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mar15

O reacionarismo não está “defendendo a democracia”. Ele é a própria ameaça à democracia brasileira

mentchyra-coxinha

Tem sido cada vez mais comum ver pessoas assumidamente reacionárias dizendo que “defendem a democracia”. Com essa alegada atitude, compartilham conteúdo de páginas de “revolta patriota” “contra a corrupção”. E vão às ruas quando esses sites mandam, para pedir ou o impeachment (ilegal, por ser, até o momento da publicação deste artigo, carente de provas formais) de Dilma Rousseff, ou uma “intervenção militar” golpista. Não percebem que não estão defendendo democracia nenhuma. Na verdade são eles mesmos, os reacionários, a ameaça em pessoa ao pouco que temos de regime democrático no Brasil.

O discurso deles é a contradição, o duplipensar do Partido do livro 1984, em sua mais crua essência. “Defende” a democracia sendo pesadamente autoritário; perseguidor; golpista; pró-ditatorial; censurador; militarista; avesso às liberdades humanas, sociais, civis e políticas da grande maioria da população brasileira. Essencialmente antidemocrático.

É comum ver reacionários “democratas” defendendo medidas obviamente autoritárias e avessas à democracia para se “solucionar” problemas como a precariedade da educação escolar, a capengagem da segurança pública, a pobreza que ainda castiga dezenas de milhões de brasileiros, o eterno estado “enfermo” da saúde pública e, sobretudo, a corrupção – especificamente do partido odiado, o PT.

Militarização do ensino, privatização do SUS, radicalização da violência policial – em especial contra jovens negros pobres –, revogação de políticas públicas de distribuição de renda (Obs.: link para texto irônico), repressão militar pesada contra movimentos sociais que vão às ruas e/ou lutam no campo, “abolição” da corrupção removendo-se apenas um partido do sistema político nacional, cassação do mandato presidencial de Dilma sem provas devidamente documentadas e confirmadas e sem o justo julgamento, golpe militar com um falso pretexto de “clamor popular” e “constitucionalidade”, restauração da ditadura civil-militar que tanto torturou e matou… Não se esgota a variedade de reivindicações que, sob a máscara da “salvação da democracia e da liberdade”, investem direta e explicitamente na destruição de ambas e na radicalização de uma ordem antidemocrática, excludente, violenta e enraizadamente corrupta.

A maior amostra disso foi vista no último 15 de março. Nas manifestações daquele dia, que eram metade carnaval reacionário, metade protesto de pessoas desavisadas, houve muito(s) notáveis pedidos por golpe militar, perseguição política explícita contra o PT e a esquerda e impeachment presidencial ilegal e injusto.

Isso além das demonstrações simbólicas ou mesmo físicas de violência, como agressões contra pessoas “identificadas” como “comunistas” ou “petralhas”, discursos de fazer fascistas sorrirem, enforcamento de bonecos representantes de Dilma e Lula, defesa do assassinato de ambos etc. E dos rompantes de misoginia contra Dilma, atacada por um número indeterminado de machistas não por sua alegada incompetência governamental, mas sim por ser mulher.

Nada disso, apesar de ter sido manifestações alegadamente de uma minoria radical, recebeu condenação e repreensão substancial da massa “não reacionária” que foi às ruas, exceto talvez em se tratando da rejeição dedicada a Jair Bolsonaro no Rio. O assombroso fantasma do autoritarismo político sentiu-se à vontade como não havia se sentido desde a primeira metade da década de 80.

E é preciso relembrar também a quase ausência de bandeiras que fariam muito mais serviço à democracia do que cassar o mandato de uma pessoa específica. Pouco ou nada se viu contra o Congresso comandado pelo PMDB – nem sequer contra o outrora tão odiado presidente do Senado Renan Calheiros, nem contra o “achacador” Eduardo Cunha, presidente da Câmara.

Nem contra o financiamento privado de campanhas eleitorais, considerado com razão uma das raízes da corrupção no Brasil contemporâneo. Nem contra os escândalos de corrupção protagonizados por não petistas, como o do metrô e trens metropolitanos de São Paulo, o do HSBC, os mensalões do PSDB e DEM, o “Helipóptero”, o “Aecioporto”, a sonegação fiscal multibilionária empreendida por grandes corporações, as farras nos poderes Executivo e Legislativo estaduais e municipais etc. Menos ainda contra a corrupção ética empreendida por diversas páginas reacionárias, como os Revoltados Online – um dos grupos organizadores desse “carnaval”.

Ainda menos a favor de providências mais profundas, como a reforma política, a expansão dos direitos políticos dos cidadãos e a maior participação de categorias como as mulheres, as pessoas negras e as classes trabalhadoras na representação legislativa e executiva.

Percebe-se que o crescimento desse protomovimento de direita, ao contrário do que a própria Dilma disse ao chamar o 15/03 de “fortalecimento” da democracia, representa uma ameaça ao precário regime democrático brasileiro. Essa percepção se justifica pelo fato de que manifestações calcadas na ignorância sócio-histórica, no analfabetismo político, no fanatismo, na obediência acrítica aos ditames de “gurus” ideólogos e na demanda por “soluções” autoritárias e conservadoras fazem muito mal, e não bem, à jovem – e imatura – democracia do país.

Essas características evidenciadoras da imaturidade da “consciência” política no Brasil são, todas elas, caras ao reacionarismo, como se costuma ver nas páginas da “direita revoltada”. Elas dependem centralmente, para não perder seu séquito de seguidores, de uma educação precarizada, aética, despolitizada, que estimula a obediência ao invés do livre pensamento, que consente e autoriza o preconceito e a intolerância, que “ensina” que cantar o hino nacional antes do início da aula é mais engrandecedor do que questionar os dogmas sociopolíticos fundamentadores da ordem vigente. Daí, fica claro, é que surgem os cartazes e faixas contra a “doutrinação marxista”, a “ideologia de gênero” e o “kit gay”.

Esse ensino que forma robozinhos ideológicos e laborais ao invés de cidadãos conscientes dá à mídia e aos sites reacionários “contra a corrupção” a oportunidade de ouro de fomentar paixões políticas fanatizadas e intolerantes. E a propagação de emoções desse tipo, ainda mais quando acompanhadas de preconceitos e ódios diversos, só podem mesmo causar danos à democracia, nunca edificá-la.

Precisamos, diante de tal contexto político, reconhecer que o reacionarismo é, por si mesmo, uma das grandes ameaças à democracia brasileira, por mais que ele se autoarrogue “defensor” da mesma. Se essa tendência movida por ódio, ignorância e fanatismo continuar crescendo desimpedidamente, sem um contraponto firme dos movimentos de esquerda e mesmo de quem não se identifica com a esquerda mas (sic) preza pelo republicanismo democrático, não teremos um futuro promissor para o sistema democrático do país, muito pelo contrário.

Por isso, o protomovimento reacionário que foi às ruas em 15/03 precisa ser visto exatamente como aquilo que ele é: um dos principais problemas sociopolíticos do Brasil contemporâneo, um perigo explícito e direto para a democracia. Isso pode ser feito, desde já, desmascarando-se as páginas “anticorrupção” das redes sociais, revelando-se seus verdadeiros propósitos. Outras medidas possíveis, que evitem reagir com violência contra quem precisa de esclarecimento e conscientização, precisam ser debatidas o quanto antes.

Abaixo, três vídeos que exemplificam como o reacionarismo bagunça o que deveria ser a democracia; no caso do segundo vídeo, ainda luta para aboli-la e, no do terceiro, age como o autêntico fascismo:

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