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Introdução ao reacionarismo brasileiro

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Muito se fala dos reacionários, popularmente chamados de “reaças” ou, às vezes, “coxinhas”. Fala-se dele especialmente quando há alguma ideia ligada à direita política sendo defendida, como o extermínio de criminosos civis pela polícia, a privatização de empresas estatais e bens públicos (rodovias, ferrovias, aeroportos etc.) e as acusações de que o PT é um partido “comunista” e “bolivariano”. Mas muitas pessoas ainda querem saber, não encontrando a resposta com facilidade: o que é um reacionário? E o que o reacionarismo defende afinal?

 

O conceito de reacionário e reacionarismo

O reacionário pode ser definido como alguém que:
– defende um determinado conjunto de ideias pertencentes a ideologias de direita, como o conservadorismo, o (neo)liberalismo econômico, o fundamentalismo cristão e o fascismo;
– reage de forma raivosa – e às vezes fanática – a atuações políticas, ideológicas e sociais consideradas de esquerda ou centro-esquerda;
– deseja que aspectos diversos da ordem social vigente do presente (como a hierarquia social, o domínio cultural do moralismo cristão, a defesa prioritária dos interesses de quem tem poder político e econômico em mãos, a discriminação de minorias políticas “indesejadas” e a doutrina de redução progressiva do papel do Estado na sociedade e na economia) sejam conservados ou radicalizados;
– e tem diversos preconceitos, assumidos ou velados, contra minorias políticas, como mulheres, pobres, pessoas negras, homossexuais, pessoas trans e minorias religiosas (afrorreligiosos, espíritas, pagãos, muçulmanos, cristãos de igrejas liberais etc.) ou irreligiosas (ateus, agnósticos, deístas e teístas sem religião), e ódio a quem defende ideias consideradas de esquerda.

No Brasil, é possível considerar o reacionarismo uma ideologia propriamente dita, que junta numa só categoria ideológica bandeiras sociopolíticas de direita:
– conservadoras, como as hierarquias sociais e morais, a naturalização da existência de dominantes e dominados, a atuação do Estado em prol dos interesses dos privilegiados e o uso da violência militar (policial ou das forças armadas) radicalizada como meio principal ou único de tratamento e combate da violência civil (cometida por criminosos de rua, traficantes de drogas, autores de violência doméstica etc.);
– neoliberais, como o império absoluto do capitalismo sobre a sociedade, a privatização de empresas estatais (bancos públicos, empresas de geração e distribuição de energia, siderúrgicas, petrolíferas, administradoras de portos e aeroportos etc.) e bens públicos (como estradas, ferrovias, portos, aeroportos e poços de petróleo administrados por estatais), a revogação ou abrandamento de leis de regulação do mercado, a diminuição dos papéis sociais e econômicos do Estado, a meritocracia socioeconômica, o individualismo radical e o tratamento de todas as pessoas de forma neutra e igual (sem políticas de reparação de discriminações históricas e inclusão social, como bolsas de renda mínima a pessoas em situação de miséria e cotas para pessoas negras em vestibulares e concursos) pela lei;
– fundamentalistas evangélicas, como a imposição à força do moralismo cultural evangélico pentecostal a todas as pessoas no Brasil – independentemente de serem ou não cristãs – , a discriminação explícita e perseguição contra minorias “contrárias à moral cristã” (homossexuais, pessoas trans, minorias religiosas não cristãs, pessoas sem religião, mulheres feministas, homens afeminados etc.), a revogação da separação constitucional entre Estado e religião, a aprovação e sanção de leis que privilegiam cristãos pentecostais, a conversão forçada de todos os brasileiros a denominações evangélicas fundamentalistas e a negação enfática do direito das mulheres ao aborto e do dos homossexuais à constituição de família;
– e fascistas ou protofascistas, como o silenciamento violento da oposição de esquerda, a manifestação política por meio de autoritarismo e violência física e verbal, a exigência do uso da força militar para calar protestos de esquerda e “manter a ordem”, o darwinismo social (a aplicação da “lei do mais forte/apto” às relações sociais humanas e ao funcionamento da economia), a submissão da sociedade às instituições e símbolos do Estado (pátria, forças armadas e polícia, bandeira, hino etc.), a diminuição de liberdades em troca de segurança e a manipulação do conceito dos termos democracia e liberdade para que tenha significado compatível com o autoritarismo.

Uma outra característica muito comum entre reacionários é a contradição, a desconexão entre o que se diz defender e o que está sendo defendido de fato. São comuns os casos em que:
o autoritarismo ditatorial é defendido sob pretexto de se defender a democracia;
– um indivíduo diz-se “defensor das liberdades individuais” instantes antes de se investir em atacar as liberdades individuais das minorias políticas e das pessoas de esquerda;
– uma pessoa se autorrotula “defensora da propriedade privada” ao mesmo tempo em que se cala quando a propriedade privada de pessoas pobres é invadida e depredada pela polícia ou por milícias a serviço de latifundiários;
– o indivíduo defende “a moral e os bons costumes” investindo em posturas antiéticas, como o ódio ao diferente e o autoritarismo;
– a pessoa se diz “defensora da família” enquanto combate o direito de milhões de pessoas de formarem suas próprias famílias e investe, por via da incitação às múltiplas intolerâncias, na desagregação de incontáveis famílias já legalmente reconhecidas;
– pessoas que se dizem “defensoras da liberdade” defendem métodos de disciplina escolar radicalmente autoritários que interditam as liberdades individuais de crianças e adolescentes;
– cristãos praticantes arrogam-se “mais cristãos” do que os outros enquanto violam frontalmente muitos dos ensinamentos de Jesus Cristo que constam nos Evangelhos bíblicos e selecionam quais leis do Antigo Testamento defendem como se fossem atemporais e quais ignoram;
– defensores do neoliberalismo defendem a meritocracia social enquanto se opõem a políticas públicas que dariam condições para pessoas de minorias políticas historicamente discriminadas (mulheres, pobres, pessoas negras, pessoas trans etc.) competirem com menos desigualdade de condições e oportunidades com pessoas socialmente privilegiadas (homens, brancos, cisgêneros, que já nasceram ricos ou na classe média etc.);
– indivíduos falam de “Direitos Humanos só para humanos direitos” e não sabem que, com tal discurso, estão ajudando a perpetuar o não asseguramento dos Direitos Humanos a pessoas inocentes;
– entre outros casos.

E mais uma que merece forte destaque é a ignorância. O reacionarismo, para existir e ser perpetuado, precisa essencialmente que seus defensores tenham evidente e elementar desconhecimento de História (Geral e do Brasil), Sociologia, Filosofia, (Ciência e Filosofia) Política, Psicologia e, até certo ponto, Economia.

Também requer que eles tenham sido “educados”, pela escola, pela família, pela igreja, pelo Estado e pela mídia, para a obediência acrítica pelo medo, a aceitação inquestionada e passiva do autoritarismo e de “verdades” preconcebidas, a conduta moral sustentada por recompensas e punições, o atendimento a valores conservadores hierarquistas, as crenças egocêntricas, o individualismo exacerbado (ou o coletivismo extremado que anula o indivíduo, no caso de regimes fascistas) e o ódio e preconceito contra o diferente.

O credo sociopolítico reacionário baseia-se em crenças preconceituosas, “pensadas” sem que se faça o mínimo de esforço de questionar os dogmas do senso comum e das múltiplas ideologias de direita que se interceptam no reacionarismo. Também tem como base a obediência acrítica ao que esse amálgama ideológico prega, por intermédio de “gurus” ou líderes políticos, formadores de opinião e veículos de mídia cujos proprietários sejam interessados na manutenção da ordem sociopolítica e econômica em vigor.

A maioria das crenças reacionárias seriam facilmente derrubadas se houvesse a boa vontade, entre seus acreditadores, de pesquisar e estudar, por exemplo, a origem e trajetória histórica das desigualdades sociais no mundo e no Brasil, as teorias político-econômicas que vislumbram sistemas políticos de democracia direta e socioeconômicos não capitalistas, os problemas inerentes ao capitalismo de livre mercado, os conceitos filosóficos de liberdade, as estatísticas sobre violência no Brasil e outros países, a diversidade religiosa e as crenças não cristãs, as reivindicações dos movimentos sociais de minorias políticas, a importância do senso crítico no debate sócio-político-econômico, entre outros assuntos sobre os quais costumam opinar sem o mínimo de conhecimento embasado.

 

As crenças reacionárias

O reacionarismo é uma ideologia que beneficia focadamente pessoas dotadas de privilégios, uma vez que tem em sua essência o conservadorismo que reafirma a “naturalidade” das hierarquias sociais e o “merecimento” dos que estão no topo da pirâmide social. Com isso, seria de se esperar que apenas os ricos e a classe média-alta, por desfrutarem de privilégios que perderiam em caso de triunfo da esquerda política, fossem interessados em defender posições reacionárias.

Porém, por meio da educação, seja ela escolar ou extraescolar, trazida por meio do ensino ou da mídia, pessoas pobres, de classe média-baixa e da classe “média-média” também são doutrinadas a aceitar o conservadorismo, o neoliberalismo e a moral cristã tradicional como as únicas ideologias “certas” e fiéis à realidade. Aprendem que a única maneira “correta” de terem uma vida mais digna e confortável é investir no mérito pessoal individual por meio da educação escolar-universitária e do trabalho duro – exceto no caso daqueles que já nascem ricos.

Somada a essa doutrinação ideológica, há uma estereotipação ignorante ou maliciosa, por parte dos formadores de opinião, contra a esquerda política brasileira e internacional do século 21. Essa malignização visa induzir nas pessoas o medo da esquerda, o temor fantasioso de que ela lhes confisque todos os bens privados e as releguem à miséria.

Nessa demonização da esquerda, toda a sua diversidade ideológica contemporânea é reduzida às correntes de socialismo autoritário que vigoraram no século 20 na antiga União Soviética governada por Stálin e na China dirigida por Mao Zedong e ainda persistem em Cuba e na Coreia do Norte. E essas correntes, por sua vez, são reduzidas ao rótulo de “comunismo”, uma ideologia que seria inerentemente maligna.

Além da crença no mérito laboral como único modo de “vencer na vida” e da satanização da esquerda, também é marcante no reacionarismo o securitarismo, ou seja, a defesa da repressão policial e do endurecimento extremo das leis penais como política principal ou única de combate ao crime.

O securitarismo brasileiro, que também pode ser chamado de “doutrina penal do ódio”, trata criminosos civis como seres geralmente irrecuperáveis, “nascidos ruins”, que precisam ser retirados de circulação. Dá duas destinações possíveis para os presos: confina-os pelo máximo possível de tempo num ambiente prisional não dedicado à ressocialização ético-moral e profissional, ou mata-os com pena de morte extraoficial através das mãos e armas da polícia.

A doutrina securitária costuma ser regida pelas máximas “Bandido bom é bandido morto” e “Olho por olho, dente por dente”. Seus adeptos não se importam com a seletividade racista e elitista na “execução das leis” por parte da polícia, a qual trata as favelas e outras comunidades pobres como os “focos principais” da criminalidade urbana.

Ou seja, não ligam se a grande maioria dos exterminados pela polícia são negros pobres, enquanto brancos, em especial os ricos, costumam ser poupados da mira das armas policiais e têm chances muito maiores de serem livrados da cadeia.

Essa mescla de racismo e elitismo do securitarismo brasileiro, por sua vez, evoca o fato de que o reacionarismo brasileiro costuma discriminar e preconceituar pessoas negras e pobres. Marginaliza as identidades culturais das periferias urbanas, das pessoas adeptas de religiões de matriz africana, dos remanescentes de quilombos e dos povos indígenas. Trata-as como “indesejadas” e “inferiores” à cultura dos brancos de classe média da cidade grande.

Não é incomum, com isso, ver estilos musicais como o funk brasileiro, o rap e o hip-hop sendo tratados como “músicas de bandido”; religiões como o candomblé, a umbanda e a quimbanda sendo vistas como “cultos demoníacos” e tendo seus locais de culto depredados; jovens negros da periferia sendo tratados como se fossem criminosos em potencial – inclusive pela polícia, que não raramente os mata sob o pretexto de “resistência à polícia” –; entre outras manifestações desse racismo elitista.

Preconceitos como esse – que se soma ao machismo, ao heterossexismo, à transfobia, à intolerância religiosa etc. – não são problematizados, devidamente encarados como algo a ser eliminado da cultura, pelos reacionários. Pelo contrário, os movimentos sociais (como os movimentos negros, feministas, de pessoas não heterossexuais, de pessoas trans etc.) costumam ser por eles ridicularizados, hostilizados e acusados de “vitimismo” e “busca de privilégios”.

Um outro aspecto fundamental das crenças reacionárias é o ódio fanático ao PT e à esquerda. Como foi dito, a esquerda é demonizada e reduzida aos socialismos autoritários do século 20, de modo que as pessoas sintam medo dela.

Já o PT, por suas poucas políticas de inclusão social durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, como o Bolsa Família e as cotas sociais e raciais em vestibulares, costuma ser chamado de “comunista”, mesmo que há anos tenha aderido ao centro do espectro ideológico e, progressivamente, caminhado à direita.

É também acusado de ser o “único” ou “principal” partido político brasileiro com membros envolvidos em corrupção e/ou descaso governamental para com setores como educação, saúde e segurança. Não é difícil perceber que a intensidade dos ataques ao PT não tem razões altruístas, ligadas à busca da ética e da probidade na política, mas sim oculta interesses políticos pela elevação de algum partido de direita, entre eles o PSDB, ao poder, mesmo que por meios antidemocráticos.

Como explicado no artigo Por que o reacionarismo é um dos principais problemas sociopolíticos do Brasil, esse ódio político à esquerda e ao PT tem causado prejuízos ao panorama político-democrático brasileiro. Deixa-se de haver um debate racional e lúcido de ideias para se gastar energia defendendo-se de ataques altamente passionais e destrutivos que ameaçam radicalizar-se em violência física e defesa de “saídas” autoritárias para os conflitos político-ideológicos no Brasil.

Tendo em vista a problemática que o reacionarismo tem representado para os direitos e liberdades humanos, civis, políticos e sociais de dezenas de milhões de pessoas e para a democracia brasileira, o Consciencia.blog.br traz dúzias de artigos mostrando as contradições e abusos que se têm mostrado inerentes às manifestações da ideologia reacionária. E convida o leitorado à reflexão sobre os elevados riscos de se considerar as bandeiras de direita por ela defendidas “justas”, aceitáveis e desejáveis.

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Newton

setembro 28 2015 Responder

Os reacionários são aqueles que, ao ver um problema social, desconfiam da solução “revolucionária” de plantão (aumentar o poder do Estado para que ele corrija/proíba/financie) e, imaginando como as coisas reagem, se posicionam contra a concentração de poder nas mãos de uns poucos bem-iluminados que, supostamente, podem “corrigir” o problema. Reacionários são os caras que desconfiam de políticos.

Por isso, os reacionários eram considerados os inimigos das “revoluções” – esta palavra que soa tão agradável a ouvidos desacostumados com a História, que não percebem que toda “Revolução” contra tudo o que está aí resultou no poder absoluto nas mãos de um tirano que simbolizava o pensamento único: a Revolução Francesa decai em Napoleão Bonaparte depois do Terror, a Revolução Russa faz o poder do tsar parecer minúsculo perto de Lenin, Stalin, Kruschev, Andropov e afins, a Revolução Chinesa põe no poder Mao Zedong, que mata sozinho, por métodos que vão do fuzilamento à fome, mais de 70 milhões de pessoas, a Revolução Iraniana, idolatrada por Michel Foucault (que era gay), transforma o ocidentalizado Irã no totalitarismo fechadíssimo de R??oll?h Khomeini que enforca gays em praça pública. Todos estes tiranos odiavam os “reacionários” que avisaram: “não faça revolução, vai dar merda…” ”

F.M.

Régis

março 11 2015 Responder

Excelente texto. Oriento quem escreveu assinar.

    Robson Fernando de Souza

    março 11 2015 Responder

    Valeu, Régis =)

Roni Pereira

março 10 2015 Responder

Meu amigo, esse é um dos melhores textos de política que já li. E concordo em cada linha dele.

Abraço!

    Robson Fernando de Souza

    março 11 2015 Responder

    hehe Valeu, Roni =) []s!

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