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mar15

Como a direita está esmagando, e não abrindo, a atual oportunidade do Brasil de passar a limpo sua história política
Quem se

“Quem se cala é omisso e cúmplice.” Isso se aplica muito mais à direita antipetista do que ao próprio PT.

A Operação Lava Jato tem sido cada vez mais vista como uma oportunidade, nunca antes vista, de passar a limpo o funcionamento da política representativa no Brasil. E a direita, em especial conservadores e neoliberais, partidários ou não, tem sacudido muito, verbalmente falando, a bandeira do “combate à corrupção” e da “moralidade”. Mas uma observação crítica da realidade nos mostra que essa “direita anticorrupção” está arruinando, e não fazendo valer, essa chance do país de rever os fundamentos de seu sistema político.

A evidência mais notável disso é a tentativa – parcialmente bem sucedida – de crucificar Dilma Rousseff, Lula e o PT como “mestres da corrupção” e declarar que o impeachment da primeira é uma “grande solução”, senão a “melhor” ou “única”, para “moralizar” o país. Enquanto fazem isso, acobertam quase tudo, senão necessariamente tudo, dos delitos cometidos por políticos de outros partidos.

A Lava Jato está incriminando gente de diversos partidos diferentes, do PT ao PSDB, passando especialmente pelo PP do famigerado Jair Bolsonaro – considerado um “paladino da moral” por muitos de seus eleitores. E também tem apontado, de maneira pouco vista na história do país, a participação de grandes empresários como corruptores, aqueles que corrompem os políticos. Mas isso tem sido solenemente ignorado pela direita que se diz “combatente anticorrupção”. Só o envolvimento de petistas tem recebido sua atenção.

Ao mesmo tempo, o Congresso Nacional como um todo tem sido alvo de uma larga insatisfação popular. Muitos de seus membros estão promovendo, diante do olhar de todo o seu eleitorado, ações obviamente abusivas, que passam pelo uso do poder público para atender a interesses privados, pelo envolvimento com leis antipopulares e pelo total desapreço aos valores caros à democracia e ao regime republicano.

É razoável afirmar que o Brasil estaria, neste momento, tendo uma série de protestos semelhantes ou ainda maiores do que os que ocorreram em junho de 2013, se houvesse a plena e larga denúncia de tudo o que tem acontecido a níveis federal, estadual e municipal. Isso estaria acontecendo se as massas não estivessem sendo desmobilizadas e manipuladas pela direita, que protege os seus representantes e lhes afasta o foco ao tratar o PT como a “raiz de todo o mal” da política nacional.

Para quem tem o mínimo de conhecimento sobre o funcionamento da política no país, está cada vez mais claro que a direita não tem o interesse de desconstruir a cultura de corrupção nas casas legislativas, sedes do Poder Executivo e empresas públicas e privadas. Seu discurso não está a serviço do combate a essa tradição criminosa.

Pelo contrário, o interesse dela é tirar proveito político da situação presente. É enfraquecer Dilma a ponto que ela permaneça em estado moribundo no poder ou se sinta inescapavelmente obrigada a renunciar ao seu mandato. Com a atual presidenta fora de combate, o PMDB de Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros assumiria um poder quase absoluto e governaria protegido pela mídia e pela direita assumida pseudo-anticorrupcionista.

Conta-se também com a possibilidade remota de Temer ser, de alguma forma, induzido a também abdicar do mandato e, assim, ser promovido o “terceiro turno de 2014”, com a eleição presidencial de um candidato do PSDB ou de algum outro partido de reacionários.

Reitere-se também que a própria direita brasileira é regida por valores fomentadores da corrupção e do governo para fins privados. Entre os valores antipúblicos que lhe são caros, estão incluídos o individualismo exacerbado e contrário à empatia, a hierarquização da sociedade, a distribuição desigual do poder político entre as diferentes classes sociais e a naturalização da dicotomia dominantes-dominados.

Além disso, esse mesmo Congresso, que hoje goza de um dígito de taxa de aprovação popular, foi apontado pelo DIAP como o mais conservador desde 1964. O PT perdeu o que lhe restava de identidade ideológica de esquerda, o PSOL é o único partido assumidamente de esquerda com representação legislativa federal, e os demais partidos estão situados entre o centro e a direita quase extrema.

E o Congresso tem mostrado que o liberal-conservadorismo tem chances muito elevadas de andar de mãos dadas com a corrupção – seja ativamente, com políticos liberal-conservadores sendo corruptos, seja passivamente, com a conivência e proteção dedicadas aos mesmos.

Todos esses detalhes apontam para a evidência de que a direita assumida no Brasil não só consente e protege a corrupção não petista, como também está parcialmente envolvida nos escândalos hoje em alta. Isso deixa claro que ela não está lutando contra a corrupção. Pelo contrário, tem fortes interesses em manter a ordem sociopolítica como está ou mesmo piorá-la. E a conversão do PT em “judas de malhar”, baseada ela própria em métodos eticamente corruptos de manipulação noticiária, atende a esse propósito.

Isso nos deixa claro que, ao contrário do que se acredita, não está havendo hoje um despertar de consciência na sociedade. Poderíamos estar diante da maior oportunidade, desde a redemocratização, de iniciar uma faxina na política nacional. Mas ela está sendo dramaticamente jogada no caminhão compactador de lixo e levada ao aterro, por aqueles que tanto se dizem “patriotas contra a corrupção”. Na situação presente, a renúncia de Dilma representará uma vitória histórica, e não a derrota “final”, dos não petistas interessados na manutenção da corrupção no país.

Ou seja, só começaremos a ter uma devassa verdadeira na classe política quando a direita antipetista for desmascarada, desmoralizada e privada do poder de obstaculizar o caminho do amadurecimento ético e participativo popular da democracia brasileira. Em outras palavras, o foco de quem realmente luta contra a corrupção não é apenas ou principalmente o PT, mas sim (também) os antipetistas de direita detentores de poder político, tão ou mais interessados na falta de ética política do que a banda podre do Partido “dos Trabalhadores”.

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