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Sobre o protesto de direita de hoje, que exige impeachment ilegal contra Dilma
O protesto tem gente de direita como protagonistas, mas não é muito razoável crer que 100% dos manifestantes são reacionários de classe média-alta interessados em derrubar Dilma por meios ilegais

O protesto tem gente de direita como protagonistas, mas não é muito razoável crer que 100% dos manifestantes são reacionários de classe média-alta interessados em derrubar Dilma por meios ilegais

Hoje está sendo o dia dos famigerados “protestos coxinhas”, que pedem sobretudo pela derrubada ilegal de Dilma Rousseff da presidência da república, por via de um impeachment desprovido de provas formais do hipotético envolvimento dela com crimes de responsabilidade. Hoje a esquerda está dividida entre desprestigiar as manifestações e perceber que nelas, apesar das reivindicações ilegais e da atmosfera golpista, há uma fundamentação real para a insatisfação de parte dos manifestantes. E o Consciencia.blog.br emite sua opinião sobre o que está acontecendo nesta tarde.

Eu me considero do pessoal que, além de obviamente recusar fazer parte desses protestos, os vê como uma tentativa de fazer a direita assumida derrubar a direita enrustida (PT) por meios contrários ao fair play político e adversos às regras estabelecidas da democracia. Mas não sou do tipo que vê tal manifestação como algo 100% vazio de razões calcadas na realidade.

Se deixarmos as paixões políticas de lado, vamos perceber que, ao contrário do que tem aparentado, esse evento que tem sido chamado de “carnaval reaça” não tem a participação  exclusiva de adeptos de delírios macartistas, autoritários, golpistas e de anticorrupcionismo seletivo e interesseiro. Nem todo mundo ali está participando como submissas marionetes de grandes empresários, da mídia conservadora e de políticos diretamente interessados na situação atual de instabilidade do panorama político nacional.

Há de fato pessoas que, com razão, estão insatisfeitas com a mediocridade com a qual Dilma tem governado. Não por ela fazer, como dizem os reacionários, um governo “esquerdista” “bolivariano” que “faz mal aos cidadãos de bem” e deve ser deposto por impeachment ou golpe militar, ou ser “a culpada” pela endemia de corrupção no país. Mas sim porque ela e sua equipe têm carecido seriamente da habilidade, da personalidade e da força para vencer a atual crise e devolver o país à situação de estabilidade que gozava no segundo mandato de Lula.

Essa inépcia ficou bem clara no discurso que a presidenta fez no domingo passado. Ela deixou óbvio que a população está sendo forçada, por tempo indeterminado, a sacrifícios econômicos (aumento de impostos, juros, tarifas de energia e preços dos combustíveis) e sociais (cortes de direitos trabalhistas e dos investimentos em educação) que, por outro lado, não estão sendo impostos aos grandes empresários, menos ainda aos bancos. E não consegue encontrar uma solução que beneficie a economia e a faça resistir ao cenário internacional de instabilidade ao invés de mergulhá-la numa recessão supostamente necessária para fazer o país voltar, em seguida, a “crescer”.

Não são apenas delírios reacionários que estão levando as pessoas para as ruas hoje. Há de fato uma insatisfação bem fundamentada, sentida por muita gente, que não dá simplesmente para se reduzir à qualidade de “mimimi coxinha”.

Porém isso não justifica que se consinta participar de um protesto que sabidamente pede por “soluções” claramente ilegais, superficiais, cosméticas e autoritárias para a crise política e econômica atual. O que está acontecendo, por parte dos que não são necessariamente coxinhas/tucanos/golpistas, é um fenômeno similar ao que aconteceu em junho de 2013.

Não estão sabendo externalizar seu protesto, comunicar ao Brasil de maneira realmente politizada e consistente o que estão sentindo diante de um governo tão fraco. E encontraram nos protestos de hoje uma oportunidade, ainda que muito imprópria, de manifestar sua insatisfação. Daí vão às ruas, em alguns casos pela segunda vez, com pautas vazias e genéricas, desprovidas de objetivos e metas, como “Basta de corrupção” e “Basta de inflação e aumento de impostos”.

E hoje, nessa ocasião adversa a um protesto que vá honestamente pedir por mudanças positivas, essas pessoas correm o risco de serem ideologicamente cooptadas pelos formadores de opinião de direita que estão puxando as manifestações. Como não receberam uma educação cidadã-política decente, correrão o risco de cair fácil na lábia dos “revoltados”, “lobões” e “libertários” da vida, associar tudo o que está acontecendo de negativo a Dilma e ao PT e acreditar que tudo se resolverá apenas trocando a pessoa chefe de Estado.

Eu vejo, com isso, os protestos de hoje em parte como um “carnaval” de reacionários, em parte como a frágil oportunidade que alguns insatisfeitos pouco familiarizados com discussões políticas maduras têm encontrado para externalizar seu descontentamento para com o que está acontecendo em Brasília.

E defendo que a esquerda, ao invés de jogar todo mundo ali na caixa de coxinhas, aproveitasse o momento para perceber, ainda mais apuradamente, como o governo Dilma tem sido realmente medíocre e inábil, por mais que não mereça um impeachment, menos ainda uma “intervenção militar”. E relembre o quanto faz falta um protesto verdadeiramente de esquerda que não seja nem 13, nem 15, nem 45 e vá fazer o que tem sido prometido desde o resultado das eleições presidenciais do ano passado – cobrar rigorosamente que Dilma passe a respeitar seu descumprido e descartado programa de governo de esquerda.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Alex

março 17 2015 Responder

Tenho ouvido muita gente falando dos protestos como se fosse uma tentativa de golpe, clima de campanha, mau-perdedorismo ou qualquer outro argumento para desmerecer uma manifestação democrática, que não tem nada de errado.
Então, sem demagogia ou enrolação, pra não ficar em questão de opinião, vamos aos fatos:
1) Dilma mentiu muito
2) inflação em alta
3) desemprego em alta
4) corrupção institucionalizada (PT, PMDB, PP) da base do governo
5) gestão política na Petrobras um desastre
6) credibilidade zero
7) aumento dos impostos
Isto são fatos!! O povo está reclamando com motivo, não é coisa de “coxinha”, psdebista enrustido ou má vontade com a presidenta.

Fernando

março 17 2015 Responder

O que seria uma educação cidadã-política decente?

É decente, por exemplo, dizer que é feio roubar, mas ensinar que há um ente (o estado) que pode fazer isso, chamando isso de imposto? E que, se a gente não compactua com ele, nós é que estamos errados e estamos “sonegando” o estado desse “direito”?

É decente, por exemplo, dizer que a gente não tem que querer cuspir regras na vida dos outros, mas dizer que há um ente dentro da sociedade (o estado) que pode fazer isso, sem que tenha celebrado contrato algum com qualquer pessoa?

Essas platitudes bobinhas que não se aplicam a todo mundo (cadê a “igualdade”?) não me enganam.

Nathalie

março 16 2015 Responder

Concordo, vi em entrevistas pessoas protestando contra algumas coisas que não eram necessariamente a pessoa da Presidente ou o partido dela. Seguravam faixas contra Inflação, Baixo Crescimento Econômico, Impostos Altos, etc, como disse o texto. Mas persiste a polarização, a forte militância petista, por receio dos governos voltarem a épocas anteriores, em que eles eram quase nada distribuidores de renda, coisa que o atual governo se mostrou ser mais do que outros. É o máximo comunista que o Brasil chegou a ser até hoje, é como se quisessem dizer: não haverá retrocesso, vamos partir no mínimo daqui, nunca mais atrás.

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