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nov14

O mito da “direita cidadã” que “quer mudanças” na política brasileira
"Basta de corrupção" só no discurso. Nas urnas, a corrupção abundante na classe política é renovada pela "direita cidadã".

“Basta de corrupção” só no discurso. Nas urnas, a corrupção abundante na classe política é renovada pela “direita cidadã”.

De dois em dois anos, torna-se bastante visível que é vazio e também hipócrita o discurso dos conservadores brasileiros, especialmente dos reacionários que se dizem “revoltados”, de “moralizar a política”, “tirar a lama” de Brasília e dos estados e municípios e “pedir por mudanças”. Isso porque milhões de pessoas entre esse eleitorado de direita compõem uma das parcelas da população que mais têm contribuído para a perpetuação, ao invés da mudança, no estado de sujeira do quadro político brasileiro, federal, estadual e municipalmente falando.

Muitos deles falam que são “conservadores (ou neoliberais) pedindo por mudanças”. Quando algum candidato visto pela direita como seu maior representante usa um slogan de campanha que remete ao desejo de mudança – como foi o caso do presidenciável de 2014 Aécio Neves, cuja coligação se chamava “Muda, Brasil” –, ela o aplaude e o apoia.

Mas o problema é que parte desse eleitorado não procura saber, nem parece interessar-se, que mudança querem promover os candidatos de tendência neoliberal-conservadora autoarrogados “arautos da mudança”, e se deixa cativar muito facilmente pelo primeiro que diz que “vai mudar” a ordem política.

E outra parte, com destaque para os reacionários, está preocupada demais em eleger candidatos violadores e revogadores dos Direitos Humanos e das liberdades socioculturais individuais, a ponto que não se atentam ao fato de que esses políticos são interessados em conservar essa ordem.

Com isso, o desfecho é que acabam (re)conduzindo ao poder políticos que, ao invés de mudar algo nas estruturas de poder brasileiras, zelam por sua conservação, manutenção ou mesmo radicalização.

Isso foi percebido com muita força em 2014. Foram as primeiras eleições que sucederam cronologicamente os protestos nacionais de junho de 2013. Falava-se, e continuava-se falando, de “mudar o Brasil” e “varrer a lama de Brasília”. Nesse contexto, Aécio Neves, de forma oportunista, posava como “aquele que vai (iria) mudar o Brasil” e deixava a entender que a “mãe das mudanças” seria simples e simplistamente tirar o PT do governo federal.

Nesse contexto, muitos eleitores de direita depositaram sua confiança nele, mas não pareciam querer saber quais mudanças ele realmente queria trazer além de, com sua eleição, encerrar a presidência petista da República. Seu programa eleitoral e sua participação nos debates nas emissoras de TV não esclareciam nem um pouco em que e como ele pretendia “mudar o Brasil”. A superficialidade de seus discursos era uma constante.

E tantos outros, que haviam votado em candidatos a deputado reacionários, viram em Aécio e seu PSDB os nomes certos para fazer o conservadorismo ideológico e o favorecimento prioritário ou exclusivo dos interesses dos mais poderosos voltarem a ser as grandes políticas públicas do governo federal.

E de fato a única mudança que queriam ou pareciam querer era o fim do “governo comunista” do PT, não lhes importando se a substituição do mandato petista pelo do PSDB de Aécio promovesse ou não retrocessos em se tratando, por exemplo, de combate à corrupção e desenvolvimento social.

Aécio Neves não foi eleito, mas a ascensão conservadora-reacionária teve suas consequências no resultado do pleito. O Congresso Nacional eleito para 2015 foi o mais conservador desde 1964, segundo o DIAP. Bancadas historicamente denunciadas por violações de Direitos Humanos, destruição ambiental, atentados ao Estado Laico e outros crimes, como a evangélica teocrática, a ruralista e a militar-policial, aumentaram em número e/ou no poder de influência de seus eleitos.

Nenhuma queda no número de políticos envolvidos com escândalos de corrupção e de parentes dos mesmos foi reportada. Pelo contrário, muitas pessoas acusadas de exercício antiético do poder político ou ligadas a gente assim acusada subiram ao poder ou renovaram sua posição.

Em outras palavras, o Congresso não se encaminhou para se tornar menos corrupto e abusivo com as eleições de 2014. Pelo contrário, são muito elevadas as chances de virar um fardo ainda mais esmagador para a população brasileira, promovendo mau uso do dinheiro público, investindo em violações e revogações de direitos, jogando a polícia contra cidadãos democratas nas ruas e cometendo outras violências.

Ou seja, o eleitorado conservador que dizia ou ainda diz “querer mudanças” e estar mais inspirado desde junho de 2013 não fez sua parte em se tratando de combater a política corrupta. Pelo contrário, elegeu ou reelegeu ainda mais pessoas interessadas em fazer do Estado um servidor de interesses privados.

Mas ainda assim, a parcela mais “revoltada” com a “sujeira para todo lado” cantada pela banda Legião Urbana continua acreditando e repetindo que está “promovendo o combate à corrupção”. Faz isso ao mesmo tempo em que protege políticos desonestos que não sejam diretamente associados ao PT e joga fora todas as oportunidades de moralmente “limpar” os poderes legislativo e executivo da “banda podre”.

O exemplo de 2014 evidenciou que a direita eleitora que tanto declara desejar a “moralização” do poder público e a extirpação dos corruptos e violadores da Constituição falha ao não fazer sua parte. Ou pior, tem agido para que aconteça justamente o contrário – a renovação e até proteção do perfil antipúblico e desonesto dos representantes políticos da sociedade brasileira. Ao invés de mudanças, só tem trazido continuidade daquilo de que tanto fala mal.

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