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fev15

Por que o reacionarismo é um dos principais problemas sociopolíticos do Brasil
Esta imagem exemplifica por que o reacionarismo pode ser considerado um dos mais graves problemas políticos do Brasil

Esta imagem exemplifica por que o reacionarismo pode ser considerado um dos mais graves problemas políticos do Brasil

Considerando-se seus efeitos perversos de piora de diversos problemas sociais, econômicos e políticos e seu potencial de causar graves prejuízos à democracia e à disposição de direitos, o reacionarismo sociopolítico pode ser considerado um dos mais graves problemas de ordem sociopolítica do Brasil. Tem servido como agente provocador, ou fator agravante, de muitos dos flagelos históricos que tornam o país um lugar tão criticável.

Não é exagero pensar que o reacionarismo está imbuído nas raízes históricas clássicas e contemporâneas da corrupção ético-política, da miséria que castiga milhões de brasileiros, das desigualdades sociais exacerbadas, do governar para poucos, das discriminações e violências contra minorias políticas, da criminalidade civil e policial, do clima de guerra e agressão nas discussões políticas etc. Se não são originados de posturas ou opiniões reacionárias, esses problemas são estimulados e piorados por elas.

Há três fatores principais que justificam essa responsabilidade da convicção política reacionária: a manutenção do debate político num estado imaturo, violento e quase infrutífero; a hostilidade à democracia e a proposição de “soluções” que tendem a apenas criar problemas novos e piorar os já existentes.

 

O reacionarismo aprisiona o debate político na imaturidade e no clima de hostilidade violenta

Não é preciso pesquisar muito para perceber como as manifestações reacionárias estão atrasando e puxando para um radicalismo – no sentido de extremista e violento – mútuo espinhoso e irracional o debate político no país. Discussões sobre como reformar (ou mudar fundamentalmente) a economia, diminuir as desigualdades sociais, dar voz política plena a quem não tem tanto dinheiro, fazer o Brasil conseguir diminuir maximamente a violência urbana e rural e se tornar um país pacificamente seguro etc. são infestadas com fortes ruídos, paixões políticas exacerbadas e ódios sociais.

Como exemplos, os debates sobre a endemia de corrupção na política e na sociedade são atrapalhados com tentativas interesseiras e maliciosas de atribuir ao PT o atributo de foco principal ou exclusivo de ações corruptas no campo político-partidário do passado e do presente. Protege-se os demais partidos e as entidades e pessoas corruptoras – grandes empresas, latifundiários etc. – das acusações e das reivindicações de justiça. Isso necessariamente limpa o terreno para que grande parte dos políticos corruptos e dos corruptores continuem agindo impunemente, e ofusca a necessidade de se discutir também as pequenas corrupções do “jeitinho” brasileiro.

As discussões sobre como diminuir a números mínimos a criminalidade são interferidas por uma flamejantemente passional irracionalidade. Exige-se “soluções” imediatas que tornem o país “mais seguro” a curto prazo, quando muitos problemas estão situados nas raízes da história social brasileira e exigem políticas de longo prazo.

Pede-se por vingança, derramamento de sangue de “vagabundos”, radicalização do militarismo da PM, medidas que supostamente trariam segurança mas não necessariamente promoveriam paz, sacrifício de liberdades em troca de um pouco de segurança… Insiste-se em medidas violentas, abusivas, discriminatórias e autoritárias que não só são ineficazes em diminuir homicídios, sequestros, estupros, agressões, assaltos, estelionatos etc., como também podem até piorá-los e ainda criar novos problemas de violência. Ofusca-se, com tamanhos ruídos, as propostas racional e emocionalmente equilibradas de medidas de redução da violência civil e policial-militar e modificação pacifista da cultura.

No campo da economia e dos contrastes sociais, clama-se, sem pensar, por privatizações, desregulação do mercado, diminuição de impostos para grandes empresas e pessoas ricas, arrochos contra a população trabalhadora… Todas aquelas medidas que nunca deram certo no Brasil e, pelo contrário, só atraíram mais desigualdade social, índices econômicos lamentáveis e também corrupção nas esferas privada e pública.

Faz-se barulho interferente quando se discute, por exemplo, a necessidade de aumentar os impostos dos mais ricos, taxar o lucro das grandes corporações, reforçar a criminalização de abusos trabalhistas e ambientais, entre outras intervenções de Estado necessárias para salvar a economia de cair num eventual império da “lei do mais forte”.

Nesse contexto, as críticas e propostas racionais vindas de opinadores e teóricos lúcidos de direita são enruidecidas e silenciadas pelos reacionários. Perde-se a oportunidade de se pôr em debate os dois lados – a esquerda não sectária e a direita emocionalmente equilibrada – e ouvir o que poderia haver de concordável ou discordável em cada lado. Daí a direita esclarecida e propositiva fica quase sem voz, desmoralizada, estereotipicamente misturada no mesmo saco do fanatismo reacionário e do ultraconservadorismo religioso fundamentalista.

E a esquerda fica obrigada a assumir uma postura defensiva o tempo todo, tendo que dispender energia para se defender de acusações absurdas – como de pregar o “comunismo totalitário”; herdar as ideologias autoritárias da União Soviética stalinista e da China maoísta; defender a partilha compulsória de bens de consumo; cassar liberdades individuais e nivelar por baixo, abaixo da linha de pobreza, o poder aquisitivo de quase toda a população. E muitas pessoas dessa esquerda acabam partindo para o olho-por-olho-dente-por-dente, revidando com insultos verbais contra seus agressores.

Nessa situação, todos saem perdendo. Quem tem algo de novo a dar de contribuição nos diversos campos do debate político, social e econômico tem sua voz silenciada. Esses campos, aliás, tornam-se arenas de pesadas brigas verbais ou mesmo físicas, onde imperam não a dialética, o debate de ideias, mas sim as acusações e agressões mútuas. E o Brasil, que tanto precisa de vozes equilibradas e agentes políticos ativos e empenhados, perde tanto as chances de ser decentemente (re)discutido como as oportunidades de amadurecer sua democracia.

 

A aversão à democracia e a seus valores

Essa interferência negativa nos debates políticos democráticos é um dos aspectos que fazem do reacionarismo uma amálgama ideológica opositora da democracia e dos valores a ela inerentes. Não é absurdo pensar que o Brasil “ideal” de muitos reacionários seria um país submisso a um regime autoritário, talvez até propriamente fascista, onde determinados valores conservadores, neoliberais e teocráticos orientassem a doutrina política do Estado.

Nem é tão exagerado acreditar que a crença de muitos reacionários sobre o “Brasil ideal” defende – às vezes sem que estes se deem conta – que os aparelhos repressores de Estado silenciem, com perseguição política armada, a esquerda e mesmo as parcelas da direita que defendessem um mínimo de respeito à pluralidade de vozes e opiniões.

Isso porque o reacionarismo brasileiro tem uma tendência autoritária, de desapego dos valores democráticos e desrespeito contra quem pensa diferente – mesmo que os reacionários em sua maioria se declarem “defensores da democracia”. Suas demandas implicam necessariamente que a grande maioria da população – fora do estereótipo do homem cis branco heterossexual cristão conservador preconceituoso e de classe média ou alta – seja incapacitada, ou mesmo proibida, de ter uma voz política audível.

Há diversos pontos, entre as opiniões e costumes reacionários, que de maneira nenhuma combinam com uma democracia que dê voz, condições e oportunidades a todo e qualquer ser humano:

– manifestações de preconceito machista-misógino, racista, heterossexista, transfóbico, elitista, intolerante religioso, xenófobo etc. e a defesa tanto do silenciamento dos movimentos sociais opositores desses preconceitos como da submissão das categorias defendidas por tais agremiações;
– demandas claras de repressão física, censura e perseguição política contra indivíduos, coletivos e partidos de esquerda (ou com passado de esquerda, como o PT);
– defesa, por parte de alguns, da instauração de um regime autoritário, presidido por militares e/ou civis de extrema-direita, a despeito da traumática experiência sofrida pela população entre 1964 e 85;
– exaltação de paixões e emoções destrutivas em detrimento da razão e do equilíbrio, quando se opina;
– descarte da inclusão social enquanto maneira de assegurar direitos e dar condições para o exercício do poder político pelas classes mais pobres;
– desprezo ao senso de coletividade e exacerbação do individualismo como valor regente da sociedade;
entre outros.

O atendimento a essas demandas implicaria necessariamente a abolição do regime democrático e a instauração de uma ditadura conservadora. Se hoje já há restrições extraoficiais ao volume da voz das minorias políticas e dos movimentos de esquerda, sob uma nova ditadura a restrição viria a se tornar proibição total, censura, repressão sistemática.

Isso deixa claro como o reacionarismo brasileiro é essencialmente antidemocrático, prejudicial à já precária integridade da democracia no país.

 

“Soluções” que só trazem piora

Uma das maiores razões que justificam que o reacionarismo seja um dos mais graves problemas políticos do Brasil é que tudo aquilo para que ele “propõe soluções” se tornaria ainda pior do que já é hoje.

Para a economia e as desigualdades sociais, defende políticas que historicamente só aumentaram a fragilidade econômica do país e o fosso entre ricos e pobres. Para a segurança, suas propostas não só são inócuas contra a violência, como a aumenta em modalidades como o abuso de autoridade policial, os homicídios cometidos por policiais e os crimes associados ao narcotráfico.

Para a educação, recomendam a adoção de regime disciplinar totalitário nas escolas, dando ao ensino básico um universo de novos problemas. Para a crise política, embandeiram propostas que destruiriam de vez a democracia no país.

Para os conflitos sociais, advogam pela piora e radicalização desses conflitos, com o engrossamento da repressão policial. Em relação aos preconceitos contra minorias, seus argumentos pregam o silenciamento dessas mesmas categorias e assim podem tornar o país um lugar ainda mais violentamente preconceituoso, discriminatório e opressivo. E assim sucedem-se as questões para as quais os reacionários defendem como “melhorias” a criação de ainda mais problemas e a piora dos existentes.

 

O reacionarismo como causador ou piorador de problemas nacionais

Os reacionários embandeiram uma ideologia que pode ser muito bem considerada uma causadora ou pioradora do conjunto de problemas históricos brasileiros. É possível considerar o reacionarismo um catalisador, um agente provocador de diversos flagelos que impedem o país de se tornar um lugar mais democrático, justo, solidário e humano e menos castigado pela corrupção e pela escassez de empatia.

Entre os problemas causados ou agravados por políticas ou causas reacionárias estão:
– os diversos preconceitos e opressões contra minorias políticas (habitantes da periferia, mulheres, pessoas negras, pessoas não heterossexuais, pessoas trans, pessoas adeptas de minorias religiosas ou irreligiosas etc.);
– a violência e o autoritarismo da polícia militar;
– o assassinato em massa de jovens negras e negros pobres nas periferias urbanas;
– a violência no campo;
– a impunidade e proteção à corrupção em muitos partidos;
– a conservação de políticas antiambientais públicas e privadas;
– as políticas econômicas historicamente responsáveis pelo agravamento das desigualdades sociais;
– a constante ameaça de revogação ou diminuição de direitos humanos, civis, ambientais e trabalhistas;
– a negação de direitos a diversas minorias;
– a violência contra a mulher (nos âmbitos físico, psicológico, moral, econômico, social etc.);
– a estagnação e fragilização da democracia;
– a manutenção da cultura do autoritarismo social e político;
– o enraizamento do ódio como tradição política etc.

Assim sendo, não foge do razoável dizer que o reacionarismo precisa ser reduzido à impotência, tanto pela esquerda como pelo que resta de direita lúcida e esclarecida. Isso deve ser feito de maneiras democráticas, sendo opções de ação, por exemplo:
– a publicação de livros refutando cada argumento reacionário;
– a promoção de uma educação doméstica e escolar que induza os educandos a nunca aceitarem sem questionamento uma ideia ou crença que tenha consequências éticas e sociopolíticas;
– a valorização das ciências humanas no ensino básico – com destaque para História, Sociologia e Filosofia;
– a promoção de uma educação doméstica que, reforçadamente e independentemente de classe socioeconômica, plante nas crianças valores como a solidariedade, a empatia, o respeito incondicional às diferenças, o repúdio a todo e qualquer preconceito, a sede de conhecimento, a valorização da beleza interior mais do que da exterior; o livre pensamento, o inconformismo sociopolítico, o desejo de ver todos os seres humanos e animais não humanos viverem com paz e dignidade, a busca permanente pela evolução individual, entre outros que limitarão ou impedirão eticamente o indivíduo de adotar posições reacionárias;
– a realização de debates públicos, a serem transmitidos por meios de comunicação em massa (TV, internet, rádio etc.), que ponham de frente defensores de bandeiras reacionárias e opositores ideológicos – sejam eles de esquerda ou da direita lúcida;
– e o amadurecimento e crescimento dos movimentos de esquerda, de modo que suas reivindicações tenham cada vez mais força e condições de se sobrepor aos interesses dos defensores do reacionarismo.

Com essas medidas, a longo prazo será possível promover um notável amadurecimento na democracia brasileira, assim como na conversão da cultura política do país em algo muito mais democrático, empático e solidário. E assim o reacionarismo perderá muito, senão quase todo, do espaço e do pernicioso poder que tem hoje.

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Lucas Ferreira

fevereiro 14 2015 Responder

Um dos melhores textos já feitos no blog, suas opiniões são muito equilibradas. Mas gostaria de fazer o mesmo questionamento do amigo aí de cima: “quais as ideias que você é contra (direitistas), porém, reconheces que elas merecem espaço num país democrático e, embora não sejam a sua opção, são uma opção?”

Ricardo Ibn

fevereiro 13 2015 Responder

Boa tarde Robson.

Texto muito interessante.

Uma dúvida. No texto, você usa o termo “direita lúcida”. O que é direita lúcida pra você?

Ou melhor, quais as ideias que você é contra (direitistas), porém, reconheces que elas merecem espaço num país democrático e, embora não sejam a sua opção, são uma opção?

Agradecido desde já!

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