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nov14

Por que Dilma, Lula e Aécio são, em parte, responsáveis pelo crescimento do “movimento” reacionário que quer golpe militar e ditadura
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Foto de Cris Fraga/Fox Press/Estadão. Coxinhas e palavra “EU” inseridas por mim

Aviso: Artigo polêmico para quem defendeu Dilma na campanha eleitoral e para quem votou em Aécio sem compactuar com o reacionarismo e o antipetismo fanático

Uma verdade inconveniente está por trás do fatídico protesto de ódio à democracia realizado em São Paulo no último dia 1º: Dilma Rousseff, Lula e Aécio Neves têm suas parcelas de responsabilidade pelo acontecimento de tal evento. De maneiras distintas, os três ex-candidatos à presidência contribuíram para o fortalecimento do “movimento” reacionário que tem se alastrado na internet, semeado e manifestado diversos ódios – alguns deles criminosos – e ido às ruas pedir pela supressão da democracia e pela instauração de uma ditadura civil-militar de extrema-direita.

 

Por que Dilma e Lula?

Ambos adotaram, ao longo de doze anos, uma política de apaziguamento forçado, o lulismo, na tentativa de conciliar os interesses dos opressores e as necessidades e causas políticas dos oprimidos. Esse modo de governar, por um lado, promovia ou continuava políticas distributivas de renda mínima para as milhões de famílias mais pobres do país e incentivar ou preservar a geração de empregos. E por outro aliava-se a ruralistas e teocratas, vetava programas e leis de respeito aos Direitos Humanos e zerava a demarcação de terras indígenas e quilombolas, a criação de unidades de conservação e a reforma agrária.

Nessa frágil e forçada política de conciliação, bandeiras de esquerda foram rasgadas, como a regulação e democratização da mídia, a revisão da Lei da Anistia de 1979 e a ampla e irrestrita investigação e punição de crimes cometidos por militares torturadores e civis cúmplices na ditadura de 1964-1985. Graças a isso, continua à margem do conhecimento da maior parte da população o que realmente aconteceu nos bastidores e porões do regime civil-militar que, por 21 anos, fechou a política para o povo e criminalizou incontáveis direitos e liberdades.

Assim sendo, muita gente continua acreditando que nos governos militares, por exemplo, a corrupção ou não existia ou era rigorosamente combatida, a violência urbana não associada às lutas contra o regime era mantida sob estrito controle e impedida de fustigar a sociedade, a economia disparou em crescimento e repartiu devidamente os ganhos entre toda a população brasileira, não havia tantas agressões ao meio ambiente…

Envoltas por esse pesado edredom de ignorância, milhões de pessoas, com destaque a incontáveis jovens com menos de 25 anos, creem inocentemente que “no regime militar tudo era melhor do que hoje”. E como o governo federal da redemocratização não tem se esforçado para desmitificar tudo isso, essas crenças continuam difundidas.

E nisso o trabalho de livros, documentários, sites, blogs e páginas de redes sociais dedicados à História do Brasil, em revelar o que o regime militar escondia e o próprio governo democrático continua acobertando, tem sido insuficiente, não conseguindo alcançar as massas e às vezes sendo esnobado como “panfletagem esquerdista”.

E para engrossar esse caldo, o oligopólio da mídia, nesses doze anos de PT no poder, foi mantido intocado. Aliás, foi até reforçado, graças ao pagamento de bilhões de reais em veiculação de propagandas de órgãos do governo federal e de empresas estatais, inclusive para veículos que incitam explicitamente o ódio a Lula, a Dilma e ao PT.

Apesar de terem seus caixas bem alimentados com esses bilhões por propaganda estatal, diversos “grandes” noticiários têm mantido constantes e pesados ataques aos governos de Lula e Dilma, inclusive quase tendo levado a reeleição da presidenta ao fracasso. E, como tem sido cada vez mais evidente, acobertam ou suavizam interesseiramente quase todos os escândalos protagonizados por gente de partidos como o PSDB e o DEM e/ou bancadas como a teocrática e a latifundiária.

Enquanto isso, a parcela da mídia à margem dos impérios midiáticos padece com uma audiência baixa e um alcance populacional muito reduzido. Aquelas emissoras, portais, jornais e revistas que se opões ideologicamente a esses conglomerados terminam passando suas mensagens progressistas ou libertárias a uma população bem restrita. E isso faz com que seus programas de educação extraescolar que objetivem fomentar o senso crítico e a curiosidade intelectual na sociedade não possam ter metas minimamente abrangentes e robustas.

Com isso, o conteúdo midiático que induz um pensamento conservador, antipetista e antiesquerdista tem alcance e audiência esmagadoramente maiores do que aquele que problematiza as crenças de direita difundidas pela imprensa mainstream. E isso limita enormemente qualquer esforço não governamental que vise a derrubada de mitos político-ideológicos e o esclarecimento multi e interdisciplinar da parcela da população já saída da escola.

E além desses problemas, é evidente também o descaso ideológico que os governos de Lula e Dilma tiveram para com a população beneficiada por suas políticas sociais. Além do pouco caso em se tratando de apoiar políticas estaduais e municipais de democratização, amadurecimento e politização da educação básica, o governo federal petista não se preocupou com o fato de que a população beneficiada por programas como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida e as cotas sociorraciais permaneceu submersa em crenças meritocráticas.

Muita gente acredita que saiu de uma condição pobre ou miserável de vida por mérito próprio, pelo esforço pessoal, e dá pouco crédito à importância das políticas de inclusão socioeconômica. Não houve qualquer compromisso do governo federal em deixar claro, via publicidade, que o desenvolvimento social que se deu durante os mandatos dos presidentes petistas é uma conquista das lutas multicentenárias dos movimentos sociais.

Apenas no segundo turno da campanha eleitoral é que Dilma e a militância petista que a apoiou enfim perceberam a importância de reconhecer amplamente o mérito das lutas dos movimentos de esquerda pela implantação e sucesso das políticas inclusivas, ao invés do puro e mítico esforço meritório estritamente individual dos brasileiros. Também foi só nesse segundo turno que Dilma e o PT enfim cogitaram costurar bandeiras que haviam rasgado, como a investigação dos crimes da ditadura civil-militar, a regulamentação e democratização da mídia brasileira e o apoio e atendimento às reivindicações dos movimentos sociais.

Mas acabou sendo tarde demais para milhões de pessoas, desde gente muito pobre até barões da mais alta classe econômica brasileira. Muita gente declarou voto em Aécio Neves e integrou o “movimento” de ódio antipetista que ajudou a transformar as discussões políticas brasileiras numa quase literalmente sangrenta guerra partidária de baixarias e ataques violentos.

E depois das eleições, essa onda de ódio político continuou através das manifestações nas redes sociais, tendo culminado até o momento com o infame protesto golpista na Avenida Paulista no último dia 1º.

Em resumo, a cumplicidade de Lula e Dilma e suas equipes perante o oligopólio da mídia, a proteção dos torturadores da ditadura e a manutenção da ignorância política de grande parte da população não só manteve as portas abertas para o crescimento do ódio político-ideológico reacionário e antipetista, como também aumentou a abertura dessas portas. E aí entrou em cena o outro grande responsável por essa ascensão ultraconservadora.

 

Por que Aécio?

O candidato derrotado no segundo turno presidencial foi um grande incitador dessa onda de ódio. Os discursos dele inflamando o fanatismo antipetista dos seus “indignados” eleitores foram decisivos para acender o forno com o barril de pólvora dentro.

Por diversas vezes, ele “denunciou os podres do PT” de uma forma exaltada e inflamatória. Suas críticas ao PT e aos presidentes petistas em alguns comícios e programas eleitorais fugiam completamente do equilíbrio entre razão e emoção.

Em diversas ocasiões, não estava mais em jogo o que houve de antiético ou de oposto às visões de mundo direitistas durante os doze anos de governo petista. Nem mesmo estava sendo divulgada a possibilidade de uma sólida e racionalmente convincente alternativa de plano de poder e governo que cativasse os eleitores de direita.

O que se viu, ao invés, foram discursos que beiravam a incitação ao ódio político, que inflamavam o já exaltado fanatismo reacionário de quem votaria até em Hitler para presidente e Satanás para vice só para tirar o PT da presidência. Ele dizia que o Brasil precisava ser “libertado” do PT, e se arrogava como o seu pretenso “libertador”Os comícios realizados em capitais do Centro-Oeste em 21 de outubro e o programa eleitoral noturno do dia 22 foram exemplos muito claros disso. Isso sem falar do debate do segundo turno na Globo, no qual ele declarou que “a solução para a corrupção” seria, acima de qualquer outra providência, tirar esse partido do governo.

Merecem destaque aqui também os discursos dele na semana seguinte à derrota. Nos dias seguintes à derrota eleitoral, ele retomou os virulentos ataques ao PT, à presidenta e à sua campanha, particularmente, até o momento, num vídeo divulgado em sua página oficial no Facebook e numa entrevista dada à também antipetista revista Veja (link alternativo para quem não quer dar audiência ao site da revista).

Ele também elogiou “o Brasil” que havia ido às ruas em apoio a ele, mesmo que o tal “Brasil nas ruas” dele tenha sido um país cheio de ódio político, agressividade, fanatismo, ignorância sócio-histórica e sangue nos olhos (ver esses vídeos como exemplos disso: vídeo 1, vídeo 2, vídeo 3, vídeo 4, vídeo 5, vídeo-coletânea) e desinteressado no que estaria para vir num possível mandato presidencial do tucano.

Também chamou a atenção, e continua chamando até o momento, o sepulcral silêncio do ex-candidato perante todos os rompantes de ódio criminoso contra nordestinos, negros e pobres desde o final do primeiro turno; os diversos apelos igualmente ilegais à derrubada violenta de Dilma da presidência e a irracionalização de grande parte de sua militância durante o segundo turno. Diz o ditado que “quem cala, consente”, e Aécio, com seu silêncio, realmente parece estar consentindo que o circo pegue fogo, depois de ter sido o maior incitador do antipetismo fanático deste ano.

Fica claro que, tanto no período entre 2003 e meados de 2014 como nessas violentas campanhas eleitorais presidenciais, houve uma notável contribuição de Lula, Dilma e Aécio na radicalização das campanhas reacionárias de ódio à democracia, aos direitos e liberdades alheios e à ascensão socioeconômica de milhões de pessoas pobres.

Seja por omissão, cumplicidade ou incitação, os três podem ser duramente criticados por isso. E não é porque se dedicou voto crítico ou semicrítico em Dilma ou se votou em Aécio pela alternância de poder que se está impedido de fazer tais críticas – elas podem e até devem ser feitas, em nome da resistência e do amadurecimento da democracia no Brasil.

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7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ronaldo

novembro 8 2014 Responder

O Diabo criou o segundo partido da história: o patido do mal! O Pai não tem partido: você é que escolhe (nós somos livres). Antes só havia o partido do bem!

Rui Amaro Gil Marques

novembro 7 2014 Responder

Quando a esquerda reformista governa tal qual os governos da direita liberal, deixando de lado bandeiras historicas da propria esquerda, fazendo acordos com as classes dominantes, ela simplesmente pavimenta o caminho da extrema direita. A extrema direita no Brasil voltou as ruas depois de decadas de ostracismo. E as ruas que antes eram territorio da esquerda hoje se encontram abandonadas por ela. O PT se tornou so mais uma sigla nessa sopa de letrinhas da politica nacional. Grande parte das pessoas que votaram em Aecio e. Marina o fizeram nao porque o PT e de esquerda, socialista, comunista ou algo do genero. Votaram contra o PT porque ele deixou de ser o PT e se tornou so nais um partido envolvido em corrupçao. Ha muito tempo que o PT perdeu o embate ideologico e sua propria ideologia de esquerda. Esse foi o grande estrago realizado pelo lulismo no partido. E para piorar ainda mais agora tenos o dilmismo. Tudo isso deseduca as massas politicamente e as deixa desarmadas ideologicamente para resistir e enfrentar os apelos da extrena direita. Aecio apenas pegou carona num veiculo que ja estava andando havia 12 anos.

Ronaldo

novembro 6 2014 Responder

Não vejo nenhum ódio em Dilma ou Aécio. Vejo ódio: nos que picham e botam fogo no patrimônio público; nos terroristas; nos homicidas e violentos. Há lobos em pele de cordeiro, mas, são todos egocêntricos e não sabem servir (ser servo não é ser escravo) à sociedade.

Ronaldo

novembro 6 2014 Responder

Não vejo nenhum ódio por parte dos candidatos. Vejo ódio naqueles que picham as paredes, nos que botam fogo nos ônibus, nos egocêntricos, nos homicidas, nos terroristas, nos caluniadores e nos farsantes. Existem lobos em pele de cordeiros, mas, só os conhecemos por suas más práticas. Embate de idéias sempre existirão. O que mostra maior virtude é apenas um servo (não escravo) do povo.

Sandro

novembro 5 2014 Responder

Curioso notar que em momento algum dos “porquês” relativos a dilma e lula, cita os casos de corrupção (mensalão, petrolão, etc…etc…). Além do que, define como “infame protesto golpista”, o movimento do último dia 1º de novembro, ocorrido na Paulista, quando já foi amplamente divulgado que aquele era um movimento democrático e que se distinguia de outro movimento que acontecia no mesmo dia. Aquele sim, pedia intervenção militar. Enfim, como sempre, os tendenciosos só enxergam o que lhes interessa e acabam distorcendo os fatos.

A.N.

novembro 3 2014 Responder

Muito bom o texto!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 4 2014 Responder

    Obrigado =)

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