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abr15

Cem bilhões de smartphones em funcionamento em 2020: saiba por que isso é muito preocupante

celulares-lixo

Um levantamento das companhias Alcatel Lucent e Dell revelou algo preocupante: daqui a apenas cinco anos, em 2020, haverá nada menos que 100 bilhões de smartphones em funcionamento conectados à internet no mundo. A informação, dada pelo site Mundo Bit, do portal pernambucano NE10, causa vertigem não só pelo inimaginável número de aparelhos, mas também pelo impacto ambiental e por refletir a radicalização da cultura capitalista materialista (de supervalorização moral da posse de bens materiais) e consumista ao redor do planeta.

Esse número, presume-se, exclui todo o lixo que será gerado nos próximos cinco anos de smartphones e celulares convencionais inutilizados, assim como não considera os celulares convencionais que ainda estarão em funcionamento. Isso tem implicações graves em diversos aspectos da realidade socioambiental.

O impacto ambiental de tamanho número de produtos é esmagador. Além do mais óbvio, que é a frenética produção de lixo eletrônico não reciclável – não se sabendo o que passará ou não a ser reciclável nesses próximos anos – e poluente, também implica-se o uso intensivo de derivados do petróleo como matéria-prima e a demanda pelos chamados metais raros.

Entre esses metais, está a liga chamada coltan, cuja extração envolve a superexploração trabalhista de mineiros, obrigados a trabalhar sob a mira de fuzis, e o massacre de gorilas e elefantes em países africanos como a “República Democrática” do Congo, como essa matéria da ANDA – Agência Nacional de Direitos Animais denunciou alguns anos atrás. Segundo a matéria, redigida por mim:

Os métodos de extração são rudimentares e promovem profunda exploração humana. São camponeses, prisioneiros de guerra, refugiados de guerra e crianças que extraem columbita e tantalita, sempre vigiados por militares. Os resultados são a vedação do direito das crianças à escola, mortes por desabamentos de túneis, doenças por falta de água limpa, saneamento e alimento, a disputa de grupos armados por cada mina, mortes de crianças (estima-se que cada quilo de coltan implicou a morte de duas crianças), transformação de bosques e campos agrícolas em lodaçais, desalojamentos forçados, violação de mulheres e meninas etc.

As consequências ambientais também são alarmantes: para a extração de coltan, invadiu-se parques ecológicos nacionais da República Democrática do Congo, e matou-se 80% da população de elefantes e 90% da de gorilas do país, levando suas população quase à extinção local.

O Tecnoblog divulgou, no ano passado, as constatações de um estudo conduzido pela Universidade de Yale:

As descobertas são perturbadoras. Quase todos os tipos de metal são utilizados pela indústria atualmente – 62, para ser mais exato. A maioria deles até pode ser substituída, mesmo que por metais mais abundantes, mas nenhum substituto consegue oferecer níveis de eficiência equivalente. Além disso, doze tipos de metais simplesmente não podem ser trocados por nenhum outro material.

Como se não bastasse, há chances de estes números serem piores porque, para entender exatamente como e em quais quantidades todos os elementos são utilizados, os pesquisadores teriam que ter acesso amplo aos laboratórios dos fabricantes, que obviamente resistem à ideia para evitar vazamento de segredos.

É claro que os elementos em questão são empregados em qualquer tipo de aparelho (sem contar aqueles que não são elétricos ou eletrônicos), mas o problema afeta sobremaneira telefones celulares e afins porque a indústria utiliza muitos metais raros nestes dispositivos.

Essa produção supermassiva de smartphones é simplesmente insustentável, do ponto de vista socioambiental. E reflete que a cultura do culto aos bens materiais está se tornando cada vez mais absurda.

Não é preciso quebrar a cabeça para perceber que 100 bilhões de celulares, para uma população mundial de menos de 8 bilhões de seres humanos, implica em torno de 13 aparelhos por indivíduo humano. E é óbvio perceber que nenhum ser humano precisa ter ao mesmo tempo 13 celulares – basta um para usar a internet, fazer ligações, ouvir música, assistir a vídeos e acessar outras facilidades permitidas pelo smartphone.

Mas a cultura capitalista do consumismo está fazendo com que centenas de milhões de pessoas, em especial dos ditos países “desenvolvidos” e dos “emergentes”, sintam uma artificial necessidade de gastar tanto dinheiro para possuir tantos celulares de uma só vez, mesmo que no final das contas use apenas um por vez e carregue no máximo três nos bolsos e/ou na bolsa. Isso sem falar nas empresas, que também estão empregando um número absurdo de aparelhos eletrônicos nem sempre estritamente necessários.

É de se pensar também no fato de que a cultura capitalista está induzindo muitas pessoas a preencherem eventuais vazios existenciais – de não conseguir elaborar projetos de vida, de não saber autoestabelecer um objetivo para sua vida no mundo, de procurar sem muito sucesso uma fonte de felicidade e satisfação etc. – com a posse material. O indivíduo consumista sente-se temporariamente “realizado” quando vai às compras e adquire aquele smartphone “maneiro” e “de última geração”, perdendo esse sentimento de satisfação poucos dias ou mesmo horas depois e sentindo a necessidade de comprar mais, tal como se fosse usuário de drogas pesadas.

Além disso, têm sido decisivas, para esse gasto perdulário de recursos minerais e o esmagamento das pessoas envolvidas na fabricação de smartphones, a baixa durabilidade e a obsolescência programada dos aparelhos. Acredita-se que hoje quebram com muito mais facilidade do que, por exemplo, os celulares Nokia do começo da década de 2000. Uma pequena queda já deixa em frangalhos o display de um smartphone e corre o risco de danificar a estrutura interna do mesmo. As peças muitas vezes são caras demais para fazer valer a pena consertar o aparelho ao invés de comprar um novo.

E o pior é que muitos aparelhos, senão todos ou quase todos, praticamente têm um prazo de validade oculto. A partir de determinada época, erros de arquivo e de sistema, reinícios automáticos, falhas de recarga de bateria etc. começam a ser comuns no smartphone, e pouco parece estar sendo investido em baterias duráveis em carga e em vida útil. Também é um risco relevante o sistema operacional do celular usado pelo indivíduo tornar-se obsoleto e não mais suportado pela indústria de software, obrigando-o a comprar um celular novo, como ocorreu com o sistema Symbian, da Nokia.

De fato, quando colocamos tudo isso em consideração, percebemos que as empresas e suas publicidades têm uma enorme responsabilidade pelo que está acontecendo. E observamos que o capitalismo, como se conhece hoje, não é compatível com a oferta planetária de recursos naturais, nem com a qualidade de vida humana. Pensemos nisso quando formos comprar aquele smartphone novo bacana.

imagrs

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Ronaldo

abril 11 2015 Responder

Meu x2-01 já não consegue publicar nenhum comentário no Blogger e nem consegue acessar meu e-mail no Gmail! Quando procuro acessar o Gmail, lá informa que meus navegadores já não são compatíveis com a plataforma deles (desde o início de 2015)! Então, fui em uma lan-house e descobri que meu e-mail foi invadido e encheram de anexos nos arquivos que lá estavam.
É, caro Robson, procuro estudar a fundo o que é fundamental e o que é supérfluo. Muitas empresas já declararam que meu celular está obsoleto! É como você diz: é um consumismo acéfalo! A cultura que está em moda é a do lixo, do esgoto e do cemitério (descartáveis).

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