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nov14

A “defesa da vida” que dá desprezo, sofrimento e ódio a muitas vidas e mata tantas outras
"Respeitemos a vida", menos quando se tratar da vida de uma mulher, de uma criança já nascida, de um indivíduo morto pela violência policial, de uma pessoa especialmente vulnerável a crimes de ódio etc.

“Respeitemos a vida”, menos quando se tratar da vida de uma mulher, de uma criança já nascida, de um indivíduo morto pela violência policial, de uma pessoa especialmente vulnerável a crimes de ódio etc.

Uma das mais conhecidas supostas bandeiras do “movimento” conservador e reacionário brasileiro é a “defesa da vida”, traduzida como oposição incondicional ao direito da mulher à escolha entre o aborto e a continuação da gravidez. Com o pretexto de “defender vidas de crianças (sic)”, impedem o avanço da legalização dos abortos e até tentam revogar os poucos casos em que eles já são autorizados pela lei. Mas é fácil perceber que essa dita convicção “pró-vida” nada traz além de morte e sofrimento a seres já nascidos, desprezo às crianças que nascem depois de terem sido “salvas” da possibilidade do aborto, dedicação zero a tantas outras vidas sencientes, humanas ou não, e, sobretudo, misoginia.

Vidas desprezadas e condenadas pelos “pró-vidas”

Note-se que as únicas vidas defendidas pela maioria dos “defensores da vida” são as de embriões e fetos gestados por mulheres que engravidaram mediante condições adversas e não lhes poderão dar uma vida digna. Fora isso, não se costuma ver vindo deles nenhum apoio a mulheres que estão grávidas por consentimento e opção, nada sobre incentivo ao pré-natal e a hábitos saudáveis que favoreçam a vida e saúde da mulher e do feto querido. Muito menos incentivos à assistência e ao aconselhamento a mulheres que já deram à luz bebês desejados e amados.

Por outro lado, vivem infernizando mulheres que não engravidaram de forma consentida e não desejaram fecundar o embrião ou feto que carregam no ventre – havendo, em alguns casos, constrangimento até contra vítimas de estupro. Coagem-nas a carregar no útero a futura criança contra sua vontade e dar à luz com o desespero e a tristeza de quem não tem condições de lhe dar uma vida digna e o melhor do amor materno e familiar. Fazem-nas ser mães à força, jogando ao mundo crianças condenadas à infelicidade perpétua.

Desprovidas do amor dos genitores e nascidas sob o signo da rejeição, essas crianças tenderão a viver uma vida infeliz. Carregarão para sempre um sofrimento que dificilmente uma assistência psicológica ou mesmo religiosa-espiritual poderá lhes curar.

A essas pessoas desprezadas pelo destino, também se vê pouca ou nenhuma assistência ou solidariedade vinda de pessoas que se dizem “pró-vida”. Se existe algum programa filantrópico de acolhimento de crianças salvas de abortos mantido por opositores do direito da mulher à escolha, ele não é suficientemente divulgado.

E ao mesmo tempo, ignorando que milhares de mulheres estão mergulhadas em desespero e angústia, não têm a mínima condição de gerar uma vida de forma digna e por isso vão abortar de qualquer jeito, impedem que o poder público lhes dê o direito a um aborto seguro. Assim forçam-nas a interromper a gravidez em clínicas clandestinas que muito provavelmente vão matá-las ou deixá-las com graves sequelas. Nisso, o nascituro e a mulher morrem juntos.

 

A misoginia imbuída na oposição ao direito da mulher ao aborto

Um agravante dessa dita “defesa da vida” é a sua intrínseca misoginia. Crucifica a mulher vítima da gravidez indesejada, seja com imposição de vexame familiar e/ou público se ela interrompê-la, seja com desprezo e constrangimentos machistas se ela resignadamente levá-la adiante.

Muitas vezes condena-a a ser chamada de “vadia”, “vagabunda” e outros xingamentos de ódio à mulher que tem vida sexual. Causa, em alguns casos de moças que ainda não se emanciparam de seus pais, a expulsão delas de suas casas. Afinal, se fez sexo consentido, ela “não recusou”, “não pensou no (futuro) bebê”. E se foi estuprada, diz-se que “não devia ter usado uma roupa tão curta”, ou “bebeu demais”, ou “agiu como uma vadia”, ou qualquer outra desculpa de machistas que tentam “justificar” estupros.

O caráter misógino e patriarcal da convicção “pró-vida” também se manifesta ao proteger, com seu silêncio, o homem que se recusa a assumir a paternidade do embrião ou feto indesejado. Ele não sofre nenhuma coação moral ou legal para que assuma a futura criança. Não é preso, nem processado pela lei que criminaliza o livre aborto, por rejeitá-la. Pode viver sua vida sem ser induzido ao peso na consciência, como se nunca tivesse feito sexo sem preservativo com a mulher que caiu em infelicidade ao descobrir estar grávida dele. Não é alvo de projetos de lei que tornem completa a criminalização do aborto.

E mesmo estupradores, responsáveis diretos por muitas gestações forçadas, são protegidos pelo silêncio dos “pró-vida”. Um estupro que resulta em fecundação não é punido com mais rigor do que um que não tem a mesma consequência.

Não há entre a militância “defensora da vida” a iniciativa de reforçar o poder da polícia e da Justiça contra esse tipo de homem criminoso, de modo a proteger possíveis futuras vidas humanas de terem uma gênese tão violenta e trágica. E enquanto isso, como já foi mencionado, as vítimas do estupro são crucificadas, tanto com o peso da gestação compulsória como com a atmosfera de ódio machista que a cerca e lhe corrói a alma.

Em outras palavras, a “defesa da vida” não se opõe ao “aborto do homem”. Condena a mulher e a própria futura criança (caso venha a nascer) a carregarem insuportáveis pesos pelo resto de suas vidas, por causa dos quais poderão inclusive morrer, enquanto protege e livra os homens responsáveis, criminosamente ou não, pela indesejada concepção.

 

Muitas outras vidas excluídas da preocupação moral dos “defensores da vida”

Que as vidas de mulheres e nascituros são muito mais ceifadas ou sequeladas do que salvas e dignificadas pelos autodenominados “pró-vida”, não é o único problema aqui. Também é notável que a tal “defesa da vida” exclui muitos outros seres que já adquiriram senciência, já nasceram e querem continuar vivos e viver com integridade e prazer o máximo de tempo possível. Trata-se aqui de seres humanos em situações de risco e animais não humanos.

Há diversas categorias de seres cujas vidas não são defendidas por esses militantes – e em muitos casos, aliás, sua morte é até desejada por eles. O exemplo mais notável é o dos criminosos mortos em operações policiais ou por outros delinquentes, em autênticas penas de morte extraoficiais. O assassinato desses indivíduos é comemorado por muitos “pró-vidas”, que soltam a famigerada frase “Bandido bom é bandido morto” e manifestam seu total desprezo e ódio à vida dos que chamam de “vagabundos”.

Nesse caso, inclusive, pesa muito a crença nos “Direitos Humanos só para humanos direitos”. Ela deixa claro que apenas algumas pessoas deveriam ter direito à vida, e delas são excluídos diversos tipos de criminosos, numa amostra de que, ao contrário do que dizem, a “defesa da vida” promovida por muitos é limitada e condicional. Ou seja, a vida não lhes é algo realmente sagrado e inviolável.

Vale ressaltar também que muitos desses delinquentes vêm de famílias social e psicologicamente desestruturadas. E muitas delas deram-nos à luz justamente em ocasiões de gestações compulsórias, tendo-os condenado a uma vida de rejeição e desprezo. Diante de uma vida tão cheia de privações afetivas, não é de surpreender que muitos jovens criados em tais condições caiam na criminalidade – e corram um risco elevado de serem mortos por policiais ou outros criminosos.

Esses são os clássicos casos de que a “defesa da vida” lhes permitiu nascer mas depois, diante de certas circunstâncias, os descartou por completo. Passam do “direito inalienável à vida”, enquanto embrião ou feto, à morte violenta, enquanto jovens delinquentes, comemorada por aqueles que ao mesmo tempo se dizem “pró-vidas” e defensores da crença de que “vagabundo tem que morrer”.

Outros casos de vidas desprezadas pelos autodenominados “defensores da vida” são:

a) pessoas inocentes que vivem em comunidades pobres e vivem diariamente vulneráveis à violência assassina de criminosos civis e policiais;
b) militares mandados à guerra, na qual terão que obedecer inquestionadamente aos seus “superiores” e matar muito para não morrerem nas mãos de soldados inimigos ou das cortes marciais que executam insubordinados e desertores;
c) crianças em situação de risco social – abandonadas nas ruas, acolhidas em orfanatos, viciadas em drogas pesadas ou bebidas alcoólicas, habitantes de comunidades muito vulneráveis à criminalidade, filhas de mães e pais desprovidos de condições psicossociais de criá-las dignamente etc.;
d) membros de minorias políticas alvos de discriminação e crimes de ódio, como mulheres, negros, indígenas, homossexuais, bissexuais, pessoas trans, afrorreligiosos, muçulmanos, ateus, (i)migrantes pobres etc.;
e) moradores de rua;

Entre outros tantos casos.

Outras vidas, não menos sencientes e sofredoras, deixadas à margem da convicção “pró-vida” são as dos animais não humanos explorados pela pecuária, pela pesca, por entretenimentos (rodeios, vaquejadas, hipismo, cavalgadas etc.), pela ciência etc. Muitos usam inclusive o dogma religioso e outros pretextos de cunho conservador para tentar justificar que esses animais continuem para sempre sendo vítimas de exploração, violência e mortes cruéis.

Percebe-se assim com muita facilidade que, tanto no caso do impedimento do direito da mulher ao aborto como no desprezo do direito à vida de muitos seres humanos e não humanos já nascidos, a “defesa da vida” só tem causado morte, sofrimento, abandono, ódio, discriminação. Suas consequências são completamente distintas do que o senso comum esperaria. Acaba sendo nada além de uma das diversas maneiras existentes de manifestar misoginia e demonstrar a seletividade da consideração ético-moral de reacionários para com seres vivos sencientes.

imagrs

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teste

novembro 26 2014 Responder

engraçado a maneira q vc fala de direita e reacionário.. passa como se fosse xingamento… e esquece q quem mais matou foi a esquerda…
http://www.implicante.org/artigos/parem-de-achar-que-reacionario-e-ofensa/

Ronaldo

novembro 24 2014 Responder

Aqui tenho um vizinho que é violento contra a 2a esposa e os filhos. Só fala palavrões, esculacha e ameaça a famíla. Ele cria galinhas soltas que invadem meu terreno, joga lixo no mesmo. As cadeias estão lotadas, o estado acabou com os hospícios. A justiça tá atolada de processos. Eu faria um presídio cavado em rocha pelos próprios presos, centenas de metros abaixo do nível do solo.

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