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nov14

A moral nada cristã da mentalidade reacionária
Continuo sendo ateu, mas isso não me impede de mostrar o cristianismo que muitos "cristãos" estão esnobando

Continuo sendo ateu, mas isso não me impede de mostrar o cristianismo que muitos “cristãos” estão esnobando

A religiosidade cristã é uma das características mais marcantes autoatribuídas pela maioria dos conservadores reacionários brasileiros. Muitos deles extraem de suas igrejas e das interpretações da Bíblia intermediadas por elas valores e crenças favorecedores de um status quo hierarquista e naturalizador das violências humanas. Mas uma leitura humanista da Bíblia mostra que a convicção cristã deles não é fiel aos ensinamentos de Jesus Cristo e arranca do contexto histórico a violência e as intolerâncias do Antigo Testamento.

Nos Evangelhos é possível encontrar muitos trechos dos discursos de Cristo que apontam para o respeito aos seres humanos, sem discriminações, mas são frontalmente desobedecidos pelos conservadores mais raivosos. Dos quatro primeiros livros do Novo Testamento, é possível admirar um Jesus humanista, que é diuturnamente rejeitado por quem defende a conservação das violentas hierarquias moral-sociais brasileiras:

– “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.” Mateus 5:21, trecho que coloca na berlinda quem promove linchamentos, quem defende que “bandido bom é bandido morto”, quem quer a restauração da pena de morte no Brasil e quem não se envergonha em defender que a polícia militar brasileira continue sendo uma das mais assassinas do planeta

– “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?” Mateus 5:43-47, numa passagem que, mediante certas interpretações, se opõe à intolerância religiosa e exorta as pessoas a tratarem mesmo seus opositores políticos mais ferrenhos com racionalidade e compaixão, ao invés de ódio e desejos de repressão e silenciamento à força

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.” Mateus 5:3-10, trecho do Sermão da Montanha no qual podem se encaixar os pobres, os compassivos, os que não odeiam quem pensa diferente, os que colocam a justiça acima da vingança, os que buscam a paz e rejeitam o militarismo bélico e policial, as pessoas injustiçadas por decisões elitistas dos juízes etc.

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.” Mateus 5:38-41, em passagem que desarma os defensores da doutrina penal do ódio, da pena de morte e das operações policiais de extermínio em comunidades pobres

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão.” Mateus 7:1-5, exigindo a extinção do moralismo manifestado por quem tenta impor a moral conservadora “cristã” sobre as minorias políticas

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á. E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” Mateus 7:7-11, em fala que pode ser interpretada como um repúdio de Jesus a quem rejeita a compaixão para com as pessoas mais necessitadas e a justiça social, apesar do especismo do discurso

“Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.
Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.” Mateus 7:15-23, representando, apesar do especismo manifestado, uma atemporal repulsa aos cristãos fundamentalistas que se dedicam muito mais a odiar minorias e promover falsos milagres e cobrança extorsiva de dízimos do que a defender e propagar o amor de Cristo por todos os seres humanos

“E estava próxima a páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. E achou no templo os que vendiam bois, e ovelhas, e pombos, e os cambiadores assentados. E tendo feito um azorrague de cordéis, lançou todos fora do templo, também os bois e ovelhas; e espalhou o dinheiro dos cambiadores, e derribou as mesas; E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda.” João 2:13-16, numa forte reprimenda a quem, seja na época do Império Romano, seja no século 21 da Era Cristã, use a igreja e o cristianismo para vender souvenires e produtos “ungidos” e ganhar dinheiro

Esses são alguns exemplos dentre uma vasta coletânea de passagens que mostram um Jesus que nada tem a ver com o conservadorismo sociopolítico levado a cabo por muitos reacionários autodenominados cristãos. Elas escancaram que eles são na verdade ferrenhos violadores dos ensinamentos do próprio Filho de Deus que dizem adorar e louvar.

E curiosamente essas mesmas pessoas, ao mesmo tempo que rasgam de suas Bíblias as mensagens atemporais de Jesus, tentam forçar que valham, em pleno século 21 depois de Cristo, mandamentos moral-culturais que se aplicavam especificamente a determinadas épocas da Antiguidade.

Entre os tantos casos de descontextualização histórica de mandamentos morais, estão como exemplos a “abominação” de homens terem relações sexuais entre si, a criação e comercialização de animais não humanos e o próprio princípio “Olho por olho, dente por dente” que viria a ser rejeitado por Jesus.

E essas próprias tentativas de aplicar a hoje ditames legais de mais de 2.500 anos atrás são fundamentalmente contraditórias. Desconsideram que, na mesma época em que a lei antiga institucionalizava a homofobia (caso de Levítico 18:22) e a intolerância contra quem adorava a outras divindades (exemplificada em Êxodo 22:20), também se respaldava na mesma lei a escravidão humana e a inferiorização das mulheres (ambos os casos em Êxodo 21), assim como era considerado “legítimo” o genocídio contra povos inimigos (a exemplo de Números 31).

Essa rejeição silenciosa dos ensinamentos de Jesus, mesclada com o apego a leis morais anacrônicas, revela que os reacionários que se dizem cristãos são, na verdade, anticristãos. Assim podem ser considerados porque negam o amor de Cristo pela humanidade e tentam reduzi-lo à qualidade de privilégio de poucos. Portanto, se alguém vem se dizendo cristão mas defendendo o ódio e o preconceito como práticas morais e políticas, duvidemos da religiosidade da pessoa.

imagrs

4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Cesar

junho 12 2015 Responder

Robson, Marx já previa que a bíblia seria na verdade interpretada desta forma, ou seja, os mal intencionados lucrariam com a inocência ou a desinformação dos miseráveis.

    Robson Fernando de Souza

    junho 13 2015 Responder

    Cesar, não sabia disso, valeu pela info.

    E a depender da interpretação, a própria Bíblia previa que esses mercadores da fé e sacerdotes do ódio iriam aparecer.

Ronaldo

novembro 16 2014 Responder

Digo, tô de acordo com tudo que você disse. Como delatar um ser sagrado que era um impostor (este era o dilema de Jesus).

Ronaldo

novembro 16 2014 Responder

Robson, provo tudo o que você disse.
Os políticos deviam sempre deixar claro a quem eles representam e dar provas de que ele não é autonomo neste quesito. Representação na informalidade é se transformar em um mini ditador.

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