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maio15

“Falar o que pensa sem rodeios” não torna o indivíduo uma pessoa admirável
Mussolini, exemplo de indivíduo cujos discursos destruíram vidas, portanto, alguém que pode ser tudo, menos admirável por "dizer o que pensava sem medo"

Mussolini, exemplo de indivíduo cujos discursos destruíram vidas, portanto, alguém que pode ser tudo, menos admirável por “dizer o que pensava sem medo”

Muita gente diz “admirar” nomes famigerados como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Rachel Sheherazade e outros reacionários envolvidos com militarismo, fundamentalismo religioso e anti-humanismo, por serem pessoas que “falam o que pensam sem rodeios e sem se deixar intimidar”. O que não percebem é que “dizer o que pensa sem medo” não é uma razão válida de se admirar alguém, tampouco torna os discursos ditos “sem rodeios” pelo indivíduo aceitáveis.

Sinceridade e assertividade podem ser consideradas características virtuosas nos momentos certos e quando possuídas pelas pessoas certas. Mas não são virtudes, características “boas”, por si sós. Tampouco são valores ético-morais, que tornam um discurso assertivo mais “certo”, “ético”, “aceitável” e “apreciável” do que um embromado e confuso.

Isso fica evidente quando a incisividade dos discursos “sem rodeios” dos reacionários mencionados também foi adotada no passado por genocidas, como Hitler, Mussolini, Pol Pot, os papas das Cruzadas e outros carniceiros de oratória genial. Eles também eram políticos que “diziam o que pensavam” e não tinham vergonha do que falavam. O livro Mein Kampf, mesmo, é uma compilação do que Hitler “pensava” sobre sua ideologia nazista e baseou o que ele, nos anos seguintes, discursaria “sem rodeios” nos púlpitos da Alemanha dominada pelo totalitarismo.

Mesmo hoje, os discursos assertivos opressores, com sua arrebatadora clareza e primorosa arguição, inspiram ações violentas, às vezes assassinas, em todo o Brasil e outros locais do mundo. Como exemplos brasileiros, temos os linchamentos que se seguiram ao discurso de Rachel Sheherazade em fevereiro de 2014, o qual havia “justificado” a tortura de um jovem que, acusado de roubo, tinha sido espancado e aprisionado num poste com uma trava de bicicleta no pescoço, e também diversos ataques físicos (alguns deles homicidas) homofóbicos e lesbofóbicos em São Paulo, nos últimos anos, sustentados moralmente pelos discursos de fundamentalistas religiosos heterossexistas que “falam o que pensam sem medo”.

Isso não significa, deixe-se claro, que todo e qualquer discurso feito com assertividade e sem medo de retaliação seja perigoso e maléfico. O que se mostra aqui como sendo nocivo são aquelas falas ou textos opressores de quem não se envergonha de agir contra a ética e usa sua habilidade oratória e/ou redacional para o mal de outros seres sujeitos de direitos.

As consequências catastróficas, potenciais ou efetivadas, de discursos assertivos antiéticos nos mostram que nem sempre alguém que “fala o que pensa sem se deixar intimidar” é uma pessoa admirável e de falas e/ou escritos idem. Pelo contrário, a sinceridade e a coragem argumentativa, quando possuídas por indivíduos de mau caráter e dispostos a destruir outras vidas, deixam de ser virtudes e passam a ser perigos, ameaças à integridade e até à vida de outrem.

Em outras palavras, tornam-se características que amplificam a periculosidade, o mau caráter e outras desvirtudes pessoais de criminosos, sendo nesses casos, portanto, defeitos éticos, não características elogiáveis. É mais “admirável” uma pessoa má calada, que se silencia quando poderia estar proferindo falas destrutivas, do que um orador fascista e/ou fundamentalista religioso cujas palavras devastam vidas.

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