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Cidadãos de bem: o mito
Tirinha de André Dahmer

Tirinha de André Dahmer

por Gunter Brian, do blog Desafio 365

Citação recorrente em debates políticos, geralmente, de natureza etnofóbica, por vez ou outra cruzamos caminho com certos cidadãos de bem. Homens trabalhadores, crianças e mulheres de família direita, humanos humanamente dignos e corretos. Incapazes de cometerem crimes, estes merecem sim, a proteção do estado e da polícia contra o bandido do morro.

É curioso imaginar o que serviria de apoio para sustentar uma tese tão puritana, quanto tal que defende uma classe de indivíduos super virtuosos e de índole inquestionável, que teriam mais direitos do que qualquer outra classe de cidadãos. Falta pouco pedirem o direito de serem clientes preferenciais em mercados e ganharem os primeiros acentos em show e exposições: “Abram alas para os cidadãos de bem!. (E assim estende ao chão um tapete vermelho – vermelho de sangue dos bandidos do morro)

O conservadorismo está permeado de justificativas filosoficamente coerentes para suas atitudes e posturas claramente racistas e preconceituosas. Clamam cláusulas da constituição, citam versículos para defender a moral e bons costumes, mas se esquecem que o mundo prático é infinitamente distante do mundo idealizado pelo velho (e novo) testamento e pela constituição de 1988.

Quando um cidadão de bem defende pena de morte para bandidos, ou vociferam contra o modo humanitário como bandidos e criminosos são tratados pela trupe dos direitos humanos; eles não percebem – ou fingem que não percebem -, mas estão apoiando um genocídio etno-cultural. É fácil perceber como quando eles mencionam bandido, a imagem que lhes vêm em mente é de um homem negro/pardo, classe média-baixa (pobre), morador de periferia ou favela, pés descalços ou chinelo, bermuda velha/suja, camisa do flamengo/sem camisa e que aponta uma arma para um cidadão de bem indefeso.

Esse cenário descrito acima, essa representação, tão específica, não é a toa. Diariamente oscidadãos de bem são bombardeados nos noticiários com imagens de notícias que reforçam constantemente esse esteriótipo do bandido pobre favelado. Faz até parecer que a tendência à bandidagem é por culpa da cor ou condição social.

Existem sim, os favores de risco social que facilitam e até mesmo puxam os jovens da periferia e da favela para se aliarem ao tráfico ou outras facções criminosas: Difíceis condições de estudo, falta de oportunidades de emprego, coercitividade do meio em geral. Mas não é sobre isso que quero falar aqui, mas sobre a face oposta, o pseudo-puritanismo dos cidadãos de bem.

Trago em pauta um caso famoso da minha região natal, Vitória/ES. Araceli Cabrera Crespo, 9 anos incompletos, foi dopada com LSD, estuprada, violentada, dilacerada a dentadas e teve seus restos mortais desconfigurados com ácido, para dificultar a identificação.

Voltando um pouco a fita, no dia 18 de maio de 1973, Araceli saiu mais cedo da escola, a pedido da mãe, que escrevera um bilhete para a professora. A menina se dirigiu então a um edifício levando um envelope, que continha — sem que ela soubesse — drogas para ser entregues a um grupo de rapazes, filhos de famílias ricas e importantes da cidade e que eram conhecidos por seu gosto em realizar orgias regadas a narcóticos, álcool e sexo. Uma vez na mão dos rapazes, ela não teve escapatória.

Entre os líderes do grupo, citam-se dois nomes de famílias influentes da região, Paulo Constanteen Helal, o Paulinho, e Dante de Brito Michelini, o Dantinho. Burgueses, soberbos, mantinham apartamentos na região da cidade exclusivamente para fazerem suas festas noturnas agitadas e recheadas de narcóticos, orgias e ocasionais ultraviolências; como a do caso Araceli.

Depois de muito suborno, paitrocínios e tentativas de julgarem o caso. Os réus permanecem praticamente impunes, salvo um breve período de poucos meses que passaram na cadeia. É um caso emblemático de impunidade e cumplicidade das instituições do Estado para com a mórbida crueldade da high-society.

Outros diversos casos de rapazes de classe média alta que saem de madrugada com o carrão do papai, junto com mais três amigos marombeiros e aproveitam para espancar um mendigo ou uma empregada no ponto de ônibus, são algumas vezes noticiados. Mas qual será a verdadeira frequência de casos de criminalidade, brutalidade e violência que vêm dasclasses superiores e não das classes subalternas?

A justiça ainda julga sob diferente peso e medida um crime cometido por um milionário e o mesmo crime (em menor escala) cometido por um favelado. Enquanto esse parâmetro não for à justo e medida, haverão aqueles que acreditam que roubar e matar é coisa exclusiva de traficante do morro, mas ignoram a corrupção dos empresários e dos ladrões do colarinho branco – sensivelmente, infinitamente mais mortais e prejudiciais do que ladrões de galinha ou pão da padaria.

A teoria criminalística comprova: 99% dos crimes não são reportados ou noticiados. Todos os cidadãos haverão de infligir a lei, mais dia menos dia. Não existe atestado de bom mocismo. Não existe uma classe de indivíduos que sejam imunes à julgamentos criteriosos, nem mesmo que possuam índole inquestionável. O esforço para se manter justo deve ser diário, contínuo.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernando

janeiro 2 2015 Responder

Ou seja, quem defende pena de morte (eu defendo, desde que se guarde uma certa proporcionalidade) é certamente indulgente com crimes de playboys.

Cada uma…

Pergunta

dezembro 29 2014 Responder

Engraçado como tem gente que adora negar a realidade
Cometer crimes leves é bem diferente de ser um bandido.Baixar pirataria da internet, por exemplo, é bem diferente de matar uma pessoa
Parar em local proibido é bem diferente de estuprar uma pessoa.Enfim, existem crimes leves e existem crimes que violam a integridade fisica das pessoas.
Colocar no mesmo nível pessoas que violam leis leves com criminosos estupradores e assassinos é, no minimo, insanidade mental.

Ronaldo

dezembro 28 2014 Responder

O intelecto tem que estar acima da força e da opressão. Melhor ser um mártir do que matar. Melhor mostrar os absurdos cometidos pelos donos do saber e do poder que não sabem servir ao povo com sabedoria e humildade.

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