulo ao senso crítico sociopolítico, a supressão de disciplinas como Sociologia e Filosofia e a restauração da Educação Moral e Cívica e do ensino religioso cristão doutrinário.

Já no ramo moral-cultural desse autoritarismo reacionário, vê-se tanto tentativas de conservar o tradicional e multicentenário moralismo de inspiração religiosa – que pouco tem de cristão –, como manifestações de ódio contra a crescente visibilização e expansão das lutas dos movimentos emancipatórios das minorias políticas – feministas, negros, LGBTs, indígenas, sem-terras, sem-tetos, de resistência cultural das periferias, veganos, ambientalistas, de minorias religiosas e irreligiosas etc.

Queixa-se que agora “tudo é permitido”, menos “discordar” de “tudo que aí está”. São-lhes incômodas as liberdades alheias, como a das mulheres de vestirem as roupas que quiserem sem serem hostilizadas, exercerem os trabalhos que gostam, relacionarem-se com quantas e quais pessoas quiserem sem receberem xingamentos misóginos etc.; a dos negros de manifestarem suas raízes culturais, religiosas e artísticas; a de homo, bi e pansexuais de amarem quem seus corações “quiserem” que amem; a de assexuais de viverem sem serem coagidos a terem relacionamentos (heteros)sexuais; a de pessoas trans de simplesmente existirem e serem respeitadas sendo exatamente quem são; a de ateus e agnósticos de assumirem sua descrença religiosa e expressarem os porquês de discordarem dos dogmas e mitologias das religiões; a de pessoas recém-saídas da pobreza de terem acesso a bens e serviços que até pouco tempo atrás eram exclusivas de gente endinheirada, como viagens de avião, computadores, smartphones, carros etc.; entre tantas outras.

Diante dessa gradual libertação das categorias politicamente minoritárias, investem-se em tentar censurá-las culturalmente. Tentam conservar e reforçar o caráter machista-misógino, racista, elitista, transfóbico, heterossexista, intolerante religioso etc. da moral vigente e impedi-la de se converter numa moral pautada na liberdade e na ética.

E daí recorrem às “críticas” moralistas, muito bem expressas em certas páginas de redes sociais (exemplo 1 e exemplo 2); às explícitas expressões de ódio, como fazem costumeiramente masculinistas, carnistas, religiosos ateofóbicos, xenófobos antinordestinos etc.; às medidas políticas, no caso de evangélicos fundamentalistas, de impedir ou vetar avanços nos Direitos Humanos, tentar revogar direitos já conquistados e, em última análise, aproximar o Brasil de uma teocracia “cristã” totalitária; entre outras investidas opressoras.

Com essas iniciativas, a militância reacionária brasileira esforça-se no intuito de restaurar no país uma ordem moral, social e política baseada em conceder poder ilimitado e armado, privilégios e liberdades a uma minoria de homens brancos cis heterossexuais ricos e impor exploração, proibições e privações a todo o restante da população.

Almeja o resgate desse status quo autoritário dando-lhe uma roupagem “moderninha” de capitalismo industrial-financeiro “meritocrático”. Defende a manutenção incondicional dessa ordem, mesmo que para isso seja “preciso” pedir por intervenções autoritárias que diminuam ou revoguem a democracia no Brasil. E chama tudo isso de “defender a liberdade e a democracia” e “lutar contra a ditadura (comunista, gay, feminista etc.)”.

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LUIZ

novembro 18 2014 Responder

”Tantos outros, mesmo que não demandem um novo regime militar, exigem decretações também severamente antidemocráticas. Entre elas, estão o impeachment ilegal de “inimigos” políticos, motivado por pura discordância política ou calúnias ao invés de indícios criminais válidos; o fechamento do Congresso e a perseguição política paramilitar contra movimentos e partidos considerados de esquerda.”

– Falar em impeachment ilegal é como falar em quadrado redondo,o processo de impeachment é algo extremamente complicado de se conseguir, e está perfeitamente descrito na legislação brasileira. ninguém está querendo agir em desacordo com a lei e com a democracia,aliás, impeachment é algo que só é possível dentro da ordem democrática, onde o povo tem voz.

-Você pelo jeito fala do que não conhece,quer falar sobre um movimento sem ter lido no minimo o manifesto do mesmo.os organizadores do movimento já deixaram bem claro que os gritos povo nas ruas serve APENAS para mostrar a indignação e pedir que se investiguem as denuncias contra a presidente Dilma.dai,se houver provas claras do seu envolvimento,o impeachment será apenas uma consequência lógica.

-Poderia me falar os nomes desses grupos paramilitares conservadores?e quem sabe o nome de um lider ou alguem envolvido? obviamente que não pode,pois estas inventando para demonizar o oponente.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 24 2014 Responder

    Luiz, desculpe a resposta atrasada. Respondendo.

    1. Impedir Dilma unicamente por não querê-la no poder e/ou por acusações até hoje nunca comprovadas e tampouco julgadas é algo legal?

    2a. Se é “APENAS para mostrar a indignação e pedir que se investiguem as denuncias contra a presidente Dilma”, então o que eram os cartazes e faixas pedindo impeachment e “intervenção” militar?
    2b. Já apareceu alguma denúncia concreta contra Dilma, fora o falso depoimento do doleiro “obtido” pela Veja?

    3. Eles não existem ainda. Mas se depender de muitos reacionários por aí, não vai tardar pra eles começarem a aparecer. E olha que não menciono aqui skinheads neofascistas nem grupos neonazistas, nem integralistas.

      Luiz

      novembro 29 2014 Responder

      1-Pede-se que ela seja investigada em primeiro lugar.

      2-Pedir impeachment é um desabafo com o descaso desse governo,o povo não é idiota e sabe que só gritar por impeachment não faz o impeachment acontecer.exigimos é investigação e agilidade.
      Sobre os que pedem intervenção militar: são minoria e estão sendo rechaçados pelos próprios manifestantes de direita e centro-esquerda.

      https://www.youtube.com/watch?v=bIIFwgzpB24#t=67

      3-Você falou no seu texto que já haviam grupos paramilitares de direita,caracterizando mentira.

      O engraçado é que a formação de milicias paramilitares é mérito totalmente da esquerda no nosso continente:veja os casos da FARC-EP,os coletivos chavistas,os guerrilheiros do Araguaia,sandinistas,panteras negras(estes nos EUA),entre outros.

      Saiu o teste de DNA,e o filho é da esquerda.

        Robson Fernando de Souza

        novembro 30 2014 Responder

        Sobre os paramilitares de direita, favor dizer qual trecho diz que eles já existem e já estão em ação.

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