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Exposição de fotos sobre médico paulistano em estação de trem de São Paulo exemplifica “história contada pelos vencedores”

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Quando estive em São Paulo recentemente, entre dezembro e janeiro passados, vi, na estação Dom Bosco da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), uma exposição de fotos sobre como o médico Arnaldo Vieira de Carvalho atuou como pioneiro em São Paulo e foi personalidade-chave na fundação da atual Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Olhando as fotos, vi como estava sendo ali contada a história contada pelos vencedores, hegemonizada por homens brancos ricos.

Nessa “história dos vencedores”, não havia nada de problemático e questionável ver quase que somente homens brancos endinheirados, só ocasionalmente tendo o espaço dividido com uma ou duas mulheres brancas, protagonizando esse pedaço da história da medicina em São Paulo. Mulheres (principalmente negras), negros e pessoas da classe trabalhadora eram relegadxs a “desprezíveis” figurantes.

É possível ver essa desigualdade de gênero, raça e classe na maioria das fotos da exposição – que não sei se ainda está lá na estação. Abaixo estão as fotos que registrei – em qualidade não tão boa por terem sido tiradas de um celular. Clique em cada imagem para vê-la em tamanho completo:

Homens brancos, alguns aparentemente imigrantes ou filhos de imigrantes do Oriente Médio, mais uma única mulher. Negros estão ausentes e a mulher é minoritária

Homens brancos, alguns aparentemente imigrantes ou filhos de imigrantes do Oriente Médio, mais uma única mulher. Negros estão ausentes e a mulher é minoritária

Chama a atenção o grande número de homens brancos e a escassez de homens negros e mulheres nas quatro fotos

Chama a atenção o grande número de homens brancos ricos (segundo se pode perceber pelo vestuário) e a escassez de homens negros e mulheres nas quatro fotos

Idem da foto anterior

Idem da foto anterior

A São Paulo em construção industrializante do começo do século 20 é exaltada. Nenhuma menção é feita à cultura de racismo da época. Os imigrantes são mencionados e uma foto deles é mostrada, mas não é dito se eles sofriam com xenofobia racista. Percebe-se, nesse registro, a tradição do conservadorismo paulista de exaltar o progresso e elogiar os imigrantes que fizeram parte da construção de São Paulo, mas excluir dessa consideração moral-histórica os retirantes nordestinos e nortistas negros que também contribuíram para o crescimento da cidade

A São Paulo em construção industrializante do começo do século 20 é exaltada. Nenhuma menção é feita à cultura de racismo da época. Os imigrantes são mencionados e uma foto deles é mostrada, mas não é dito se eles sofriam com xenofobia racista. Percebe-se, nesse registro, a tradição do conservadorismo paulista de exaltar o progresso industrialista e elogiar os imigrantes estrangeiros e descendentes que fizeram parte da construção de São Paulo, mas excluir dessa consideração moral-histórica os retirantes nordestinos e nortistas negros ou caboclos que também contribuíram para o crescimento da cidade

Os trabalhadores negros enfim são fotografados. Mas sempre de longe, como figurantes do crescimento de São Paulo, desprovidos de identidade e individualidade. Como pessoas sem rosto, tal como máquinas distribuídas numa fábrica. E isso não é problematizado na exposição

Os trabalhadores negros enfim são fotografados. Mas sempre de longe, como meros figurantes do crescimento de São Paulo, como se não tivessem identidade e individualidade. Como pessoas sem rosto, tal como máquinas distribuídas numa fábrica. E isso não é problematizado na exposição

Close da imagem anterior na primeira foto, realçando como trabalhadores negros, fotografados a uma notável distância, são tratados pelo fotógrafo como seres sem "alma", sem identidade, muito diferentemente dos brancos nativos e dos imigrantes das demais fotos, que posavam juntos e facilmente reconhecíveis

Close da imagem anterior na primeira foto, realçando como trabalhadores negros, fotografados a uma notável distância, são tratados pelo fotógrafo como seres sem “alma”, sem identidade, muito diferentemente dos brancos nativos e dos imigrantes das demais fotos, que posavam juntos e facilmente reconhecíveis

Alunxs da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Entre tantos homens brancos vestidos "a rigor", apenas duas mulheres, à esquerda daquele que acredito ser o único negro da foto

Alunxs da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Entre tantos homens brancos vestidos “a rigor”, apenas duas mulheres, à esquerda daquele que acredito ser o único negro da foto

Caricaturas dos médicos da época. Equipamentos bizarros e presença apenas de homens brancos, exceto pela mulher na maca do "açougueiro"

Caricaturas dos médicos da época. Equipamentos bizarros e presença apenas de homens brancos, exceto pela mulher (branca) na maca do “açougueiro”

Formandos de 1936. Todos homens brancos. Ausência total de homens negros e de mulheres. Porém isso não é nem de longe discutido na mostra de fotos

Formandos de 1936. Todos homens brancos. Ausência total de homens negros e de mulheres. Porém isso não é nem de longe discutido na mostra de fotos

As raízes masculinas-brancas-elitistas da USP, muito nítidas nessa foto

As raízes masculinas-brancas-elitistas da USP, muito nítidas nessa foto

Novamente os trabalhadores negros, vários deles presumivelmente de origem norte-nordestina, são fotografados de longe, sem pose, sem suas identidades reveladas. Além disso, o uso de tração animal é mencionado, evidentemente sem mencionar nenhuma problematização atual ou à época sobre a exploração animal

Novamente os trabalhadores negros, vários deles presumivelmente de origem norte-nordestina, são fotografados de longe, sem pose, sem suas identidades reveladas. Além disso, o uso de tração animal é mencionado, evidentemente sem mencionar nenhuma problematização atual ou à época sobre a exploração animal ou suas consequências de sofrimento para os não humanos

Enquanto os trabalhadores negros são fotografados de longe, trabalhando, os integrantes da comissão de obras da Faculdade de Medicina, homens brancos vestidos como elite, são fotografados em pose, valorizando-se a identidade e individualidade de cada um deles

Enquanto os trabalhadores negros são fotografados de longe, trabalhando, os integrantes da comissão de obras da Faculdade de Medicina, homens brancos vestidos como elite, comandantes dos “peões”, são fotografados em pose, valorizando-se a identidade e individualidade de cada um deles

A foto exemplifica a hiper valorização dos militares como "homens (sic) da História", mesmo tendo eles, no caso da Guerra Civil de 1932, servido fundamentalmente a interesses da elite agrária paulista, em contraste com a marginalização dos trabalhadores e trabalhadoras nas fotos. É como se um militar de alta patente tivesse vinte vezes mais valor como sujeito moral do que uma mulher trabalhadora ou um homem negro trabalhador

A foto exemplifica a hiper valorização dos militares como “homens (sic) da História”, mesmo tendo eles, no caso da Guerra Civil de 1932, servido fundamentalmente a interesses da elite agrária paulista, em contraste com a marginalização dos trabalhadores e trabalhadoras nas fotos. É como se um militar branco de alta patente tivesse vinte vezes mais valor como sujeito moral do que uma mulher branca ou um homem negro trabalhador, e cinquenta ou mais vezes mais valor do que uma mulher negra trabalhadora

Vale ressaltar, além do mais, a ausência completa de mulheres negras nas fotos. Se homens negros, retirantes do Nordeste e do Norte e/ou descendentes de pessoas escravizadas, são sempre retratados de longe, sem pose e enquanto estão trabalhando em funções subalternas, as mulheres negras são completamente invisibilizadas, como se não existissem, não fossem atuantes na sociedade em que viviam.

Como agravante, em nenhum momento a exposição fez uma abordagem problematizadora da realidade de desigualdades social, racial e de gênero da época. Contou-se a história da origem da FMUSP sem que fosse levado em conta o contexto de cultura de racismo, machismo e elitismo vigente na época, nem como essas raízes de opressão podem ter rendido frutos perniciosos até hoje no ensino superior público de São Paulo e na comunidade médica do estado e do Brasil como um todo.

Tampouco é contado como havia mulheres e homens negrxs promovendo resistência social-racial na época, inclusive talvez dentro da própria Faculdade de Medicina. A história das pessoas negras e dos eventuais papéis não subalternos assumidos por elas é invisibilizada e desvalorizada na mostra de fotos.

Em outras palavras, para os organizadores da exposição, não havia “nada de errado” em “enxergar o mundo” como se só existissem homens brancos ricos como agentes da história de São Paulo e mulheres (brancas e sobretudo negras) e homens negros fossem meras coisas, seres “neoescravizados”, a serviço desses agentes.

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Alexsandro

fevereiro 11 2015 Responder

Procurei negros entre os ministros da Dilma. Só achei uma. Isso décadas após a fotos que indignaram o Sr. Robson. Mas contra o governo “proletário” (só no nome visto que saques aos cofres públicos transformaram tais proletários em seres riquíssimos) ele não reclama. Esquerdistas……… Sempre seletivos!

Respeito

fevereiro 6 2015 Responder

O nível da argumentação desse texto é esse:
“A neve é branca, logo ela é racista!!!!”

O queria que os organizadores fizessem o que? Voltassem no tempo e resolvessem a escravidão / problemas sociais da época? Voltassem no tmepoe tirassem outras fotos? Deixassem de exibir as fotos ?

Essas são as fotos da época e fazem parte da história de uma das maiores universidades de medicina do Brasil e você ao invés de exaltar isso, fica acusando os organizadores de preconceituosos.

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