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Os mitos da meritocracia e da brasilidade a serviço dos privilégios no Brasil

fazdeconta-da-meritocracia

por Almir Albuquerque, do blog Panorâmica Social, adaptado

O senso comum é uma faca de dois gumes. Ele é importante no nosso dia a dia, para criar os códigos necessários para se viver em sociedade. Por exemplo, por causa dele, se você esticar o braço num ponto de ônibus o motorista vai entender que você pretende que ele pare. Se você balançar a sua mão espalmada, todos vão saber que está se despedindo.

Mas o senso comum tem um lado bem negativo também, que é o de fazer as pessoas terem ideias e opiniões sem refletir a respeito, apenas reproduzindo a ideologia dominante. Uma das maiores crenças irrefletidas que vingaram nas sociedades capitalistas – e que por isso, as pessoas aceitam como algo natural e verdadeiro – é o mito da meritocracia.

Acreditamos que o sucesso ou o fracasso são consequências diretas do esforço individual, ou da falta dele. Que todas as pessoas bem-sucedidas na vida chegaram lá porque batalharam muito para isso (“mérito”) e que qualquer pessoa, caso trabalhe duro e aceite as dificuldades da vida, também pode chegar lá.

Esse é o mito que fundou o capitalismo dos Estados Unidos, o “sonho americano”, mas que hoje em dia, já não chega mais a iludir ninguém – os movimentos sociais nunca foram tantos naquele país, justamente contestando essa falsa ideologia. Acho que os brasileiros estão começando a cair na real também, e por isso vários protestos nas ruas, e várias reações violentas dos privilegiados que tem suas posições ameaçadas.

O mito da meritocracia foi decisivamente desvendado pelo professor Jessé Souza no seu altamente recomendado livro “A Ralé Brasileira – quem é e como vive” (SOUZA, Jessé. A Ralé Brasileira – quem é e como vive. Ed. UFMG. Belo Horizonte, 2011). Ao focar o sucesso ou o fracasso no indivíduo, a sociedade brasileira comete a injustiça de ocultar as origens de classe que determinam, em grande medida, o quanto de facilidade e o quanto de dificuldade está reservado para nós. Mas não devemos pensar – e eis aqui a maior contribuição do autor para a discussão – que quando nos referimos a classe, estamos querendo dizer determinada faixa econômica.

Os filhos das classes-médias têm maior taxa de sucesso não porque seus pais transmitem algum tipo de herança financeira, um bem material ou uma empresa; mais do que isso: eles têm sucesso porque os pais transmitem valores imateriais e exemplos de conduta social que são valorizados pela sociedade. Por exemplo, como falar em público, como se comportar num clube social, como se vestir bem, evitar sexualidade precoce, ter algum grau de cultura…

Esses valores são difíceis de serem percebidos pela sociedade como determinantes para o indivíduo, porque além de serem imateriais, são transmitidos dentro de casa, com exemplos e o convívio diário. Isso é mais importante do que a herança material, e é o que determina o sucesso ou o fracasso, em grande medida, das pessoas em suas vidas. Nesse caso, a renda econômica que advém do  sucesso é a consequência, não a causa da desigualdade.

Ao focar o indivíduo e “esquecer” que a origem social determina o sucesso ou o fracasso, a sociedade ainda pode se auto-eximir de culpa pelo abandono de uma parcela enorme da população brasileira, que não possui essas ferramentas culturais adequadas para o sucesso. Afinal, se o mérito é individual, então os fracassados são os culpados pelo seu próprio fracasso, e não há nada que os governos poderiam ou deveriam fazer para corrigir isso.

A pessoa escolheu o caminho errado, seja por preguiça, incompetência ou falha de caráter, e ajudá-la seria incentivar o comodismo… (Quantas vezes já ouvimos isso? É a voz do senso comum atuando completamente)

 

Mito da brasilidade: ocultar as diferenças sob um falso senso de igualdade

Para piorar ainda mais o nosso modelo no Brasil, o mito da brasilidade transmite duas ideias prejudiciais a qualquer tipo de mudança desse quadro: a de que somos todos iguais, brasileiros felizes e abençoados – o que ajuda a ocultar as enormes e indecentes desigualdades sociais – e outra, talvez bem pior: o “horror ao conflito”. Afinal, somos um povo pacato e cordial, cristãos que pregam o amor e a ordem, nada de reivindicações, porque isso não é coisa nossa…

Quem quer que ouse lutar contra o Establishment, é logo tachado de desordeiro, terrorista, “vândalo”, ou algo que o valha (e tome senso comum). E isso teve como resultado séculos de conformismo e a ocultação de todos os conflitos sociais, seja de classe, de gênero ou de raça.

Não, não somos todos iguais, como quer fazer crer o mito da brasilidade. Nesse país, há privilegiados e abandonados, há poucos com muito e muitos com pouco. E não foi o mérito individual que determinou quem tem e quem não tem acesso aos bens culturais e materiais do país.

Esse é um mito dos mais perversos e que precisa ser desconstruído o mais rápido possível, se quisermos atacar na raiz os verdadeiros problemas históricos do país. Poderíamos todos começar não dando crédito a tudo o que escutamos por aí. Existem interesses ocultos em cada discurso, e temos que aprender a desvendá-los. Uma reflexão antes de emitir opinião não faz mal a ninguém.

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7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Rafael

junho 30 2016 Responder

O pobre para chegar há algum lugar terá de luta muito mais que um classe média, se disso porque PARA conseguir uma vaga em uma universidade tiver,que estuda por contra própria, aprendendo através da Internet, e eu sei que ainda terei que me esforçà e muito para conseguir trabalho na área.

Luana

janeiro 5 2015 Responder

Ah, como é bonitinho esse artigo, metendo pau na ‘meritocracia’! Mas SIM SENHOR, existe a meritocracia! Existem pessoas que, embora não tenham ficado ricas, conseguiram pelo menos sair da pobreza e criar certa estabilidade para si e para suas famílias. Eu sou uma delas. Meus irmãos, outros exemplos. Como eles conseguiram isso, “entre tantas desigualdades” e “conflitos sociais”? Conflito sociais sempre existiram e sempre existirão! Mas se nós ficássemos aí, chorando as pitangas, sem emprego e a espera da ‘generosidade da mãe-presidentA’ teríamos morrido de fome!!! De Estado e governo NUNCA esperamos nada!!! Nunca. E ficar culpando empresários ou os ‘a zelite branca’, ou maldizendo a sorte nunca levaria a gente a conseguir nada. Com esforço, comprando objetos usados, conversando, falando com vizinhos, conseguimos montar um pequeno bazar de roupas usadas. Foi assim, sabe… que, por MÉRITO, conseguimos sair do miserê.

Fernando

janeiro 2 2015 Responder

Um monte de falação sem sentido que não explica nada. No fim é só mais uma desculpa de se eximir da tarefa de ajudar os mais pobres e legitimar o ato de apontar armas pra cabeça dos outros pra obrigá-los a colaborar.

“As pessoas são tão egoístas: elas não querem que eu determine como elas tem de gastar o dinheiro delas.”

Ronaldo

dezembro 30 2014 Responder

Não posso ficar só na análise de um tópico isolado do todo (síntese). Sem desmerecer a importância da méritocracia, a cultura boa (imaterial) não devia ser imposta, mas, sim entendida, estudada, vivenciada e aperfeiçoada em profundidade por todos. Para isto, a iniciativa e o empenho tem que partir de ambos os lados (reciprocidade em todos aspectos). O problema são os interesses egocêntricos dos sanguesugas.

Pedro

dezembro 29 2014 Responder

Dentro da teoria que você defende, como explicar as pessoas que nasceram na pobreza e mesmo assim conseguiram prosperar? Ou as pessoas que, mesmo nascidas na riqueza e com todas as “facilidades” providas por uma educação privilegiada não souberam aproveitar as oportunidades e tornaram-se “fracassados” na vida adulta? Outra duvida: se eu sou pobre, não posso transmitir esses valores educacionais fundamentais que beneficiarão meu filho? Ou ainda, se eu sou rico, meu filho com certeza usufruirá dos “valores imateriais” e tem obrigação de ser bem sucedido, pois não existe família rica em bens materiais que seja “pobre de valores imateriais”?

    Tiago

    dezembro 30 2014 Responder

    Pedro, você conhece alguma coisa de estatística?
    Por que para cada pobre que deu sorte (por que esse é o termo) e ficou rico, há 10, 20, 30 que continuam na pobreza e que de lá jamais sairão sem ajuda.

    Veja bem, ninguém está falando em distribuir mansões e iates, mas sim em criar mecanismos que garantam que estas pessoas tenham um mínimo de dignidade, trabalhando e contribuindo para a sociedade. Enquanto que hoje nem isto elas tem.

    Por fim, essas lendas do “pobre que venceu na vida com esforço e dedicação”, quando vistas de perto geralmente não são tão românticas quanto o senso comum acredita. Ninguém fica rico só trabalhando, e isso é um axioma. Sorte, rede de contatos, lábia, falcatruas e risco possuem muito mais influencia no sucesso financeiro do que o trabalho.

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