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nov14

Os autodenominados “defensores da família” são os maiores inimigos das famílias
As famílias, sejam ou não hétero-nucleares, são os alvos dos ataques promovidos por autodenominados "defensores da família".

As famílias, sejam ou não hétero-nucleares, são os fuzilados alvos dos ataques destruidores promovidos por autodenominados “defensores da família”.

Os conservadores ditos “defensores da família” vivem dizendo que estão “protegendo a família brasileira”. E com o suposto intuito de fazer valer essa dita “proteção”, militam contra os direitos de inúmeras pessoas, especialmente homossexuais, mulheres e formações familiares que diferem do padrão hétero-nuclear – “pai + mãe + filho(a)(s)”. Não percebem que estão sendo assim, na verdade, os maiores destruidores de famílias da sociedade brasileira.

Duas posturas de intolerância e discriminação fazem com que essa alegada “defesa da família” seja essencialmente anti-família. Uma é a tentativa de censurar o reconhecimento legal e sociocultural dos modelos familiares que destoam do modelo hétero-nuclear. O outro é a frequente incitação ao ódio, costumeira nos discursos dos “pró-famílias”, a qual tem causado a literal destruição ou mutilação de famílias, inclusive hétero-nucleares, principalmente daquelas que têm filhos integrantes de determinadas minorias sociopolíticas.

 

A rejeição dos modelos não convencionais de família

Uma característica marcante da pregação ideológica de muitos “defensores da família” é rejeitar a existência e legitimidade de modelos não convencionais de família, que destoam do padrão hétero-nuclear. É comum, por exemplo, que políticos conservadores, especialmente evangélicos fundamentalistas, militem abertamente contra o direito de casais homossexuais de adotarem crianças, ou darem-nas à luz por via da inseminação artificial, ou conceberem-nas por meio de “barriga de aluguel”.

Tais políticos recusam-se a admitir que um casal homossexual pode dar a seus filhos tanto amor, cuidado, dedicação e educação ético-moral quanto um casal heterossexual poderia prover. Muitos deles, aliás, nem mesmo admitem que homossexuais podem constituir casal: chamam casais homossexuais de simples “pares”. Daí fazem todo um esforço para violar o princípio constitucional da laicidade do Estado e impor o dogma cristão fundamentalista de se reconhecer legalmente apenas a existência de casais heterossexuais e do modelo familiar liderado por um casal hétero.

Da mesma forma, a constituição de casais não monogâmicos – que contêm, por exemplo, dois homens e uma mulher, duas mulheres e um homem, duas mulheres e dois homens, duas pessoas de gênero binário (uma mulher e um homem) e uma de gênero não binário, entre outras combinações possíveis – e famílias constituídas por tais casais, com ou sem filhos, é tão repudiada que ainda é tratada como tabu, tanto nos meios conservadores como no próprio Direito Civil brasileiro.

Para tentar barrar a aceitação de casais e famílias não centrados na monogamia heterossexual, entram em cena os mesmos argumentos heterossexistas que discriminam os casais homossexuais e suas famílias. São usadas muitas das mesmas falácias que argumentam haver uma suposta tendência à “destruição da sociedade” por causa da expansão do respeito à diversidade sexual.

E curiosamente a oposição intransigente ao reconhecimento de famílias que não sejam compostas de pai, mãe e filho(a)(s) termina afetando outros modelos de família, mesmo aqueles que não são liderados por casais homossexuais. Se depender da “defesa da família” embandeirada por muitas pessoas por aí, a lei brasileira também não deveria reconhecer como famílias formações como: mãe ou pai solteira(o), divorciada(o) ou viúva(o) + filho(s); avós + netos; tios + sobrinhos; irmã(o)(s) adulta(o)(s) + irmã(o)(s) menor(es) de idade; primo(a)(s) adulto(a)(s) + primo(a)(s) menor(es) de idade; famílias extensas de múltiplas gerações habitando a mesma casa; responsável(is) não genitor(es) (como um tutor legalmente reconhecido ou um professor) + criança(s) tutelada(s); entre tantas outras combinações.

Isso sem falar dos casais sem filhos, dos amigos que moram juntos e dos indivíduos que moram sozinhos e são reconhecidos pelo IBGE como famílias unipessoais. Contra as pessoas que se incluem nesses modelos, entra em cena a rejeição às definições de família que não considerem obrigatória a utilitária função de reproduzir e perpetuar a espécie humana.

Ou seja, os “defensores da família” estão pleiteando a ilegalização, discriminação e marginalização da maioria de todas as famílias existentes no Brasil. Como mostrou O Globo em agosto de 2012, o IBGE deixa claro que, pelo menos desde 2010, o modelo familiar constituído por pai, mãe e filho(a)(s) já não é maioria no país: segundo o censo daquele ano, 50,1% de todo o universo de famílias brasileiras são de arranjos diferentes do padrão hétero-nuclear.

 

A incitação ao ódio como vetor de destruição de famílias

A admissão da existência de apenas um modelo válido de família é parte de uma teia de dogmas discriminatórios, de origem religiosa fundamentalista, que se relacionam entre si. Entre eles, há diversos mandamentos que incitam as pessoas a dedicarem ódio, discriminação e violência – inclusive física e psicológica – contra diversas minorias políticas.

Entre os diversos preconceitos de inspiração religiosa, alguns sobressaem como demolidores ou mutiladores de famílias: o machismo e misoginia, o heterossexismo (principalmente homo, lesbo e bifobia), a transfobia, a intolerância religiosa e o ódio político. Destroem principalmente famílias nucleares de educação conservadora, nas quais o pai, a mãe ou ambos reagiram com intolerância ao primeiro sinal de “desvio” de um ou mais filhos a características que consideravam indesejáveis, como a homossexualidade, o feminismo ou o ateísmo.

É comum ver esses tipos de preconceito serem pregados juntamente ao dogma do modelo familiar único, nos púlpitos das igrejas, nos plenários das casas legislativas, em vídeos e páginas na internet, nas TVs e rádios administrados por igrejas conservadoras, nas pregações religiosas em espaços públicos, entre outros lugares ou meios. Quando aplicados no lar por pais doutrinados pela cultura de intolerância vigente, tornam-se um devastador vetor de desagregação familiar.

Com isso, multiplicam-se pelo Brasil casos de agressão, expulsão do lar e deserção contra filhos que se declaram convertidos a minorias religiosas ou irreligiosas, como ateus, afrorreligiosos, espíritas, pagãos, muçulmanos e judeus; contra jovens homossexuais ou bissexuais; contra pessoas trans (travestis, transexuais, pessoas não binárias etc.); contra filhas que se assumem feministas; e contra adolescentes ou jovens adultos que se revelam adeptos de ideologias de esquerda, como o anarquismo, o comunismo e correntes contemporâneas de socialismo, ou aderiram a partidos como o PT, o PSTU ou o PSOL.

Muitas vezes as “justificativas” dadas para essa violência parental passam, por exemplo, por alegar que a vítima “se entregou ao diabo”, “abandonou a decência”, “deixou de ser uma pessoa de bem”, “virou rebelde”, “se entregou à promiscuidade”, “virou vagabunda”, mais outras impronunciáveis declarações de ódio que, graças aos mesmos “defensores da família”, ainda não se tornaram crime como o racismo.

Ressalte-se que a intolerância insuflada por religiosos também “pró-família” não vitima “apenas” filhos de famílias conservadoras educados para o preconceito. Casais monogâmicos também são separados por causa desse ódio. Não são raros, por exemplo, os casais nos quais o homem passa a odiar a namorada, noiva ou esposa por ela ter se assumido feminista; ou aqueles que se separam porque um dos membros se converteu à umbanda, ou ao espiritismo, ou virou ateísta, e a outra pessoa não tolera credos não cristãos; ou aqueles que se rompem porque a mulher começou a estudar apaixonadamente sobre marxismo e o seu namorado religioso conservador não admitiu vê-la ler livros de esquerda; entre outros casos.

A rejeição contra mais da metade das famílias brasileiras e a propagação de ódios desagregadores de famílias e casais configuram os conservadores autodenominados “defensores da família” como os maiores destruidores e criminalizadores de famílias da modernidade. Quanto mais defendem a exclusividade legal do modelo “pai + mãe + filho(a)(s)” e pregam a intolerância, a discriminação e a privação de direitos contra minorias políticas, mais famílias são mantidas na penumbra dos direitos civis ou alheadas deles, destruídas ou desmembradas graças a esses militantes.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Tarantino

agosto 5 2015 Responder

Pelo visto o autor do texto não sabe o que é “conservador”.

Ronaldo

dezembro 2 2014 Responder

É, Robson, sua imprensa tá a todo vapor! Tá ganhando até da impresa comercial!
Este texto sobre família é oportuno. Quem dera se o cidadão entendesse a lei mais como orientação e não como imposição. Quem dera se a Justiça fosse livre das amarras que os políticos lhe impõe. O Homem criou muitos artificialismos e sem aprofundar no conceitos das palavras. A regra é punir: prender, tirar valores e afastar. Quem dera se o Homem fosse mais moral e ético do que violento. Vale tudo? Perdeste a razão?

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