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nov14

Defesa “da moral e dos bons costumes”, mas pode chamar também de “imoral e maus costumes”
Com certeza não estão entre os que se dizem "defensores da moral e dos bons costumes".

Com certeza não estão entre os que se dizem “defensores da moral e dos bons costumes”.

Um discurso muito comum vindo de conservadores e reacionários, que inclusive tem uma multicentenária tradição, é a defesa do que chamam de “moral e bons costumes”. A tradição moral defendida e a definição de “bons costumes” usada são tão ultrapassadas, opressoras, violentas e discriminatórias que hoje, na prática, podem muito bem ser consideradas “imoral e maus costumes”.

É facilmente observável que o discurso da “defesa da moral e dos bons costumes” adotado por reacionários não se pauta em valores que de fato visam o bem-estar de todos, o respeito sincero a outrem e a ética. Nem mesmo aqueles valores tradicionais do passado que nunca perderam a admirabilidade, como os discursos cristãos de amar ao próximo como a si mesmo, não julgar para que não seja julgado e perdoar os que não sabem o que fazem, são incluídos em tais discursos moralistas.

Pelo contrário, não é difícil perceber que, quando se usa tal expressão na direita reacionária, está-se falando na verdade em proibições desprovidas de razão ética, censuras morais arbitrárias, autoritarismo, tentativas de mandar na vida privada de outrem sem motivos éticos, ódio e discriminação contra minorias políticas, aversão às mudanças sociais e à expansão das liberdades individuais, manutenção ou restauração de hierarquias de poder, intolerância aos direitos alheios, entre outros vícios que hoje nem de longe poderiam ser considerados “bons costumes” e “retidão moral”.

É difícil ver por aí conservadores convictos, autoarrogados arautos “da moral e dos bons costumes” indo a público para defender, incentivar e recomendar, por exemplo:
– costumes de civilidade e solidariedade, como ser gentil com as pessoas, respeitar as diferenças, discutir assuntos polêmicos com civilidade, promover a cultura de paz, cumprimentar e estimar a todo mundo independente de categoria social, fazer caridade a quem necessita dela, interagir regular e amistosamente com a vizinhança e oferecer-lhe ajuda no que é possível a pessoa ajudar, divulgar informações sobre pessoas humanas e não humanas desaparecidas ou criminosos procurados, evitar descarregar raiva em quem não fez nenhum mal etc.;
– ações de responsabilidade ambiental, como evitar jogar lixo nas ruas e nos corpos d’água, combater o desperdício de água e energia elétrica, moderar ou abandonar o consumo de produtos alimentícios e não alimentícios de impacto ambiental muito pesado, usar menos o carro ou substituí-lo pela bicicleta e pelo transporte público etc.;
– atitudes de respeito à saúde e ao bem estar alheios, como evitar fumar perto de outras pessoas, evitar a embriaguez quando se tem tendências à agressividade, abster-se de coagir os outros a consumirem produtos de origem animal e bebidas alcoólicas etc.;
– posturas de respeito ético aos animais não humanos, como rejeitar o consumo de produtos de origem animal, denunciar crimes contra a fauna, defender o fim dos “esportes” que exploram animais não humanos etc.;
– assimilação de ensinamentos de tradições espirituais, como respeitar o próximo, não julgar as outras pessoas, ser caridoso e solidário, partilhar o que pode com quem precisa, evitar a avareza, pensar holisticamente e rejeitar reducionismos indevidos etc.

Por outro lado, é visível uma dedicação diuturna de muitos conservadores moralistas à defesa, por exemplo, do machismo e da misoginia, do preconceito contra pessoas não heterossexuais, da intolerância contra quem milita por ideais políticos de esquerda, da intromissão invasiva na vida alheia com fins não pertinentes à ética, da absolutização de dogmas religiosos opressores e violentos, da preferência à vingança em detrimento da justiça contra criminosos, do ódio contra pessoas de outras religiões ou sem religião, entre tantos outros desvalores.

Ou seja, o que acreditam ser “moral e bons costumes” é considerado hoje, cada vez mais, como maus e imorais costumes. Ou melhor, prejudiciais e antiéticos. São crenças, (des)valores, normas e tradições que se vê, a cada dia mais, que não têm mais lugar na sociedade de hoje. Menos ainda terão na de amanhã.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ronaldo

dezembro 8 2014 Responder

A opressão dos reacionários pode ser praticada de forma consciente ou inconsciente. Pior! Há uma graduação entre os que não tem cultura para os que a tem. Generalizar questões humanas e sociais é quase sempre um pecado. Só com o puro intelecto é que reconheceremos a razão por detrás da boa moral. Não há moral no sexo desvirtuado.

Rouselise

novembro 30 2014 Responder

Gostei demais do texto. Quanta sensibilidade! Falou tudo que eu queria falar, mas eu não tenho tanto talento para descrever. Parabéns. Beijos.

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