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Como a antirreligiosidade de muitos neoateus tem dado moral aos extremistas religiosos
Exemplo de imagem que chama o fundamentalismo religioso de "a religião"

Exemplo de imagem que chama o fundamentalismo religioso de “a religião”

Uma das características mais marcantes da militância antirreligiosa neoateísta é denunciar os inúmeros abusos do fundamentalismo religioso e de denominações religiosas que não atualizaram seus ditames morais culturais. Isso é muito positivo e saudável, mas deixa de sê-lo quando “a religião” como um todo é apontada como culpada disso tudo estar acontecendo. Isso é um tiro no pé da militância que pretende combater o mau uso das crenças religiosas por parte de fundamentalistas.

É comum que a intolerância contra quem pensa diferente, os abusos contra crianças, a imposição de leis religiosas draconianas, os atentados ao Estado Laico etc. sejam creditados por muitos neoateus à essência conceitual da religião. Tudo de ruim cometido pelo extremismo religioso é descrito, de forma falaciosa, como “a religião”.

Se um pai passa a faca na testa do filho pequeno, um adolescente homossexual é expulso de casa por pais homofóbicos ou teocratas tentam transformar o Brasil numa república oficialmente evangélica, atribui-se a culpa disso à existência das religiões em geral e suas crenças, e não ao fanatismo e anacronismo religioso. Nisso, o fundamentalismo religioso é reconhecido como “a religião”.

Em outras palavras, nos meios neoateístas, religião e fundamentalismo religioso são praticamente sinônimos. Os fundamentalistas acabam sendo considerados o perfil padrão de uma pessoa aderente de uma crença religiosa.

Além disso, quando se extrapola o fundamentalismo e anacronismo de algumas correntes religiosas como se fossem características intrínsecas de todas as religiões do planeta e suas subdivisões, silencia-se as vertentes moderadas e humanistas e seus aderentes.

Nesse caso, o terrorismo do Estado Islâmico é considerado por muitos neoateístas algo “mais islâmico” do que a pregação da ética por um imã muçulmano moderado e liberal. Os atentados ao Estado Laico promovidos por deputados da bancada teocrática do Congresso Nacional são vistos como algo “mais cristão” do que a Teologia da Libertação ou a ética cristã pacifista inspiradora de pessoas como Zilda Arns, Desmond Tutu e Martin Luther King Jr. E outros exemplos se seguem.

Isso enche o moral dos grupos extremistas, ao invés de desmoralizá-los. Eles passam a ser vistos como os “principais” ou “únicos” representantes legítimos de suas religiões. Os moderados ficam marginalizados e ilegitimados, e suas vozes que clamam pela liberalização da interpretação das escrituras sagradas canônicas de suas religiões são ignoradas, tratadas como se fossem algo estranho às religiões que seguem.

E nisso os fundamentalistas só têm a ganhar, ganhando fôlego para que, uma vez reconhecidos como os mais “legítimos” adeptos de suas religiões, passem a ditar aquilo em que os demais aderentes devem acreditar e o que devem aceitar. E a luta pela atualização moral das religiões mundiais tradicionais só perde, já que não tem seus esforços humanistas reconhecidos e incentivados.

Daí o que se tem são extremistas cada vez mais fortes e moderados cada vez mais ignorados, desmoralizados e enfraquecidos. “Confirma-se” que cristianismo e islamismo são de fato religiões “do mal”, e maltrata-se e ignora-se seus aderentes não fundamentalistas. Com isso, os antirreligiosos acabam conseguindo o exato inverso daquilo pelo qual lutam: um mundo cada vez menos castigado pela violência, opressão e intolerância promovidas pelo radicalismo religioso.

Por isso fica a dica: se os antirreligiosos querem criticar as passagens cruéis e intolerantes dos livros sagrados, que critiquem. Se querem condenar as vertentes religiosas mais envolvidas com terrorismo, teocracia e opressão, que condenem. Mas não é razoável fazer essas críticas deixando claro que estão criticando, ao invés de algumas vertentes e seus aderentes, “a religião”, todas as crenças e sistemas religiosos existentes no planeta.

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Sergio Luiz Sant´Anna

março 26 2015 Responder

Gostei desse texto, às vezes posto alguns artigos de religiosos criticando os radicais e os seus absurdos nas comunidades em que faço parte. E é divertido quando acho esses textos, já que não fica aquela coisa de “texto de ateu todinho”.
Muitos (dos dois lados) ficam chocados quando descobrem que uma entidade evangélica “caça” rolo com Malafaia e seus asseclas pelo simples fato de fazerem o trabalho que fazem.
Ou descobrirem que há religiosos que comungam os mesmos ideais.
Mas em qualquer área onde há militância, há sempre radicais que preferem partir para a ação antes de refletirem. E sempre com arrogância.

Ace

março 24 2015 Responder

De fato. Pra mim, deveríamos discutir amigavelmente com teístas. Ser ateu não é diploma (Ateus não são necessariamente mais inteligentes do que religiosos como propagam). Só ofender a crença alheia pega mal pra gente, né?

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