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A cultura da indignação impotente no Facebook e a esquerda que não mobiliza mais

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É costume de muitas pessoas de esquerda ver seu mural do Facebook todo dia parecer um rio caudaloso de notícias ruins que dão a impressão de que a humanidade “não tem jeito”. E isso aparenta ter piorado em 2015, com as tantas postagens e artigos de fanpages, sites e blogs de esquerda incitando a consternação diante de um Congresso e um governo federal totalmente desconectados do interesse público. Vale refletir sobre essa cultura de indignação impotente, e como a esquerda brasileira contemporânea não tem mais conseguido converter a comoção das pessoas em ação política popular – leia-se protestos e demonstrações físicas de revolta sociopolítica.

Esse primeiro semestre do segundo mandato de Dilma Rousseff e do plantel parlamentar mais conservador desde o golpe militar de 1964 tem proporcionado o recrudescimento desse “rio de más notícias”. Aparentemente mais do que em outros anos, facebookianos brasileiros progressistas têm se deparado com uma esmagadora vazão de novidades negativas.

Ataques ininterruptos aos direitos civis, humanos, trabalhistas e ambientais; corrupção de opositores do governo petista protegidos pela impunidade e pelo silêncio cúmplice da imprensa e da direita militante; malícias diversas de gente como o deputado Eduardo Cunha; radicalização da corrosão do já precário sistema político brasileiro; medidas governamentais opressoras que nos dão a impressão de que elegemos Dilma mas quem assumiu foi Aécio Neves ou Pastor Everaldo; desmatamento urbano que não para em incontáveis cidades brasileiras; “guerra às drogas” que continua assassinando em massa jovens negros pobres; obras da Copa do Mundo inacabadas ou virando “elefantes brancos”; reacionarismo autoritário e fanático em desimpedida ascensão; consciência ambientalista praticamente esquecida… São incontáveis as notícias ruins que fazem tanta gente, como diz a expressão popular, “inchar feito baiacu”.

O agravante é que muitas delas têm sido compartilhadas, por exemplo, pelas páginas de deputados do PSOL, único partido brasileiro ainda de esquerda com representação parlamentar federal; movimentos sociais que, até pouco tempo atrás, não tinham tanta dificuldade para mobilizar pessoas, nem que fossem em passeatas de pouca gente; portais e opinadores defensores da esquerda e fanpages progressistas com dezenas de milhares de curtidores.

As notícias são dadas de uma maneira que o público leitor se sente totalmente impotente, incapaz de reagir também fora de casa e longe do computador doméstico. Deixam claro que essa imprensa alternativa tem agido igual à mídia hegemônica, dando notícias ruins de uma maneira que ao mesmo tempo planta a indignação e a faz decair em resignação, em sensação de impotência e no fatalismo de achar que “o Brasil não tem solução” e a humanidade vai apodrecer viva sem que nada possa ser feito contra isso.

Textos e mais textos aparecem todos os dias, opinando sobre a última “sacanagem” antipopular cometida pelo Congresso conservador ou a mais nova medida de arrocho trabalhista do Governo Dilma. Mas nada além de textos. Ignora-se que Dilma, o ministro da Fazenda Joaquim Levy, Eduardo Cunha e seus aliados das bancadas BBB – Boi, Bìblia e Bala já mostraram múltiplas vezes ser insensíveis à indignação de grande parte da internet brasileira.

Fica a impressão de que os veículos alternativos de comunicação online e os políticos do PSOL acreditam que o mundo pode ser (re)construído e modificado apenas ou principalmente a partir da mera e simples emissão de palavras e opiniões, sem a necessidade ou possibilidade da ação física, dos protestos e ocupações. Outra impressão que se fixa é que o levante das massas de junho de 2013 e mesmo aqueles protestos de porte menor contra Jair Bolsonaro, Renan Calheiros, Marco Feliciano, a usina de Belo Monte, o super-reajuste salarial de deputados e senadores e o novo Código “Florestal” nada mais são hoje do que lendas de tempos remotos e saudosos.

Tem havido exceções para esse fenômeno, como o #OcupeEstelita no Recife, que tem conseguido mobilizar on e off-line um número robusto de manifestantes para uma cidade do tamanho e população da capital pernambucana. Mas o quadro geral, nacional, é de desânimo e conformismo, e o movimento recifense parece um “corpo estranho” num país de resignados.

Está mais do que na hora de repensarmos essa postura de passividade diante do que tem acontecido de negativo para a esquerda. Precisamos problematizar essa sensação de impotência e a carência de incitações diretas à mobilização de rua. É muito necessário refletir sobre por que não estamos mais conseguindo transformar a indignação emocional em ação e mobilização, nem mais fazer valer nossas pautas de reivindicações.

Pensemos: por que estamos agindo como se não houvesse mais esperança? Por que estamos ou parecemos estar esperando que a esperança seja incitada de fora para dentro ao invés de alimentada pela consciência, de dentro para fora? O que aconteceu que nos divorciou silenciosamente das ruas?

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Caetano

junho 9 2015 Responder

Muito bom texto! Nos traz reflexões importantes e necessárias!

    Robson Fernando de Souza

    junho 9 2015 Responder

    Valeu, Caetano =D

Rafael

maio 29 2015 Responder

Talvez porque protesto após protesto, junho de 2013, passeata, percebemos que isso não deu resultado algum! Nem mesmo nas eleições, aliás o efeito foi contrário: o povo elegeu mais políticos conservadores…
Acho que acabamos desistindo…

O que você sugere fazer pra mudar as coisas visto que protestos já vimos que não adiantam?

    Robson Fernando de Souza

    maio 29 2015 Responder

    Não é que protestos “não deem resultado algum”, mas sim como se dão os protestos. Por exemplo, se eles são uma mera catarse de indignados com “tudo o que aí está”, desprovida de reivindicações objetivas, ou se têm objetivos claros e o compromisso de só pararem quando as reivindicações forem integralmente (ou parcialmente, em caso de negociação) atendidas. E também, o mais controverso, se os protestos são puramente pacíficos ou envolvem alguma demonstração explícita de revolta das massas insurgentes.

      Rafael

      maio 30 2015 Responder

      Sei o que quer dizer mas não adianta, os políticos que o povo elegeu simplesmente não se importam com manifestação que se faz ou se deixa de fazer. Eles não vão parar de roubar ou governar pra bancos, etc, só porque tem um um número de pessoas que nem representa 51% da população com cartazsinho na rua…

      O maior protesto seria votar em outros, mas o povo vai lá e vota neles de novo.

        Robson Fernando de Souza

        maio 30 2015 Responder

        É como eu falei, depende do protesto, de como, pra que e quantas vezes ele ocorre.

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