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dez14

O “patriotismo” reacionário que pensa num “Brasil melhor” mas o torna(ria) pior
Fala-se muito de "melhorar o Brasil", mas as soluções dadas no meio reacionário só tendem a piorar os problemas existentes no país

Fala-se muito de “melhorar o Brasil”, mas as soluções dadas no meio reacionário só tendem a piorar os problemas existentes no país

Obs.: Este artigo não representa que seu autor seja “patriota” ou “nacionalista” e defenda a entidade “pátria”.

Os setores reacionários da população brasileira costumam dizer-se “defensores da pátria”. Não é à toa que, nas manifestações das quais alguns de seus integrantes participaram nos últimos anos – protestos de junho de 2013, “Marchas da Família” nos 50 anos do golpe militar, campanha eleitoral de Aécio Neves e manifestações pedindo a derrubada de Dilma Rousseff –, vestiam-se de verde e amarelo, empunhavam bandeiras brasileiras e cantavam o hino nacional com fervor. Mas não sabem que suas ações e discursos são venenosos e destrutivos para o próprio país que dizem defender.

Diversos são os pontos em que o discurso reacionário compromete, ao invés de ajudar, a integridade da sociedade – e, por tabela, da nação. Entre eles, destacam-se o trio saúde-educação-segurança, a moralização da política e o “desenvolvimento” socioeconômico.

 

Saúde, educação e segurança

Afirma-se bastante que esses três direitos-serviços são precários e mal mantidos no Brasil. Mas é difícil ver pessoas de pensamento reacionário propondo soluções que prezem pela profundidade, pela mudança estrutural e pela democratização. Pelo contrário, são comuns nessa parcela da direita as propostas paliativas, rasas e autoritárias, que ou não desprecarizam bem-sucedidamente os serviços criticados, ou “resolvem” um problema criando outros.

Na educação, uma das “soluções” defendidas tem sido a militarização do ensino básico. Um projeto de conversão de algumas escolas públicas civis em militares foi aplicado em Goiás em 2014, tendo a administração delas passado para a Polícia Militar daquele estado.

Os comentários da notícia em questão exemplificam o que o reacionarismo conservador pensa sobre a educação “ideal”: algo carregado de imposição violenta de autoridade, disciplinamento estrito, espaço muito reduzido para liberdades individuais, instrução para a submissão e obediência, ordem mantida sob uma constante ameaça de violência por parte da instituição, ausência de democracia, esmagamento dos valores culturais trazidos de fora.

Em resumo, muitos dos reacionários querem uma escola autoritária, que sane através de medidas “mão de ferro” problemas como infraestrutura precária, violência entre alunos e de estudantes contra professores e falta de recursos. Não se importam se isso ocasionar problemas “novos”, como repressão contra a cultura jovem das periferias e da classe média, formação de uma sociedade autoritária e pouco afeita à liberdade e à democracia, sujeição das pessoas à lógica de abrir mão da liberdade em troca de segurança, naturalização da hierarquia e da opressão, uso da violência em detrimento do diálogo como meio de educação moral etc.

Dessa proposta de ensino antidemocrático e militarizado, puxa-se o gancho para o que se costuma pensar sobre o que seria a “segurança pública ideal”. É costume defenderem uma polícia que imponha a ordem com autoritarismo e violência linha-dura e, para isso, não se importe em violar os Direitos Humanos, os princípios democráticos da Constituição Federal e as liberdades individuais.

Desconhecem que isso não só falha em diminuir significativamente os índices de violência e fomentar uma cultura de paz, como também engrossa outros tipos de violência criminosa: a violência policial contra inocentes, o abuso de poder contra criminosos já subjugados pela execução da lei e o aumento de assassinatos e outros crimes nos bairros mais pobres.

A saúde, por sua vez, também não vê discussões de soluções consistentes entre quem defende o autoritarismo e a aplicação de medidas não profundas. Paralelamente, há casos em que providências governamentais que sanem problemas emergenciais são rechaçadas por ranço ideológico, como o Mais Médicos do governo Dilma, acusado de “favorecer o ‘comunismo’ cubano”.

Evidencia-se, com essas questões, que a tendência do reacionarismo é fazer os três direitos-serviços permanecerem funcionando de maneira problemática, com autoritarismo, violência e ausência de soluções profundas e estruturais. Assim sendo, o “país melhor que valoriza a saúde, a educação e a segurança” não virá daquelas discussões que estejam viciadas pelas emoções reacionárias.

 

Política: corrupção, democracia e governo pelo bem comum

Algo também muito comum é dizer que “melhorar o Brasil” passa por moralizar sua política. Critica-se muito que o Brasil é um país “ruim” por causa da corrupção e da não priorização do interesse público pela Administração Pública e pelos parlamentares e governantes. Mas as providências sugeridas pelo reacionarismo tendem não só a manter as coisas como estão, mas também a agravar os problemas vigentes.

Assim como na educação e na segurança, são comuns as sugestões autoritárias para tentar tornar a política brasileira menos “suja” e mais zelosa ao coletivo. Entre elas, estão a pena de morte contra políticos condenados por corrupção, o fechamento do Congresso Nacional, a expulsão do PT dos poderes executivo e legislativo e, em muitos casos, um golpe militar que derrube esse partido e, ou convoque novas eleições, ou ponha um novo regime ditatorial militar no poder.

Acredita-se poder solucionar com autoritarismo e sacrifício da democracia problemas que
existem graças às raízes autoritárias da história política brasileira. Desconhecem que, sem o mínimo de democracia e garantia dos direitos e da agência política popular inerentes à cidadania, não há condições para a população governada cobrar transparência do poder público e fiscalizá-lo.

E sem fiscalização, demanda e cobrança, políticos antidemocratas não hesitarão em promover seus desmandos e abusos por trás das cortinas da intransparência autoritária. Aumentar o autoritarismo só tenderá a piorar o problema.

O mesmo pode ser falado das demandas para que o Estado federal governe para a população – investindo em educação, saúde, habitação, meio ambiente, segurança, economia, revitalização dos serviços públicos etc. As “providências” autoritárias tenderiam a concretizar uma realidade na qual essas exigências seriam caladas à força, sob a mira das armas militares da polícia e das forças armadas.

Na realidade não democrática ensejada por quem pede por medidas como golpe militar e fechamento do Poder Legislativo, o Poder Executivo investiria nas áreas que ele bem quisesse, independentemente das necessidades da população. E quem se queixasse dos investimentos desconectados da realidade, seria reprimido e silenciado com prisão, tortura, morte ou exílio forçado.

Ou seja, pedir para que a política e a Administração Pública sejam “disciplinadas” com mão de ferro é pedir que a situação de desmando, corrupção e desleixo para com o interesse público não só continue, como também se torne protegida pela falta de democracia.

 

“Desenvolvimento” econômico

Fala-se muito que um Brasil em constante “desenvolvimento” daria orgulho a seus habitantes. Ainda pensa-se muito baseado na ideologia de desenvolvimentismo capitalista do século 20, segundo a qual “progresso é tudo” e valeria fazer a economia crescer constante e ininterruptamente em termos numéricos.

Mas o modelo de “desenvolvimento” defendido no meio conservador-reacionário é algo que, como a realidade já mostrou, pisoteia os direitos da maioria das pessoas – incluindo os Direitos Humanos –, destrói o meio ambiente e concentra renda. Autoritário e concentrador de renda e poder, dificulta e até ameaça a sobrevivência de quem deveria se beneficiar do crescimento do “Brasil potência” idealizado por quem ainda pensa como se estivesse no século 20.

Pode multiplicar os números das estatísticas econômicas como o PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas do país), seu crescimento, entrada de capital estrangeiro, lucros das grandes empresas etc., mas sacrifica a integridade de milhões de pessoas. Não torna o Brasil um lugar melhor de se viver, nem uma nação que orgulhe os patriotas. É um “desenvolvimento” que “desenvolve” só algumas pessoas enquanto estagna a situação socioeconômica de muitas outras.

Isso se viu na ditadura civil-militar e continuou no período da redemocratização. A bandeira do “desenvolvimento” foi usada para promover arrocho salarial contra os trabalhadores; destruir grandes extensões de ecossistemas como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica; fazer crescer empresas sustentadas na exploração trabalhista e na negação parcial ou total dos direitos dos seus funcionários; fixar milhões de brasileiros em trabalhos precários e empregos mal remunerados; exterminar povos indígenas; expulsar quilombolas e comunidades ribeirinhas de suas terras; entre outras tantas consequências destrutivas.

Apesar de tudo isso, não se vê as pessoas de mentalidade reacionária questionarem esse modelo de crescimento econômico. Pelo contrário, é comum ver muitas delas defendendo sua perpetuação. Em muitos casos, aliás, desejam a sua radicalização, com a transformação de direitos em privilégios ou “prêmios” a serem obtidos com “trabalho duro”.

Parecem não ter aprendido com as lições do século 20, quando o “desenvolvimento” orientado por políticas de direita retrocedeu a situação da maioria enquanto engordou as riquezas de uma minoria e vulnerou a economia do país crises internacionais.

Esse problema se soma aos demais, que mostram que a proposta de país defendida pelos reacionários que se dizem “patriotas” tende a afundar o Brasil e torná-lo uma nação ainda mais “vergonhosa” do que já é hoje considerada. Sonham com um país autoritário que não consegue moralizar a política, elevar à excelência o trio educação-saúde-segurança) e promover desenvolvimento social.

Tudo o que essa nação “dos sonhos” do reacionarismo conseguiria seria eliminar a democracia e a cidadania de sua política e sociedade, jogar seus problemas estruturais para baixo do tapete, substituir a precariedade pela falta de liberdade e “des-desenvolver” social e economicamente a maioria da população. Seu “patriotismo”, assim sendo, atenta contra o próprio país que dizem defender.

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1 comentário(s). Venha deixar o seu também.

jessamine david ruas

março 15 2015 Responder

Prezado, tenho uma visão um pouco diferente da situação atual. Talvez por ser de uma geração anterior à sua ou talvez por trabalhar há bastante tempo na Administração Pública. O que vejo hoje que as pessoas estão insatisfeitas. Não vejo como uma tentativa de acabar com a democracia. Talvez apareça algumas pessoas tentando colocar à frente dos holofontes e pessoas não muito legais. Mas a maioria das pessoas querem sim que se conserte o que está errado. Eu trabalho no serviço público e quando você da área inferior faz algo errado você é demitido a bem do serviço público e responde em processo por isso. Uma das insatisfações que vejo hoje é que o Governo deveria ter imediatamente exonerado as pessoas que estavam envolvidas nos escândalos atuais para bem da própria administração e do governo. Isto deveria ter sido feito desde do princípio mesmo que seja aliado. Não acho justo também que o Governo construa portos em outros países sem que os nossos continuam em precariedade. Para te fizer a verdade não sou partidária de desnudar um santo para vestir outro. Eu acho que temos que repensar nossos votos. O brasileiro precisa deixar a política de levar vantagem em tudo. Não podemos colocar pobres e ricos um contra outro e sim juntos fazer uma nação. Não sei se você já teve a oportunidade de ver no interior mesmo do país como a coisa funciona. No interior é que você vê os políticos sangue sugas de todos os partidos(todos eles) e os eleitores que sempre deixam isto acontecer. Não somos um país de primeiro mundo como alguns políticos querem mostrar. Nem um dos dois lados fez nada a respeito da educação, saúde e segurança. Mudou–se os lados mas os políticos continuam querendo que as pessoas continuam sem acesso a educação para serem mais fáceis de serem embromadas. Os governos passados não fizeram nada pelo Meio Ambiente e o atual tambpem não. Você acha correto se colocar uma Kátia Abreu no Ministério da Agricultura? Já não temos uma cultura pró-Meio Ambiente mas colocar esta Senhora neste ministério foi uma idéia infeliz. Devemos buscar nosso próprio caminho sem espelhar nem nos americanos e nem nos cubanos.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo