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mar15

Sobre o costume da mídia conservadora de não convidar à reflexão sobre os porquês do terrorismo e das opressões e conflitos
"Quando eu estalar os dedos, você vai crer que protesto de trabalhadores é coisa de vagabundo, só serve para atrapalhar o trânsito e não tem razão de acontecer, e que a solução para o terrorismo islâmico é intervenção militar americana e nada precisa ser esclarecido sobre suas origens histórico-políticas."

“Quando eu estalar os dedos, você vai crer que protesto de trabalhadores é coisa de vagabundo, só serve para atrapalhar o trânsito e não tem razão de acontecer, e que a solução para o terrorismo islâmico é intervenção militar americana e nada precisa ser esclarecido sobre suas origens histórico-políticas.”

Uma das características mais notáveis da mídia mainstream brasileira, claramente conservadora em ideologia, é abordar de maneira rasa e tendenciosa fenômenos como as opressões e conflitos sociais e o terrorismo. É fácil perceber que ela não convida sua audiência a pensar e/ou procurar saber por que acontecem, por exemplo, greves, protestos de rua empreendidos por classes sociais desfavorecidas, ações de depredação de bancos e outros símbolos capitalistas e ações terroristas de grupos extremistas.

Isso se vê sempre que um telejornal noticia, ou mostra ao vivo, uma manifestação de rua de trabalhadores, uma greve de professores, a ação de adeptos da tática black bloc revidando contra a repressão policial e depredando bancos, ameaças de greve geral etc. Também é notado quando se fala de atentados terroristas, como o realizado contra a sede do pasquim francês Charlie Hebdo e o massacre cometido pelo extremista cristão Anders Breivik na Noruega.

A imprensa não induz quem a lê, assiste ou ouve a pensar nas razões que levam trabalhadores a cruzar os braços e/ou ir às ruas protestar. Também estimula o desconhecimento sobre por que grupos terroristas, como o Estado Islâmico, o Boko Haram, a Al-Qaeda e o Exército de Resistência do Senhor, existem e são tão cruéis.

Omite-se, maliciosamente, que aquela manifestação contra o aumento das passagens é uma expressão da revolta de parte da população contra a falta ou fraqueza de políticas de valorização e conversão em direito básico do transporte público. É uma extravasão da indignação perante o fato de que, por causa dessa política anticoletiva de transporte, tem se tornado menos custoso e desconfortável recorrer ao carro do que usar regularmente ônibus, metrô e trem.

O mesmo se aplica às ações dos black blocs. Para a mídia, eles são uma espécie de “rebeldes sem causa” extremistas, que agem por ódio. É como se não houvesse, entre as razões de eles reagirem à PM e depredarem bancos, a luta contra o esmagador e homicida poder do capitalismo e do aparelho militar de repressão.

E no caso do terrorismo e do fundamentalismo islâmico e cristão, negligencia-se as raízes históricas e políticas da sua gênese. Esconde-se, por exemplo, que há indícios de que os EUA já colaboraram, no passado, para o desenvolvimento da Al-Qaeda, do Talibã do Afeganistão e do Estado Islâmico, assim como favoreceram o surgimento e ascensão de outros grupos fundamentalistas islâmicos.

Esconde-se também que o fanatismo cristão também gera seus extremistas e terroristas, como o norueguês Breivik e o ugandense Joseph Kony, a partir do ódio assassino a quem é diferente – como, no caso do extremismo cristão europeu, as populações imigrantes muçulmanas que vêm da África e do Oriente Médio.

O que costuma acontecer, ao invés, são noticiários criticando as manifestações de trabalhadores porque “está atrapalhando o trânsito” e “perturbando a ordem pública”. Ou condenando energicamente os atentados terroristas, tratando-os como se não tivessem um porquê e contexto político-históricos no fundo, e às vezes influenciando a audiência a concordar com intervenção militar por parte dos EUA em países com o Iraque, o Afeganistão, a Síria e o Irã para “combater o terror” – mesmo que isso só vá piorar o terrorismo paramilitar no mundo.

Essa omissão mostra que a imprensa pretende que as pessoas que a acompanham não pensem, não se perguntem. Mas sim que apenas aceitem o que ela diz, como se fossem verdades cujo questionamento seria “imoral” e “absurdo”. Por isso, não digamos amém para a mídia quando ela fala de greves, protestos e ações terroristas de maneira rasa e nos tentando induzir a determinadas opiniões conservadoras, antidemocráticas, antipopulares e militaristas. Questionemos, usemos a razão nessas situações.

imagrs

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Tarantino

agosto 6 2015 Responder

Muito bonito todo esse discurso. Obviamente TUDO tem uma causa.

O que não justifica a morte de inocentes que não têm nada a ver com a história e suas razões. Ou vão querer colocar a culpa neles?

Quer dizer que ser contra a morte de inocentes é ser reacionário e conservador?

Seu texto abre um precedente perigoso, que é a relativização e justificativa de atos terroristas.

Quando não existe justificativa para algo, o homem simplesmente inventa alguma.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo