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abr15

Bandido bom não existe

bandido-bom-morto

Obs.: Leia o texto antes de prejulgá-lo pelo título.

por Leide Fuzeto Gameiro

Bandido bom é bandido morto.  Acho que já disse que essa frase me irrita. Primeiro pela falta de lógica. Para ser bandido é preciso estar vivo, morto ninguém é nem bandido, nem bom e nem mau, é só morto. Segundo pelo simplismo que ela encerra, reduzindo tudo erroneamente à uma questão entre bem e mal. Terceiro pela carga ideológica que ela traz. As pessoas saem repetindo sem perceber que uma frase pode representar toda uma ideologia que não representa seus verdadeiros interesses.

Vamos lá então ao primeiro ponto. Para ser coerente deve-se desejar não bandidos bons e sim que não existam bandidos. Matar os bandidos existentes não faria com que eles deixassem de existir, muito pelo contrário, nos nivelaríamos todos  e nos tornaríamos todos bandidos. Se repudiamos os bandidos por sua violência que nos ameaça, é contraditório querer resolver o problema fazendo parte dele. Para nos livrarmos dos bandidos precisamos parar de produzi-los. Aí entra o segundo ponto.

A bandidagem não é uma questão de maniqueísmo. A sociedade não está dividida entre pessoas boas e pessoas más, onde as primeiras são vítimas da segundas. É bem mais complexo que isso. A sociedade é resultado de uma longa construção. O que somos, o que pensamos, o que fazemos, reflete a sociedade em que vivemos.

Se a criminalidade aumenta à cada dia e a violência se banalizou tanto a ponto de a imagem de uma pessoa sendo baleada ser vista com prazer, algo está errado com todos nós e não com uma parcela da população. Descobrir o que está errado implica em estudar, entender, abrir a mente e não ficar repetindo frases feitas. Pois só poderá haver mudanças se enxergarmos o que de fato deve mudar.

Eliminar indesejáveis é uma prática recorrente de quem detém o poder e defender isso é colocar uma corda no próprio pescoço. O terceiro ponto é justamente esse. Repetir frases como essa é aprovar xenofobia, antissemitismo, racismo… Pois em nome de ideais higienistas já se praticou e continua-se praticando extermínios motivados por preconceitos e poder.

Quando se fala em matar bandidos está implícito quem são esses bandidos, que tipo de bandidagem estará sendo expurgada. Acumular dinheiro à custa da exploração de outros, por exemplo, não é classificado como bandidagem nessa cruzada moral, mas causa muito mais danos que o roubo de uma carteira. “Que é roubar um banco em comparação com fundar um banco?” – Bertolt Brecht.

Então não adianta se indignar com assaltos à mão armada e continuar sendo assaltado por quem te explora de todas as formas. Não adianta pedir o sangue de quem derrama sangue nas ruas e continuar doando o teu de cabeça baixa. Os bandidos que você quer matar já estão mortos. São meros produtos de uma máquina insana que chamamos de sociedade.

É preciso matar a bandidagem dentro de todos nós. A bandidagem de não querermos enxergar, a bandidagem de nosso comodismo e de nosso pseudo conforto. Não existem bandidos bons. Existem bandidagens aceitas como coisas boas expressas por frases de pessoas de bem.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Josoé

abril 18 2015 Responder

Comentário grosseiro apagado. Venha argumentar com respeito a mim e a minhas e meus parentes, ok? RFS

Eber Ivo

abril 7 2015 Responder

Muito bom raciocínio. Pena que não posso compartilhar.

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