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Cartaz sobre formatura de futuros engenheiros de universidade pernambucana faz apologia ao desmatamento urbano

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Um cartaz no mínimo controverso está causando indignação no Recife. Referente à organização da formatura de uma das turmas de Engenharia Civil da Universidade Católica de Pernambuco – Unicap, ele faz uma exaltação à cada vez mais criticada cultura da construção civil de encher uma cidade de prédios e mais prédios e destruir o que lhe resta de áreas florestais e outros espaços verdes ainda intactos:

Foto: Reprodução/Facebook. Clique na imagem para vê-la maior

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Ele mostra uma barra de progresso, típica de determinados tipos de programas de computador, com um conjunto de edifícios sendo construídos por cima de uma floresta. À medida que a barra de progresso avançasse, mais mata seria derrubada e mais prédios surgiriam.

Vale perceber aqui o duplo sentido do “progresso” no termo “barra de progresso”. Esse “progresso” representa tanto o crescimento da barra desenhada como a defesa da perigosa ideologia novecentista do “progresso a todo custo” da civilização urbano-industrial. Tal ideologia, apesar de tão criticada e denunciada há décadas, continua sendo defendida de forma anacrônica, irresponsável e acrítica hoje.

Tão logo foi compartilhada no Facebook, na madrugada de ontem para hoje, fez a polêmica e a consternação se acenderem e se espalharem como rastilho de pólvora. Muita gente – em especial no grupo facebookiano Direitos Urbanos – Recife, dedicado a defender a democracia e a sustentabilidade no planejamento urbano – está lamentando a imagem, com toda razão.

Ela reflete, de forma óbvia, a mentalidade de grande parte da atual geração de engenheiros civis que está em formação nas universidades públicas e faculdades privadas de Pernambuco – e de outros estados brasileiros. Estão aprisionados no paradigma de pensamento urbano-industrial dos séculos 19 e 20, segundo o qual os ecossistemas naturais seriam apenas estorvos inúteis a serem varridos do mapa, em favor de cidades superdensas e repletas de altos e caros edifícios, e a Natureza existiria para ser subjugada, explorada e destruída em favor dos interesses da humanidade.

Muitos dos professores de Engenharia Civil das instituições brasileiras de ensino superior ainda estão alienando seus alunos da consciência ambiental que, desde a segunda metade do século passado, vem questionando pesadamente essa tradição de derrubar mata e elitizar cada vez mais áreas da periferia para construir prédios.

Isso tem sido refletido, no caso do Recife, no avanço de condomínios residenciais e prédios empresariais por cima de áreas verdes e prédios históricos da cidade, e também no claro interesse da prefeitura de apoiar projetos de complexos urbanísticos voltados para a elite. Entre esses projetos, estão o “Novo Recife”, que está repleto de ilegalidades e ameaça destruir o Cais José Estelita e o pátio ferroviário das Cinco Pontas e causar um impacto extremamente grave e irreversível na paisagem urbana do centro histórico da cidade e no clima da mesma, e o Porto Novo, polo portuário de lazer clara e restritivamente dedicado às classes alta e média-alta e a turistas ricos.

É uma mentalidade marcada pela total irresponsabilidade ambiental, pelo desprezo à democracia, pelo culto à riqueza material-financeira individual e pela promoção do fenômeno da gentrificação – no qual cada vez mais áreas de uma cidade são elitizadas e tornadas caras demais para pessoas de classes populares continuarem ali, e essa população mais pobre é sutilmente expulsa da urbe e forçada a se estabelecer em áreas distantes do centro e a desmatar e ocupar áreas florestais e/ou rurais até então conservadas.

Ignora, tal como os desenvolvimentistas do século 20, que a Natureza tem suas razões próprias para ter sua integridade respeitada e que sua degradação inviabilizará a continuidade da própria vida humana na Terra, começando por tornar insuportável a vida das populações pobres e em seguida, ou simultaneamente, eliminando progressivamente a qualidade de vida – e a própria vida – das pessoas das classes médias e altas.

É essa tradição de engenheiros civis aversos ao meio ambiente e antidemocratas que está, de fato, cada vez mais dominando cidades como o Recife. Estão tornando a vida da população mais e mais insalubre e difícil; corrompendo o poder público de modo que ele sirva não ao interesse da população, mas sim ao lucro de empreiteiras e imobiliárias; e trazendo o autoritarismo capitalista e elitista para o planejamento e administração urbanos.

Cairiam bem, como repercussão desse cartaz, intervenções – que poderiam incluir desde panfletagens e mesas-redondas até protestos – na Unicap e em outras faculdades que estejam sabidamente formando engenheiros civis com mentalidade “selva só de concreto” e “cidade para as imobiliárias, não para as pessoas”.

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17 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Nádia.

abril 3 2015 Responder

LAMENTÁVEL!!

Isabelle

abril 1 2015 Responder

O artigo do blog já é bem eficaz em traduzir a perplexidade diante da desfaçatez em assumir algo que sabemos verdade: a maioria dos agentes que “constroem” a cidade, dos quais os pobres jovens engenheiros são apenas empregados mal remunerados (mas vaidosos da técnica que pensam ter!), sacrifica o meio ambiente (“essencial à sadia qualidade de vida” – palavras da Constituição Federal!) em nome da ganância, sob o pretexto de trazer o progresso. Só menino “buchudo” mesmo, recém-(mal)formado, para acreditar que gruas e grandes prédios suplantando a natureza representam progresso…

Fernanda

abril 1 2015 Responder

E eu achando que hoje já se tinha vergonha de pensar que “só o concreto salva”, mas pela imagem e comentários, eu estava bem errada.

Regina

março 31 2015 Responder

Só Deus na causa ! Pasma… chocada…

Marina Silva Pv

março 31 2015 Responder

As arveres samos nozes.

Julio

março 31 2015 Responder

Mandar “arrumar o que fazer” também é uma forma de desrespeito e ofensa. Comentário apagado. Só volte pra comentar aqui quando tiver algo construtivo a trazer. RFS

Marcelo Lins

março 31 2015 Responder

Que idiotice fazer o julgamento das pessoas pela simples tentativa de exporem suas opiniões. Até parece que são os culpados pelos erros cometidos no passado. A ignorância começa aos “conhecedores” da profissão do engenheiro Civil, pois acham que tratamos apenas de construções imobiliárias. O Engenheiro Civil é uma profissão nobre e bastante respeitada em todo o mundo, pois além de construir edifícios, também desenvolvemos sistemas de tratamento de resíduos, saneamento, abastecimento de água, recursos hídricos, etc. Fora outras atividades necessárias ao desenvolvimento do nosso país, infelizmente não existe atividade humana que não gere impacto ambiental, mas nós engenheiro, estudamos para tentar amenizar o máximo possível esses impactos.

    Robson Fernando de Souza

    março 31 2015 Responder

    “Que idiotice fazer o julgamento das pessoas pela simples tentativa de exporem suas opiniões.” – Alguém aqui está atirando no próprio pé, quando, ao mesmo tempo, diz que é idiotice julgar as pessoas por expor suas opiniões e traz um julgamento depreciativo por conta da opinião que o post trouxe.

Absurdo

março 31 2015 Responder

Esse cartaz é um absurdo!!!1!!!
Como que pode eles chamarem de “progresso” a criação de casas e lares por cima de pobres arvores.
O meio ambiente é muito mais importante que qualquer interesse escrupulo e elitista de querer um teto sobre sua cabeça!!!
Só a minha casa é boa, ela foi construida sobre um terreno infertil!!!!!
Lamentavel

Rogério

março 30 2015 Responder

Tem gente q se finge de cega. Só ver o LOADING, fica claro q mostra a invasão do CONCRETO na natureza. Vamos aprender a interpretar. O concreto vai passar por cima da natureza. Lamentável esse cartaz

Giovanni

março 30 2015 Responder

“Cartaz no mínimo controverso”. Discordo, porque até hoje como o próprio cartaz reflete é a mentalidade, como a matéria aqui também afirma, dos engenheiros civis. Controvérsia existe se tivermos um olhar ambientalista, amplo com a inclusão de que o ser humano nunca deixou de ser nada mais que uma Parte da fauna do planeta, nada mais é nada menos.
Esse cartaz reflete a cultura que outros profissionais da área estão transmitindo aos futuros profissionais, sem que esses questionem esse pensamento. O que já reflete outra realidade – quem deixou de ensiná-los anteriormente e construir esse pensamento crítico sobre a desvalorização do ambiente natural? -.
Essa via de pensamento nada mais é que o resultado da falha educacional das pessoas no sistema de educação e na educação doméstica. Enquanto não se questionarem, enquanto não praticarem a política (pesquisar, ouvir, debater, aprender e ensinar) envolvendo o mundo como um todo, como um sistema vivo que não pode nem deve ser seccionado, e sim gerido com um todo; multidisciplinar e interligado entre os diversos setores e profissões essa mentalidade continuará a existir.
Peço mais, não diga que é a mentalidade da instituição como um todo até porque me formei lá como engenheiro ambiental, com profissionais, pesquisadores e professores, além de colegas estudantes conscientes, críticos, com visão multidisciplinar e praticantes da troca de experiências, de politicagem. A UNICAP e seus professores, não como um todo claro porque nem todos desenvolvem esse pensamento crítico, mas muitos tem além da passagem de conhecimentos, da construção do pensamento crítico e problemáticas ambientais, também vários deles são atuantes no mundo da pesquisa e são ou foram atuantes no mercado de trabalho para essa linha.
Como fica percebido, não apenas nesse grupo de civil mas em vários outros setores e instituições de ensino e empresas atuantes, junto aos seus funcionários, é essa visão fechada de que nada que se agride a biosfera irá afetar-lhes pelo menos diretamente ou em curto espaço de tempo, e isso é uma ilusão.
Sei que a matéria está tentando destacar a falta de consciência ambiental, então lanço uma ideia – usarmos esse slogan de maneira inversa -, fazer com que a o crescimento da consciência ambiental seja refletida nessa barra de carregamento. O que acha?

“Nada se perde, tudo se transforma”.

    Robson Fernando de Souza

    março 31 2015 Responder

    Olá, Giovanni. Onde a matéria diz que o cartaz reflete que é a universidade ou o curso institucionalmente, ao invés de “muitos professores”, que têm transmitido o paradigma da “selva só de concreto”?

      Giovanni

      abril 1 2015 Responder

      Caro Robson Fernando,
      “Ela reflete, de forma óbvia, a mentalidade de grande parte da atual geração de engenheiros civis que está em formação”.
      Porém, entendi sim o seu ponto, colega. É realmente, admito que exaltei ao direcionar a crítica à instituição especifica, porém ao curso sim foi relatado. Infelizmente mesmo não sendo uma realidade total exemplos como esse fazem um determinado grupo ser destacado. Mas, gostaria de lhe dizer sobre o ponto da formação que não é o principal motivo a mentalidade da universidade ou desses maus professores, contudo, é sim de grandioso peso na formação afinal. A verdadeira transmissão é a formação do cidadão desde a escola, e como gostaria de destacar, no doméstica. Conheço engenheiros civis e arquitetos mais preocupados com o meio ambiente até em relação a pessoal da área ambiental, engenheiro ou técnico, movidos pelo simples fato de “é porque é lei”. Infelizmente essa mentalidade ainda é maior realidade.

      Peço desculpas por ‘direcionar’ a matéria a instituição mais uma vez. Também gostaria de lhe dizer que em momento algum disse que “‘eles’ pensaram da maneira inversa”, disse que devemos pensar da maneira inversa à essa “concretização”. Usar a mentalidade atrasada como trampolim de exemplo e formação de uma consciência de preservação da biosfera. Exemplificado na minha citação de “lanço uma idéia”. Muito menos acredito que florestas iram simplesmente derrubar edificações (rsrsrs), porém, como a colega Roberta citou, existe sim a busca da visão inversa, tanto quanto ela visualizou deste mesmo modo. As florestas seriam a representação da nossa psiquê de uma consciência “verde”.

Thereza

março 30 2015 Responder

Pobres engenheiros…Desde cedo visando apenas o lucro, a ganância e o descaso com o meio ambiente. Coracoes de concreto, almas de cimento. Vazios!

Roberta

março 30 2015 Responder

Rapaz… sinceramente? Quando eu apenas vejo a figura eu a entendo como você saindo da cidade para a floresta e não o contrário! kkkkkkkkkkkkkkkk Nossa leitura é sempre da esquerda para a direita e é normal a gente entender a “linha do tempo ou evolutiva” nesse sentido, portanto, se ninguém me dissesse nada eu entenderia como “adaptando a modernidade a proteção do meio ambiente”.

    Robson Fernando de Souza

    março 31 2015 Responder

    E vc acredita que quem fez o cartaz pensou “da direita pra esquerda”, que as pessoas iriam, em sua maioria, ler da direita pra esquerda? E que florestas podem derrubar cidades cheias de prédios e gruas (usadas em prédios em construção)?

Norberta de Melo Silva

março 30 2015 Responder

Perplexidade!

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