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nov14

Protesto contra a democracia no Brasil reúne entre mil e 2,5 mil pessoas na Avenida Paulista

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Um evento na tarde de ontem estarreceu o Brasil: entre mil e 2,5 mil (não há consenso sobre quanta gente participou) “coxinhas” foram à Avenida Paulista, no centro de São Paulo, para pedir pelo fim da democracia no Brasil. Levaram à avenida, para vergonha alheia do restante da população, reivindicações absurdas e criminosas, como o impeachment ilegal contra a presidenta reeleita Dilma Rousseff – sem que haja qualquer acusação comprovada e condenação legal contra ela -, a realização de golpe militar pela restauração da ditadura encerrada em 1985 e a transformação da precária e limitada democracia brasileira num regime totalitário governado pela vontade mimada dos reacionários de direita.

Chamou a atenção o fato de que, ao mesmo tempo em que afirmaram que o Brasil “é uma ditadura comunista”, pediam pela substituição dessa imaginária ditadura por um realmente tirânico Estado de polícia e de exceção – só que assumidamente capitalista selvagem e privatista. Foram às ruas, usufruindo da liberdade de expressão política curiosamente preservada pela “ditadura do PT”, exigir justamente a supressão dessa liberdade e de tantas outras previstas pela Constituição Federal de 1988.

O ato pode ser considerado uma nova reedição da “Marcha da Família com deus pela ‘Liberdade'”, que se tentou reviver em 22 de março deste ano. Assim como o também risível “protesto” de março – que havia sido devidamente contrabalançado por uma manifestação antigolpista -, uma atmosfera de ódio, autoritarismo, ignorância e fascismo cobriu a avenida e rodeou o MASP.

Entre os cartazes e faixas, alguns repetiam acriticamente a “barriga” da Veja, que dizia que “Dilma sabia” do escândalo da Petrobras desde sua origem, e falavam de “luto pelo fim da democracia” – sem deixar claro se o “luto” era de “lutar” ou de falso lamento. Paralelamente, discursaram nomes como Lobão, que havia desistido de ir embora do Brasil depois da vitória de Dilma, e o deputado federal eleito Eduardo Bolsonaro, que fará dupla com o pai Jair na bancada neofascista da Câmara Federal a partir de janeiro.

Também ressoaram discursos, segundo o Estadão, de que muita gente ali assume preferir de verdade votar em criminosos assumidos e condenados, como Marcola do PCC, só para não deixar o PT ganhar – o que de certa forma “explica” por que Geraldo Alckmin foi reeleito em primeiro turno depois de ter sido conivente com o Trensalão e feito os sistemas Cantateira e Alto Tietê secarem.

O ato seguiu do MASP até o Parque Ibirapuera, quase tendo havido um racha entre golpistas e eleitores “moderados” de Aécio Neves frustrados. A vergonha alheia continuou sendo plantada no rosto de cada pessoa que via de longe a marcha antidemocrata caminhando.

Dessa vez, infelizmente, não houve uma contramanifestação antigolpista, ao contrário da que houve em 22 de março. A parcela que teria protestado contra os golpistas foi para a manifestação “Alckmin, cadê a água?”, no Largo da Batata. E esse protesto pela água aconteceu lá, ao invés da Paulista, por receio de que grupos neonazistas e neofascistas vindos da marcha golpista agredissem os participantes.

Não se sabe ainda se haverá mais marchas contra a democracia nas próximas semanas, mas desde já fica evidente que ela passou longe de cumprir seus megalomaníacos objetivos – “alertar o Brasil” sobre a “necessidade” de “acabar com a ditadura comunista do PT”, enfraquecer a democraticamente eleita presidenta e “sensibilizar” as forças armadas perante a demanda por golpe militar.

Isso porque menos de 3% das mais de 100 mil pessoas que haviam “confirmado” presença na página do evento no Facebook compareceram. E a manifestação foi motivo não de preocupação, mas sim de piada e facepalm no Brasil inteiro, desde de militantes de esquerda até de muitos dos próprios eleitores direitistas de Aécio.

O reacionarismo de pessoas como os “coxinhas” participantes da marcha de ontem continuará sendo tratado como algo ao mesmo tempo ridículo e venenoso. Ao mesmo tempo em que continuará sendo motivo de risadas, essa sanha antidemocrática e mimadamente autoritária deve ser detida sempre que se manifestar publicamente.

E isso deixa claro também o enorme desafio que é trazer um mínimo de educação histórica extraescolar para pessoas que há anos já terminaram o ensino médio ou, no caso dos adolescentes, estão tendo na escola um precário, desinteressante e despolitizado ensino de História. Defende-se que o reforço dos sites e blogs dedicados à história republicana do Brasil, a luta pela democratização da mídia – com a derrubada de seus oligopólios – e a abertura total para as investigações da ditadura civil-militar feitas pelas Comissões da Verdade são imprescindíveis para deter essa onda de ignorância que, se for deixada desimpedida, pode a médio ou longo prazo ameaçar de verdade a democracia no Brasil.

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