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fev15

Senador petista aponta expansão do ódio na internet, mas não parece notar que seu partido é um dos culpados disso
Senador Paulo Paim

Senador Paulo Paim

O senador Paulo Paim (PT-RS) declarou que há de fato uma escalada dos discursos de ódio, de cunho criminoso ou político, na internet. Racismo, heterossexismo, xenofobia, transfobia, machismo e misoginia, intolerância religiosa, elitismo pauperofóbico, reacionarismo fanático, são vários os tipos de intolerância sendo propagados. Mas o parlamentar não ressaltou um ponto importante a ser considerado: seu partido é um dos responsáveis para que isso esteja acontecendo.

Segundo Paim, tem havido uma brutalização e extremização dos debates na rede. De um lado os numerosos preconceitos mencionados; e do outro a violentização da reação de tucanos assumidos ou enrustidos à permanência do PT no poder federal, e dos reacionários aos discursos e políticas dos progressistas de esquerda ou centro-esquerda.

Ressalte-se que ambos os ódios – o criminoso e o político – costumam frequentemente andar de mãos dadas e dedos entrelaçados. É muito frequente que o discurso reacionário venha imbuído com racismo, elitismo, xenofobia, machismo, heterossexismo, fundamentalismo religioso, militarismo e outros tipos de ódio, o que pode ser facilmente observado nas redes sociais.

Segundo a Agência Senado, conforme o noticiário O Povo, Paim declarou que “há tempo para reverter essa tendência ao fortalecimento do discurso do ódio, que é preocupante por seu caráter inclusive antipolítico, impiedoso, messiânico e, por muitas vezes, destrutivo. Só visa destruir o outro por destruir”.

Porém, ao mesmo tempo que ele diz isso, não há notícias sobre ele eventualmente ter dirigido críticas ao seu próprio partido. O PT é um dos grandes responsáveis por esse aumento do ódio dentro e fora das redes sociais.

Não por, como creem os conservadores mais raivosos, o partido supostamente promover políticas fortes de favorecimento inclusivo e justiça para as minorias políticas. Mas sim pelo exato contrário.

O PT tem promovido, como sua política partidária, o pragmatismo, a tentativa de costurar e preservar a “governabilidade” a qualquer custo. Nisso o governo Dilma, nos seus dois mandatos, tem-se induzido a fazer alianças e acordos com diversos representantes do conservadorismo e do neoliberalismo. O ministro da Fazenda, neoliberal vindo do Bradesco; a ruralista Kátia Abreu e os teocratas da base aliada que o digam.

Com isso, o governo tem imposto numerosos retrocessos para minorias políticas e cruelmente negado avanços que hoje poderiam estar dando dignidade e felicidade a muitas pessoas. As mulheres, a população não heterossexual, as pessoas trans, os povos indígenas e a população camponesa são cinco exemplos de categorias pesadamente agredidas pelas políticas conservadoras de negação e ameaça de retirada de direitos, vindas dos poderes Executivo e Legislativo.

Seja:
– contribuindo para o sepultamento do projeto de lei 122/2006 – que criminalizaria o heterossexismo e a transfobia;
– dando amplo espaço para os discursos e políticas de ódio e intolerância dos teocratas e ruralistas;
– omitindo-se e não dando um piu de condenação a episódios de manifestação de ódio – como os tantos protagonizados por Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Eduardo Cunha ou algum outro;
– apoiando ou protagonizando políticas militaristas, como o que foi visto durante a Copa do Mundo e nas próprias promessas de Dilma para segurança pública na campanha eleitoral;
– calando-se perante os diários casos de violência assassina, tortura e abuso de autoridade perpetrados por PMs nos bairros pobres e favelas das cidades;
– até mesmo discursando em prol da exclusão e negação de direitos – vide o infame discurso da presidenta de “não fazer propaganda de opção (sic) sexual”;
– ou por outros meios,
Dilma, sua equipe ministerial, o PT e sua base aliada legitimam todos os discursos de ódio que têm se propagado na internet, nas igrejas, na imprensa, nas mesas de bar etc., assim como os crimes de violência física e assassinato que têm ocorrido.

E em relação ao reacionarismo, um dos maiores e mais sérios problemas sociopolíticos do Brasil contemporâneo, o PT também pode, e deve, ser responsabilizado – como já foi dito, não por supostamente promover políticas de esquerda, mas sim por não promovê-las. Dilma tem claramente governado à direita desde seu primeiro mandato, radicalizando essa postura ideológica depois da reeleição.

E nisso tem-se incluído a política de tentar apaziguar os conservadores com os mencionados retrocessos e omissões em temas de Direitos Humanos, com privatizações, com a manutenção ou reforço do poder político-econômico das grandes empresas e com outras impopulares providências.

A História mostra que, diante de uma direita parasita, violenta, insaciável e sedenta de poder e dominação, promover apaziguamento na tentativa de fazê-la parar de crescer não funciona. O exemplo mais famoso foi a política de concessões prestada por França e Inglaterra perante o crescimento do nazi-fascismo, do poder de Hitler e Mussolini na Europa e das invasões territoriais. Essa estratégia teve um limite na invasão da Polônia, e o apaziguamento deu lugar à Segunda Guerra Mundial.

Mas o PT não aprendeu isso. Por mais concessões que faça, o partido nunca consegue conquistar a simpatia e a tolerância da direita, muito pelo contrário.

Com isso, a cada ano, o PSDB tem avançado nos segundos turnos. Cada eleição presidencial tem sido mais e mais difícil para ser vencida pelo PT. Se não tivesse mentido ao eleitorado de esquerda – mentira que lhe rendeu milhões de “votos críticos” ou esperançosos – e fingido adotar bandeiras progressistas na campanha do segundo turno, Dilma teria perdido para Aécio Neves.

Um outro apaziguamento petista facilmente perceptível é a preservação do “quarto poder”, o poder oligárquico da mídia. Com a má vontade do PT em criar uma lei de regulação social e democratização dos meios de comunicação, ela tem feito a festa. Tem agido livre e impunemente, alheia a qualquer limitação de poderes e sanção legal.

Mantém desimpedida sua tradição de manipular notícias, dar poderosos alto-falantes para formadores de opinião reacionários, minimizar ou esconder totalmente as vozes representantes da esquerda, propagar a ideologia liberal-conservadora como a única visão de mundo correta e patrocinar seus próprios representantes políticos.

Com uma imprensa oligárquica e não democrática gozando de plenos e enormes poderes e dando ampla voz ao conservadorismo e ao neoliberalismo, a contraparte de esquerda fica encolhida. Hoje ela está relegada a veículos de audiência muito menor do que as redes de televisão e os grandes portais de notícias, como noticiários de médio ou pequeno alcance e blogs que variam de dezenas a alguns milhares de visitas por dia.

E mesmo a parcela dos veículos de comunicação que se convenciona chamar de “de esquerda” está dividida. De um lado, estão os sites e blogs “alternativos” de maior audiência que se venderam para o governismo incondicional. Do outro, os blogs e páginas de rede social que, com bem menos audiência que os sites e blogs chapa-branca, mantiveram sua fidelidade ideológica e reprovam muitas das políticas do governo Dilma e do PT, senão os próprios.

Daí resulta que a voz da esquerda está muito fraca, em comparação com a da direita e dos governistas compadres da base aliada conservadora. Com isso, ela não consegue se fazer ouvir e ler perante a grande maioria da população brasileira.

As declarações dos formadores de opinião reacionários encontram aceitação inquestionada numa população fracamente formada pela escola, carente de senso crítico e ceticismo e ideologicamente doutrinada pela mídia. E não há um “outro lado” suficientemente forte para fazer o contraponto nos inúmeros temas discutidos. Daí a única voz que consegue ser amplamente ouvida é a da direita, incluindo suas vertentes mais fanáticas e verbalmente violentas.

Por tudo isso, é perfeitamente possível perceber que o PT é cúmplice, corresponsável, do crescimento das raivosas vozes do ódio intolerante criminoso e do fanatismo de guerra reacionário. Sua guinada ao pragmatismo de direita e ao apaziguamento dos conservadores assumidos tem ajudado a direita assumida a se tornar um titã cada vez mais implacável. E milhares de pessoas estão literalmente pagando com a vida por isso.

Daí Paulo Paim precisa, ao fazer seu alerta sobre o crescimento dos discursos e crimes de ódio, olhar para seu próprio partido. Precisa criticá-lo contundentemente pela cumplicidade, pelo silêncio consentidor e pelas alianças perante os intolerantes.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

falo mesmo

fevereiro 27 2015 Responder

Esquece alex, esse cara jamais responde. Seu comentario vai ficar aqui para dar a impressão de que opiniões divergentes sao aceitas, mas na verdade ele é apenas uma marionete ideologica do partidão.

Alex

fevereiro 26 2015 Responder

“Com a má vontade do PT em criar uma lei de regulação social e democratização dos meios de comunicação, ela tem feito a festa.”

Você realmente é a favor disso? “Regulamentar” a mídia é um eufemismo pra censura prévia, uma das armas dos ditadores, tanto “de esquerda” como Fidel Castro, quanto “de direita”.

O PT está envolvido em vários esquemas de corrupção, isso é um fato. E a imprensa está apenas noticiando um fato de interesse público, se há editoriais contra governo é porque ele dá margem pra isso, mas também há jornalistas, blogs e sites de notícias que tentam o defender (embora esteja difícil com tanta acusação séria), e blogs e veículos de notícias que tentam ser neutros. Democracia é isso, todos devem ter voz e não apenas os que concordam com sua ideologia.

Agora, se houver essa “regulamentação” – estaremos dando autorização pro Estado vetar o que ele o governo quiser, será mesmo que algum governante será tão idôneo e imparcial que vai autorizar a divulgação de notícias contra ele?

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo