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fev15

Desigualdade de oportunidade é influenciada pelo bairro onde o indivíduo nasce e cresce

meritocracia

Um estudo dos estadunidenses Douglas Massey, da Universidade de Princeton, e Jonathan Rothwell, do Instituto Brookings coloca água suja no chope dos crentes no capitalismo meritocrático. Segundo ele, o indivíduo que nasce e passa seus primeiros 16 anos de vida num bairro pobre tem muito menos chances de “subir e vencer na vida” do que alguém que nasce e cresce num bairro rico ou de classe média-alta. E nem se mudando do bairro pobre para um de maior poder aquisitivo médio, a pessoa adquire chances mais significativas de ascensão social.

A pesquisa deixa claro que esses primeiros 16 anos de vida num bairro pobre inibem o indivíduo de ascender socialmente nas várias décadas seguintes, em praticamente toda a sua vida adulta pré-idosa. Segundo a BBC Brasil, em matéria reproduzida pelo UOL:

“O bairro é o ponto crítico onde se bloqueiam as aspirações das pessoas para subir na vida”, disse Massey à BBC.

Para ele, as experiências vividas no local de nascimento também são uma herança da qual é difícil escapar.

“Os bairros pobres tendem a ter taxas mais altas de desordem social, crime e violência. As pesquisas mostram cada vez mais que a exposição a este tipo de violência não tem somente efeitos de curto prazo, mas também de longo prazo na saúde e na capacidade cognitiva de seus habitantes”, afirma o pesquisador.

“Esses efeitos não se apagam quando as pessoas crescem.”

A vida nos bairros mais carentes implica frequentar escolas de má qualidade, ficar mais longe das oportunidades de trabalho e mais perto dos focos de violência de nossas cidades.

Segundo o estudo de Massey e Rothwell, um americano deixa de ganhar, em média, cerca de US$ 900 mil, ao longo de sua vida se vive em um bairro pobre, comparado com o que recebe uma pessoa de um bairro de classe alta.

Segundo os pesquisadores, a tendência é que esse valor aumente.

“À medida em que a distribuição de renda fica mais desigual, ocorre o mesmo com a distribuição dos bairros. A concentração da riqueza e da pobreza aumentou. Os bairros pobres se tornaram mais pobres e ficou mais difícil escapar do status socioeconômico da pobreza”, afirma Massey.

Uma solução possível para que mais indivíduos tenham chances maiores de ascensão social, segundo Douglas Massey, é “ajudar as pessoas a se mudar de regiões de muita pobreza para áreas de classe média e alta, onde tenham acesso às vantagens que as comunidades mais abastadas oferecem”. Isso implicaria também construir habitações para famílias de baixa renda nesses bairros – para horror de reacionários endinheirados que têm ódio contra pobres.

Massey ressalta, sobre a situação de mobilidade social restrita nos Estados Unidos:

“Os americanos não gostam de admitir, mas a classe social está se tornando uma prisão para as pessoas porque os bairros determinam nossa sorte. Nossa taxa de mobilidade social está ficando para trás em relação à de outros países industrializados”, explica Massey.

“Nos Estados Unidos gostamos de pensar que qualquer pessoa pode ir para onde quiser com base apenas em seus talentos e habilidades. Mas isso é cada vez menos o que acontece. O talento e a habilidade se contraem quando as pessoas estão presas em ambientes segregados.”

Essa situação pode muito bem ser vista no Brasil, onde é perceptível historicamente uma situação de múltiplos privilégios para quem nasce e cresce em bairros de classe média a alta – excluindo-se favelas encravadas dentro dos limites territoriais desses bairros.

Isso mostra que, mesmo que se queira construir uma “legítima meritocracia” capitalista, será necessária previamente uma pesada intervenção equitativa do Estado no status quo vigente. Diminuir os poderes sociais e econômicos do Estado num contexto em que há nítida distinção entre privilegiados e prejudicados de nascença só tenderia a favorecer a piora, não a autorregulação progressista, dessa estratificação hierárquica de quem tem mais ou menos oportunidades de “vencer na vida”.

Em outras palavras, uma sociedade liberal-conservadora com “menos Estado” nunca se tornará meritocrática, tampouco democrática. Evidenciado pelo estudo de Massey e Rothwell, isso rechaça, para não dizer que refuta, a crença também liberal-conservadora de que hoje, “graças ao capitalismo”, a vontade e o esforço individuais são os principais determinantes do sucesso que a pessoa poderá ter em ascender de classe socioeconômica.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Alexsandro

fevereiro 11 2015 Responder

Curiosamente, após 12 anos de governo proletário (que fica com a maior parte dos recursos e portanto não pode usar da falácia de que educação básica é responsabilidade exclusiva de municípios) a educação básica continua uma lixo. Daí, os fieis ao governo proletário preferem culpar os pais que se esforçaram para livrar o filho do lixo que é a educação estatal!!!

Alex

fevereiro 5 2015 Responder

Eu acreditaria nessas pesquisas se não conhecesse a minha mãe:

Ela nasceu e morou até os 18 anos na roça, em um minúsculo município do Estado do Tocantins chamado Xambioá (ela nem morava na sede do município). Filha de agricultores analfabetos, ela tinha tudo pra ser pobre e viver a vida inteira por lá, mas não aceitou esse destino. Ela conta como acordava de madrugada, andava cerca de 8 km a pé pra chegar na escola em Xambioá, estudava a manhã toda e depois voltava andando pra casa, só almoçava lá pelas 14 horas e depois ainda ajudava em casa.

Depois que terminou a 8a série (atual 9º ano), ela foi morar com sua avó em Xambioá, fez o Ensino Médio lá e arrumou emprego, não parou de estudar nunca (nem depois de se casar), e hoje tem pós-graduação, passou em 2 concursos bons no Estado do Tocantins e é aposentada ganhando cerca de 8 mil por mês – sem nunca precisar de indicação/ajuda de político.

Por isso eu digo, hoje não importa se você é pobre, negro ou mora em um lugar ruim etc. É só você estudar, e estudar muito, que o governo ajuda. Hoje eles recebem ônibus pra quem mora longe, cadernos, livros, e ainda tem cota pra quem estudou em escola pública. O problema é só os alunos se interessarem e não ficarem dando desculpa.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 5 2015 Responder

    Infelizmente, Alex, o argumento do exemplo próprio (ou de pessoa próxima) é um misto de falácia de evidência-anedota com inversão do acidente (tratar exceção como se fosse a regra).

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