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jan15

O mito da competitividade (como valor “bom”)

subam-na-arvore

por Antonio Inácio Andrioli

Um dos aspectos mais marcantes do atual contexto social é a exacerbada competição que aparece impregnada nas relações humanas. Embora essa tenha sido uma característica também de outros tempos, podemos notar que a sua presença é tão forte em muitos espaços da nossa vida como nos parece ser a intenção de desenvolvê-la na consciência das pessoas.

A competitividade ou livre concorrência é um dos princípios da economia liberal e teve como principais defensores Adam Smith e David Ricardo. Segundo Smith, procurando apenas um ganho pessoal, a pessoa trabalha, coincidentemente, para elevar ao máximo possível a renda anual da sociedade. Por uma mão invisível a pessoa estaria sendo misteriosamente levada a executar um objetivo que jamais fez parte das suas intenções. E, buscando apenas seu interesse exclusivo, a pessoa muitas vezes trabalharia de modo bem mais eficaz pelo interesse da sociedade do que se tivesse de fato esta intenção. Podemos notar que a idéia básica da livre concorrência é a fé depositada na idéia de que as pessoas, uma vez competindo entre si, automaticamente estariam contribuindo para o progresso geral da sociedade.

No entanto, o que se observou na história é que a livre concorrência eliminou a si mesma, constituindo monopólios e oligopólios privados e, com o advento do neoliberalismo, o Estado passou a ser um instrumento estimulador da competitividade. “Veremos, assim, que, a concorrência matando a concorrência, precisou constituir-se um neoliberalismo para salvar a idéia de liberdade econômica (…) Enquanto o liberalismo clássico pedia que o Estado não interferisse, para que a concorrência pudesse produzir todos os seus bons efeitos, o neoliberalismo pede ao Estado que se mexa para assegurar que a concorrência possa existir”. (SALLEROUN, 1979: 48). Nesse sentido, podemos afirmar que existe uma intenção clara, a nível de ideologia política, de promover a idéia da competição como intrinsecamente positiva para a humanidade, que deixa de ser apenas um conceito na economia para fazer parte do imaginário social das pessoas.

Muitas são as manifestações da idéia de competição em nosso meio social. Ela está presente desde a “preparação” das crianças, pelos pais, para “vencer na vida”; nas brincadeiras e jogos competitivos onde “o importante é competir” para que haja “graça”; em festivais, gincanas, concursos, programas de televisão (Big Brother) e em todas as atividades que pressupõem a seleção de alguns para a necessária exclusão de outros; chegando, finalmente, ao mundo competitivo do trabalho e ao conjunto das relações sociais onde o que importa é ser um “vencedor”, para demonstrar “competência” e afirmação diante dos outros. Como afirma José Ignácio Rey, “ao valorizar a competição, ao levantá-la como bandeira, o homem vê o outro como seu inimigo (…) e quando há um ganhador, o mais forte, surgem irremediavelmente a marginalidade e a opressão”.[1]

Cabe aqui perguntar: por que as pessoas aceitam desafios competitivos se neles já está inerente sua lógica excludente? Exemplificando: se numa corrida onde há dez atletas competindo e já está dado como certo que apenas um sairá vencedor, por que os dez continuam correndo? A razão é que cada um dos dez atletas imagina ser, individualmente, o vencedor. Mas, e o que acontecerá com os demais, que são a maioria? Isso parece que não importa, já que não teriam sido “capazes” para vencer.

É evidente que essa lógica competitiva, que divide o mundo em vencedores e perdedores (onde a minoria vence e o restante perde), cria situações de angústia e revolta nos excluídos. A violência que aumenta assustadoramente na sociedade e passa a atingir fortemente as escolas, deve ter relação com o sentimento de exclusão que atinge a maioria das pessoas do planeta. Como encontrar alternativas de solução para isso? Entendemos que o primeiro passo é perceber como a competição está presente em nosso cotidiano, para conseguirmos refletir sua problemática. Num segundo momento, é necessário nos contrapormos à ela, construindo um novo jeito de viver e de se relacionar com os outros.

Nosso desafio é encontrar meios efetivos de enfrentamento à ideologia liberal e a conseqüente exclusão de seres humanos da possibilidade de terem uma vida digna. A nossa opção em aceitar o que fatalisticamente é apresentado ou em modificar estruturas opressoras implica em assumir, de forma responsável, as suas conseqüências. Conforme o sociólogo Alfie Kohn, citado por BROWN:” Trata-se de ir para além de um ponto de vista individual. Mesmo que me pareça apropriada a competição…necessito perguntar-me se é do nosso interesse coletivo seguir competindo. Se não é assim, então precisamos não apenas pensar, mas também agir como grupo. Substituir a competição estrutural pela cooperação exige a ação coletiva, e essa ação coletiva requer a educação e a organização… Temos que ajudar os outros a verem as terríveis conseqüências de um sistema que identifica o êxito de um no fracasso de outro. Mas juntos podemos agir para transformar isso”. (BROWN, 1994: 21).

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