09

fev15

A ciência por trás do debate sobre o desarmamento civil

desarmamento

por Carlos Orsi, publicado no site da revista Galileu

O debate sobre o desarmamento civil – que trata, bem resumidamente, de se o cidadão comum deve ou não ter acesso a armas de fogo – é um daqueles que parece não se resolver nunca. Isso acontece, imagino, porque na verdade há duas questões imbricadas aí: uma, de princípio e outra, prática.

A questão de princípio é filosófica, e envolve determinar se existe alguma espécie de direito fundamental à posse de arma e, por extensão, se o governo tem legitimidade para restringir ou proibir isso. Já a questão prática é se a posse de armas por civis aumenta ou reduz a segurança dos cidadãos em geral.

Não vou tratar do lado filosófico do problema aqui, já que sua resolução envolve muito mais convicções pessoais e valores subjetivos do que fatos e números, mas o lado prático é um onde a ciência tem bastante a dizer.

Os defensores da noção de que uma população armada é uma população mais segura argumentam que uma pessoa “de bem”, armada e presente à cena de um crime, tem a oportunidade de evitá-lo, ou ao menos de apreender seu autor até que as autoridades cheguem. Já os detratores da ideia afirmam que um cidadão comum armado tem muito mais chance de esquecer a arma ao alcance de uma criança, de usá-la na própria cabeça ou de matar alguém numa briga besta do que de dar a “sorte” de encontrar um terrorista a caminho de seu próximo alvo.

Confesso que o argumento prático da facção pró-armas sempre me pareceu muito mais uma fantasia juvenil de fãs do Bruce Willis do que algo plausível. Mas isso é só uma impressão, que pode ser desmontada por fatos e estatísticas. Felizmente para nós aqui no Terceiro Mundo, existe um grande experimento social a respeito de posse e porte de armas, com diferentes populações humanas submetidas a diferentes sistemas de regras, tudo sob constante escrutínio e análise.

Esse experimento chama-se Estados Unidos da América, onde a Constituição garante o direito de possuir armas de fogo, mas a regulamentação específica – e a popularidade das armas – varia de Estado para Estado. Semana passada, a revista “Slate” publicou uma longa reportagem que analisa vários estudos científicos existentes a respeito do impacto social do porte de armas, intitulado “The Myth of the Good Guy with a Gun” (“O Mito do Bom Sujeito com uma Arma”).

O título não deixa muita dúvida sobre o que dizem os dados: a ideia de que um “bom sujeito” armado aumenta a segurança geral da população é um “mito”. Entre as evidências levantadas, está um relatório estatístico do FBI que mostra que o total de homicídios cometidos em desentendimentos – como brigas de trânsito, discussões de família, brigas de bar – é o dobro do número de homicídios cometidos como parte de outro crime (assalto, estupro, roubo de carro, etc.). Conclusão: por mais paradoxal que possa parecer, “pessoas de bem” emocionalmente alteradas tiram muito mais vidas do que os tais “bandidos” de quem as armas deveriam nos proteger.

Outro trabalho levado em conta é um estudo, publicado ano passado no “American Journal of Public Health”, que encontrou uma forte correlação estatística entre possuir arma e o risco de matar uma pessoa conhecida – e nenhuma correlação entre possuir arma e o risco de matar um desconhecido. O que sugere que as armas em poder de “gente de bem” são muito mais usadas, de modo consistente, contra parentes e amigos (isto é, conhecidos do dono do armamento) do que contra assaltantes (gente que o dono da arma, provavelmente, nunca viu antes).

É certo que existem inúmeros casos reais de cidadãos comuns que salvaram vidas porque tinham uma arma à mão, mas as pesquisas apontam que esses casos são uma minúscula minoria. O que os números mostram é que um cidadão que adquire uma arma tem, de fato, muito mais chance de usá-la, caso um dia a use, para fazer algo de que vai se arrepender depois do que para proteger um ente querido ou a sociedade.

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