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abr15

Nada mais antiquado, urbanisticamente falando, do que a “cidade grande moderna”

cidadegrande

Por muito tempo, o modelo de cidade centrado em avenidas, incontáveis carros, edifícios enormes e futuristas, densidade urbana esmagadora, poucos traços de verde e destruição sistemática de prédios antigos foi aclamado como a apoteose da modernidade. Mas hoje vemos o quanto isso é antiquado e incompatível com a qualidade de vida humana. Em outras palavras, a “cidade grande moderna” é algo ultrapassado que precisa ser superado o quanto antes.

Esse argumento se dá por duas razões: seu caráter de “modernidade” já passou do prazo de validade, e houve ali um retumbante fracasso na tentativa – se é que houve alguma tentativa nesse sentido – de superar tradicionais vícios que tornam a cidade um espaço que contrasta privilégios e exclusão social.

O “moderno” desse modelo urbano expirou muito rapidamente. Bastaram poucas décadas para que a parte mais pesada das suas consequências sociais e ambientais fosse esmagadoramente sentida pela população – principalmente pelas classes populares.

Ao invés de favorecer e aumentar a qualidade de vida, a “cidade grande moderna” acarretou a queda drástica na mesma. Poluição, supressão de áreas verdes, aberrações viário-arquitetônicas (como o Minhocão em São Paulo e a avenidas Dantas Barreto e Via Mangue em Recife), multiplicação quase cancerosa de carros nas ruas e avenidas, radicalização da cultura do egoísmo e das relações humanas agressivas e violentas, eliminação dos espaços de diversão infanto-juvenil ao ar livre, recrudescimento da criminalidade, superprodução de lixo e esgoto, destruição deliberada de patrimônio histórico… São incontáveis as consequências do “amadurecimento” desse tipo de urbe.

Tudo isso enquanto permaneceram fortes pontos negativos milenares da cidade. Parte do antigo otimismo da modernidade urbana desmoronou quando se percebeu que a estratificação social nas cidades não só permaneceu forte, como se radicalizou ainda mais.

Nunca tinha havido na história humana, nem mesmo em capitais imperiais, como Roma, Nínive, Délhi, Tenochtitlán e Kyoto, moradias tão precárias e qualitativamente distantes das classes altas quanto as favelas dos países “em desenvolvimento”. Mesmo os guetos e bairros pobres de cidades de países “desenvolvidos” mantêm a tradição das cidades da Antiguidade e da Idade Média de relegar as classes mais pobres ou castas mais “inferiores” a moradias menos que modestas.

Por outro lado, permaneceu intocada a tradição de pessoas da elite política, econômica e/ou religiosa morarem em palácios suntuosos, mansões exuberantes ou apartamentos superluxuosos. Os ricos de hoje gozam de uma vida materialmente muito mais opulenta do que os nobres do passado, com uma vastidão de objetos eletrônicos, a possibilidade de viajar de avião pelo mundo quase que livremente e um leque muito maior de outras possibilidades a serem viabilizadas pela posse de uma vasta riqueza financeira.

Nessa tradição a “cidade moderna” não tocou, em se tratando de desconstruí-la. Pelo contrário, só piorou o contraste, tanto visual quanto de qualidade de vida, entre pessoas ricas e pessoas pobres, entre dominantes e dominadas.

Esses são alguns motivos pelos quais a “cidade grande moderna” é um paradigma urbano ultrapassado e deve ser desmontado. Fica o desejo de que a tradição urbana sucessora seja muito mais humana, ecológica, inclusiva e igualitária, acabando tanto com as perniciosas consequências daquele modelo urbano metropolitano quanto com vícios milenares, dos quais a estratificação social do espaço é o mais conhecido.

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Ronaldo

abril 11 2015 Responder

Há limite para tudo, inclusive para o crescimento das cidades. Acho que estas cidades com alta concentração de pessoas por m2 são artificiais ao extremo e são dependentes demais do que vem de fora. Já morei nestas “latas de sardinha” e sei muito bem quais são os custos desta filosofia. Para mim, as evidências estão óbvias. Insistir nestes modelos é fazer o que fazem os três macacos (não vejo, …)!

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