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abr15

O duplo sentido do poema de Sérgio Vaz “Lugar de criança é presa na escola”
escola-x-cadeia

Tirando a parte do sexo, a imagem nos diz muito sobre aquilo que chamamos de educação escolar

 

Encontrei no Facebook o seguinte poema, escrito pelo Poeta Sérgio Vaz:

LUGAR DE CRIANÇA É PRESA NA ESCOLA

Sou a favor do aumento da maioridade escolar.

Isso mesmo, lugar de criança é presa na Escola (das 8h às 17h) e sendo torturada por aulas de matemática, Português, Ciência, Música, Teatro, Geografia, Química, Física… ou Tomando banho de sol enquanto fazem Educação Física.

Quando elas começarem a criar asas, tranca-las na biblioteca para aprenderem a lapidar sonhos.

Nessa cadeia os professores com super salários, super treinamento, super motivados não deixaram nada, nem ninguém escapar da castigo da sabedoria. Serão tempos difíceis para a ignorância.

Depois de cumprirem pena e se tornarem cidadãos terão liberdade assistida… Pelos pais orgulhosos.

Sergio Vaz

Apesar de não parecer para muitas pessoas, as quais nutrem uma romântica confiança no modelo de escola e ensino existente hoje, o poema é bem polêmico e dele pode ser extraído, interpretavelmente, um esperto duplo sentido – sendo polêmico inclusive nos dois sentidos opostos.

Ele pode ser interpretado de duas maneiras:

– sendo uma literal apologia ao atual modelo prevalecente de escola como esperança das crianças e adolescentes, exaltando o ensino de hoje como se fosse realmente algo louvável, uma “prisão do bem” a ser apreciada e incentivada. Nesse sentido, seria “bom” o jovem estar “preso” na escola, assistindo às aulas, obedecendo às normas disciplinares da instituição, lendo às vezes compulsoriamente na biblioteca, enfim, cumprindo alguns anos numa espécie de “sanção penal boa” para que saia como cidadão formado pronto para interagir com o mundo;

– sendo uma criativa ironia, comparando propositalmente a escola de hoje com uma cadeia, o atual modelo hegemônico de ensino como algo que compartilha angustiantes semelhanças com o sistema prisional. Nessa interpretação, a escola é uma espécie de prisão não criminal, um espaço de dominação de crianças e adolescentes, tal como o filósofo Michel Foucault denunciou no livro Vigiar e Punir.

Nessa interpretavelmente ironizada escola-cadeia, as aulas são uma verdadeira tortura. Nelas, parte dos professores dão aulas monótonas, maçantes e autoritárias. Ministram conteúdo que em sua maioria, no final das contas, não vai ser aproveitado e utilizado no dia-a-dia, nem no trabalho, pelos jovens depois que se tornarem adultos. São aulas nas quais os alunos se sentem aprisionados, submetidos a controle e forçados a prestar atenção de modo a absorver/memorizar o conteúdo e tirar boa nota nas provas que virão.

Mesmo a Educação Física, que poderia ser tida como prazerosa para quem gosta de esportes caso fosse ministrada de forma lúdica, pode às vezes, a depender do docente, do modelo didático usado e das condições ambientais e estruturais das aulas, ser um estorvo, uma obrigação a ser amargamente engolida. Que o digam crianças e adolescentes com baixa inteligência corporal-cinestésica, que preferem aprender Física, ou História, ou Biologia, ou Música, ou Artes Plásticas, a Educação Física. Com isso, essa disciplina acaba, para muita gente, sendo semelhante ao banho de sol das penitenciárias – algo que satisfaz a necessidades biológicas mas não é nada prazeroso.

Mesmo a biblioteca pode ser um espaço de coerção, de sufocante obrigação. Idealmente a leitura deveria ser algo incentivado desde cedo, tratada como algo lúdico, que junta excelentemente o útil com o agradável. Mas em muitos lugares ela ainda é usada como instrumento de punição. Nesse esquema, alunos podem ser “condenados” a ler um determinado livro, como se isso fosse uma penalidade “edificativa”.

Acha-se que o jovem punido está, ao mesmo tempo, cumprindo sua pena disciplinar e aprendendo a gostar de ler. Mas o que pode estar acontecendo na verdade é que ele está sendo induzido a encarar a leitura como um fardo, algo amargo que é associado não ao prazer da espontaneidade, mas sim à punição, à obrigação. Algo visto como uma violência sutil exercida por uma ou mais autoridades. Nisso formam-se não novos leitores, mas sim pessoas que odeiam ler e, com isso, são mais vulneráveis à influência ideológica de formadores de opiniões reacionários.

Situação similar é o jovem se obrigar a ir à biblioteca estudar para as provas. Nisso, a leitura dos livros é associada à obrigação, a uma situação na qual, se não houver uma leitura estrita e a resolução de exercícios, haverá consequências perniciosas, causadoras de sofrimento. Daí tanto a leitura acaba sendo privada de qualquer possibilidade de ser atraente por si só, como a prova deixa de ser uma maneira de avaliar conhecimento e incentivar um aprendizado melhor para se tornar mais um instrumento de imposição de medo e controle e de indução a exercícios de memorização temporária de informação.

Nesse contexto, o ensino nada mais é do que uma transmissão de informações, dados que podem ora ser absorvidos pelos cérebros dos jovens, ora ser perdidos e esquecidos. Pouco é convertido de informação a conhecimento.

E dada a desconexão e descontextualização de muito que é ensinado – pela famigerada educação bancária, teorizada por Paulo Freire -, apenas uma fração desse conhecimento é convertida em sabedoria, em algo a ser aplicado na vida cotidiana e profissional de modo a tornar a vida das pessoas mais leve, fácil e feliz. Daí o cultivo da sabedoria na escola se torna um mero mito, tal como hoje é rebaixada a algo irrealizável a regeneração ético-moral de detentos nas penitenciárias brasileiras.

Depois de cumprirem pena, de forma quase literal, durante mais de uma década, os adolescentes concluem o ensino médio e passam para o modo de “liberdade assistida”. A disciplina das escolas é substituída pela obediência à moral vigente e a leis nem sempre criadas para proteger os direitos dos seres (humanos ou não) e zelar pela ética. O Estado, por meio da polícia e do poder judiciário, está de olho em cada pessoa – a não ser aquelas que, endinheiradas, podem pagar por bons advogados e se safar de serem punidas por seus crimes -, inclusive criminalizando liberdades que teoricamente são garantidas pela Constituição Federal.

Os jovens saem da escola não como pessoas entusiasmadas a aprender cada vez mais, como seres pensantes que questionam aquilo que consideram contraditório ou impróprio e que lutam por um mundo mais justo e inclusivo. Pelo contrário, concluem o ensino como seres controlados pela obediência, pelo atendimento incondicional à moral vigente – mesmo que essa moral seja aética (ou mesmo antiética em muitas situações), violenta, preconceituosa, hierarquista, discriminatória e excludente.

Saem da “linha de produção” como seres passivos e obedientes “fabricados” a gosto da ordem vigente, quase como a infeliz propaganda feita pelo Governo do Rio de Janeiro em 2014. E tendo em vista isso, muitos cometem crimes influenciados por essa moral que naturaliza a violência e o desapego à ética.

Tendo em vista essa tradição de escolas serem prisões e mesmo assim serem vistas por muitas pessoas como “a esperança” da sociedade, o poema de Sérgio Vaz pode ser utilizado com dois propósitos bem distintos. Por um lado, pode ser ingenuamente usado para ilustrar essa esperança de que a escola, mesmo funcionando de forma parecida com uma cadeia, vai de fato formar pessoas “melhores” comprometidas em construir um mundo melhor para todos os seres. Por outro, pode retratar justamente essa ingenuidade, criticando-a de forma sutil, e, ao mesmo tempo, denunciar o absurdo que é o fato de a educação escolar no Brasil e em outros países ser algo tão semelhante a uma prisão, com sua estrutura autoritária e às vezes totalitária.

Lendo o poema, me sinto convidado – e talvez você também se sinta – a pensar: é essa a educação que pretende “salvar o Brasil” e “formar” seres humanizados, e na qual tanta gente nutre românticas esperanças?

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Valdir Davi

abril 3 2015 Responder

Desde que comecei a perceber a verdade sobre as escolas me preocupo muito, por isso resolvi criar um Blog que trate sobre o assunto e exponha de forma simples a realidade que hoje vivem os alunos e professores.
Blog: http://www.escolaaosavessos.com.br

Roberta

abril 1 2015 Responder

Arte que incomoda, provoca. Arte que faz pensar. Arte que abre discussão.

Gratidão pela reflexão.

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