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dez14

O armamento civil livre como reafirmação de uma cultura de violência
Imagens como essa mostram que o armamento civil não visa a paz, e tem como efeito colateral a reafirmação da violência como valor cultural.

Imagens como essa mostram que o armamento civil não visa a paz, e tem como efeito colateral a reafirmação da violência como valor cultural.

Uma das mais conhecidas bandeiras da direita no Brasil é a livre posse e porte de armas de fogo. Argumenta-se que o direito à defesa pessoal armada diminui os índices de crimes como assaltos e homicídios e amedronta os criminosos, que passariam a pensar duas vezes ao investir contra alguém armado. Mas se por um lado existe a possibilidade de pôr assaltantes, homicidas e outros criminosos “no seu lugar”, por outro a liberação do uso civil de armas não traz a cultura de paz à sociedade, mas sim reafirma a violência, a coerção, o medo como pilares desta, além de amplificar, ou pelo menos não diminuir, a possibilidade de outros tipos de crime.

É um contrassenso acreditar que a cultura da arma pode trazer paz à sociedade e eliminará as raízes da violência criminal. Talvez diminua a chance de alguns indivíduos de serem bem-sucedidamente roubados ou assassinados na rua, mas isso tem um custo alto quando pensamos socialmente.

Uma sociedade que encara o uso civil de armas como “solução” ou providência aliviatória para o combate à violência, necessariamente é uma sociedade regida pelo medo, pela imposição violenta da ordem, pela coerção ameaçadora, pelo autoritarismo como valor sociocultural. Nela as pessoas (teoricamente) evitariam cometer violências de subtração de propriedade não por consciência ética de respeitar que o outro tem o direito de ser dona do objeto que poderia ser roubado, mas sim pelo medo de morrerem ou serem gravemente feridas.

Nessa cultura armada, a imposição do medo é um valor apreciado. O exercício de poder através do amedrontamento é uma realidade admirada. As raízes da violência, como a desigualdade social, a ilegalidade de diversas drogas e a transmissão do ditado moral Might is right (algo como “Quem exerce a força tem razão”), são mantidas intactas – ou seja, o medo da arma do outro não vai ser suficiente para parar o surgimento de delinquentes. A socialização na cultura de violência indica aos jovens que o uso da força e da coerção pode ser algo positivo e apreciável se orientado a certos interesses.

Além disso, a liberação do armamento civil ignora ou subestima o fato de que a sociedade de hoje é machista, racista, heterossexista, transfóbica etc. E nisso os homens brancos cisgêneros heterossexuais têm amplo espaço e privilégios mil para se imporem pela força e dominarem quem não pertença a essa interseção de categorias.

A cultura da arma livre favorece que homens machistas dominem suas companheiras pela ameaça armada, tal como acontece em incontáveis relacionamentos abusivos. O ódio contra pessoas negras, homossexuais, pessoas trans etc. encontra mais fluidez quando o criminoso, ainda mais quando visto pelos seus pares como “cidadão de bem”, não sofre impedimento legal para ter e usar sua arma.

E somando-se o livre armamento com essa cultura de múltiplas opressões, machistas que estupram e/ou matam suas parceiras são protegidos pela tradição que culpa a própria mulher vítima de violência misógina por tê-la sofrido. Crimes violentos contra pessoas negras são vistos como menos inaceitáveis do que contra brancos. Pessoas trans são vistas como lixo, e suas mortes violentas são ignoradas pela opinião pública. Esses delitos contra a vida não são diminuídos, ou dificilmente são evitados, pela liberação das armas.

A liberdade de possuir e portar armas, longe de tornar a sociedade mais pacífica, legitima, fortalece e perpetua a cultura de se impor pelo medo e pelo potencial de exercer violência física. Reafirma a cultura regida pela violência como valor. E, se não aumenta, não evita que crimes de ódio contra minorias políticas cometidos por ditos “cidadãos de bem” continuem ocorrendo. Em outras palavras, violência não pode ser a solução para violência.

imagrs

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Fernando

dezembro 7 2014 Responder

A ideia do texto seria aplicável num ambiente onde não houvessem armas na posse de ninguém nem houvesse qualquer necessidade de dispor delas (porque todas as pessoas são pacatas e respeitam a propriedade alheia). Obviamente, esse não é o caso (e aqui reside todo o problema da argumentação de esquerda: compara uma idealização com a realidade, sendo óbvio que a realidade sempre perde).

Hoje podemos ver que a proibição do armamento civil nada mais fez que criar um mercado negro (consequência de qualquer ato proibicionista) de armas. Majoritariamente, quem vai a esse mercado negro para adquirir uma arma não é o cidadão comum, que trabalha, produz, e aprende a vida toda que não é certo roubar ou matar, mas justamente aqueles que, em posse de armas, cometem barbaridades. A liberação do armamento civil vai, ao menos, suscitar uma dúvida no meliante, fazendo-o pensar duas vezes antes de cometer seus crimes. Se ele ainda assim pode ter sucesso? Claro que pode, mas é importante lembrar que leis não podem ser elaboradas em cima de probabilidades, ou estaremos na antessala da instituição do pré-crime (aquele território nebuloso onde conceitos como “todos são inocentes até prova em contrário” são derrubados).

Ademais, ainda não vi um argumento que comprovasse logicamente que a simples posse de uma arma constitua agressão (afinal, é isso que diz a lei do desarmamento).

Gustavo, anarquista bizarro

dezembro 7 2014 Responder

A discussão “armamento X desarmamento” parte, da minha óptica, de uma premissa errada. O que é essa discussão sobre se deve-se ou não ter o direito a se armar? Armas trazem mais violência ou paz (uma ridícula espécie de MAD (mutual assured destruction) on personal level)?

Uns querem o direito a comprar armas de uma indústria para se defender de pessoas que adquirem armas que essa mesma indústria joga de forma no nojenta mercado negro, outras querem que essas armas fiquem somente no mercado negro.

Não tem um sequer que questiona se a indústria armamentista deveria existir. Especificamente no caso do Brasil, as armar, em sua grande maioria vêm do Paraguai, armas essas que são desenhadas para ataque, próprias para os “bad boys”. E as lojas do Paraguai são abastecidas de armas legalmente, da mesma forma que as “Casas Bahia” são abastecidas de fogões ou geladeiras.

Será que se pode iniciar uma discussão com essa premissa?

Bom, dá até medo de postar aqui Robson, seu conceito de agressividade me parece extremamente amplo, nunca se sabe se é perda de tempo escrever aqui para depois ser censurado, mas vamos tentar não é?

Se eu defendesse o direito do cidadão de se armar como a Bancada da Bala –financiada pela indústria armamentista– quer eu refutaria seu post somente dizendo que as mulheres oprimidas, os homossexuais ameaçados e os negros encurralados poderiam se defender dos “homens brancos cisgêneros heterossexuais” se possuíssem armas. E se algum parlamentar antiarmamentista seguir essa linha os “Bolsonaros” da vida idiota de Brasília vão massacrá-los com essa simples refutação.

Um povo armado até os dentes não é violento ou pacífico por causa das armas, EUA é altamente armado e altamente violento, Suíça e Canada são altamente armados e altamente pacíficos. Violência ou paz são culturais,e cultura é educação.

Raphael Almeida

dezembro 6 2014 Responder

Mias uma vez um texto superficial e e cheio de ideias esquerdista.Faço a mesma pergunta do colega .Como explicar Suíça e EUA em que tem uma liberação ao uso das armas de fogo.E ainda te pergunto uma coisa eu , tu , teu vizinho não podemos usar armas , mas o cidadão que é rico pode pagar uma firma de segurança para protegê-lo, ou seja ,só quem tem direito a segurança é a elite né Robson que pode pagar …

Outra coisa queria saber se você se incomoda de eu postar no seu blog e ter ideias diferentes de sua , porque se você tem um canal de comunicação pública e não aceita posições dispares da sua ai sinceramente, Bolsonaro é uma menina perto de você.

Continuando porque o Lula não anda sem segurança ,o chefe do teu partidinho é arrochado de segurança fortemente armado, já fosse na sede do teu partidinho aqui em recife? vai lá vê se não tem segurança pelo menos com um 38 .Agora, eu em casa com minha mulher e meu filho e entra um menor e mata e estupra minha família eu não posso ter uma arma pra me defender?. E depois que ele fizer isso tu ainda vai defender o bichinho por causa da maioridade penal .que nada rapaz! ficar atras de um computador escrevendo o que quer é bom ,quero ver viver a vida real meu caro.

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 6 2014 Responder

    Mensagem padrão: Seu comentário foi considerado agressivo e fechado ao debate, e o autor se reserva o direito de não respondê-lo.

José Luiz

dezembro 5 2014 Responder

algumas perguntas
o que fazer com a segurança pública, como fica o cidadão(negro, branco, gay, hétero) que não quando o Estado é ineficaz em proteger??

a população mais frágil(negros, homo, mulheres) não teriam chances de se defenderem tendo acesso a armas também?

em uma sociedade onde se tenha fácil acesso a armas, o medo do outro estar armado não seria também uma cautela para o uso desnecessário da arma de fogo como você sugere ao dar como exemplo em briga de bar ou de trânsito?

claro que educação, mudança da cultura de violência, menos consumismo e outras mudanças mais profundas poderiam fazer com que nem fosse necessário o porte de armas, mas, não são demoradas demais para ter efeito?

no final do artigo você ataca a idéia de que uma sociedade armada é menos segura(por valorizar a cultura da violência), mas, o que acha da Suiça ter permissão para o porte de armas e não ser um país violento? (sim eu sei que Japão, Austrália e Reino Unido proibem armas e são seguros, da mesma forma que o méxico tem acesso a armas e é violento e a República dominicana libera armas e é violenta também, me refiro ao caso específico da Suiça)

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 6 2014 Responder

    José, me manda, por favor, algum artigo que fale da questão da segurança da Suíça, e também sobre como é a questão lá de segurança X posse+porte de armas X cultura moral.
    Abs

      Jose Filho

      dezembro 6 2014 Responder

      fiz uma pesquisa rápida sobre a Suiça, e achei uns artigos que podem até ajudar a entender pq dá certo a liberdade para se ter armas lá:

      http://www.armaria.com.br/suicos.htm – um artigo de um blog de armeiros, ele conta por cima a história da suiça, fala que lá os homens são obrigados a servir o exército e ganham uma arma para manter em casa(além do próprio estado facilitar a aquisição de armas), compara os crimes na suiça com outras partes do mundo e conta um pouco da sociedade suiça(lá tem a participação popular, o governo é extremamente descentralizado e o juiz é eleito pelo povo)

      http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pa%C3%ADses_por_taxa_de_homic%C3%ADdio_intencional – a suiça tem um dos menores índices de mortes por 100 mil habitantes no mundo(apesar de perder para o japão que é um país que proibe armas)

      http://www.brasileiraspelomundo.com/suica-ate-morrer-53108199 – o relato de uma brasileira que vive na suiça

      https://flaoliveira.wordpress.com/2013/06/21/como-funciona-a-educacao-na-suica/ – um blog falando sobre educação na suiça, especificamente no Cantão(o equivalente a Estado deles) de Zurique(o acesso é restrito, ela é cara e não dá liberdade aos estudantes, já que muitos são obrigados a aprender alguma profissão e eles não escolhem qual)

      isso é o que achei próximo do q vc pediu

        Robson Fernando de Souza

        dezembro 6 2014 Responder

        Blza, vou dar uma lida depois. Obrigado =)

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