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maio15

Por que o ambientalismo carente de recortes sociais está fadado ao fracasso
O Greenpeace, como representante do ambientalismo unidimensional criticado abaixo, tem a ilusão de que será possível reduzir a zero o desmatamento na Amazônia sem afrontar os interesses dos latifundiários, empresas mineradoras e indústrias madeireiras

O Greenpeace, como representante do ambientalismo unidimensional criticado abaixo, tem a ilusão de que será possível reduzir a zero o desmatamento na Amazônia sem afrontar os interesses dos latifundiários, empresas mineradoras e indústrias madeireiras

Ainda hoje há uma vertente ambientalista de tendência conservacionista e conservadora, representada por ONGs como Greenpeace e WWF e partidos verdes de alguns países, tentando defender o meio ambiente sem fazer a devida problematização social, econômica e política das questões ambientais em voga. Ainda parece crer que uma soma de políticas governamentais de conservação ecológica com ações individuais poderá salvar o planeta do aquecimento global e da progressiva degradação das condições de vida humana e não humana. Não percebe, apesar das críticas recebidas ao longo de décadas, que esse ambientalismo não social tende ao fracasso em seus objetivos principais.

Nesse mais de meio século de ascensão das lutas ambientalistas, parte dos seus movimentos evoluiu e passou a reconhecer a estrita necessidade de se promover não só o ambiental, mas sim o socioambiental. Mas ainda há uma parcela do ambientalismo presa em velhos vícios que o rebaixam a uma bandeira isolada, unidimensional e ineficaz.

Como exemplo, temos entidades que defendem a conservação e/ou restauração de ecossistemas sem abordar as legítimas necessidades dos povos que dependem vital e economicamente deles, nem a capacidades deles de preservá-los sagradamente, nem o contexto político-econômico da degradação ambiental que os castiga.

Outro exemplo são os coletivos que ainda estão na “Idade Média” da educação ambiental, insistindo em comandos individualistas – como “Não jogue lixo na rua e nos corpos d’água, racionalize o consumo de água e eletricidade, separe seu lixo, converse com seus vizinhos etc.” – baseados na premissa de que a soma das ações individuais poderá salvar o mundo sem a necessidade de mobilização política.

É um ambientalismo que não alcança, por exemplo, as favelas latino-americanas, as comunidades pobres africanas e asiáticas, os guetos dos países do Norte, os meios rurais assolados pela opressão latifundiária, as comunidades tradicionais ameaçadas pelo “progresso” desenvolvimentista ou neoliberal etc. Suas mensagens e ações tendem a ter um alcance restrito às classes médias e altas urbanas dos países “desenvolvidos” e “emergentes”.

Tenta exigir de governos que invistam em fontes limpas e renováveis de energia, faz pressão contra a energia nuclear, faz acordo com grandes corporações para que diminuam seus imensos impactos ambientais etc. Mas não percebe a mancomunação desses mesmos governos com setores envolvidos com destruição ambiental, nem a existência de resistentes interesses lucrativos na perpetuação de energias sujas e não renováveis, nem a dependência, por parte dessas megaempresas, de uma cultura global de consumismo e gastos intensivos de energia e outros recursos naturais.

Essas limitações deixam evidente que esse ramo do movimento ambientalista nada conseguirá além de vitórias pontuais e localizadas. Mostra-se incapaz de influenciar decisivamente uma virada política e comportamental das sociedades modernas. Passa o para-brisa nos vidros sem perceber que há uma chuva molhando-os constantemente.

É razoável perceber, quando pensamos nesses problemas, que esse ambientalismo unidimensional está fadado ao fracasso, caso tenha realmente a intenção de presenciar mudanças globais de paradigmas socioculturais, econômicos e políticos. Observando isso, adquirimos a consciência de que, enquanto não houver uma guinada generalizada dos movimentos ecologistas à esquerda política e às lutas dos movimentos sociais, o cenário continuará sendo de desesperança e marasmo.

imagrs

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Nathalie

maio 5 2015 Responder

Ninguém quer uma árvore Pau Jacaré, representante da Mata Atlantica, na porta de casa, ela é feia e grande. Os empreendimentos que reservam parte do terreno para vegetação só se preocupam com plantas paisagísticas. Se a prefeitura plantar árvores em 30% do espaço das calçadas e das praças pessoas vão reclamar que elas encobrem bandidos ou dificultam a passagem. Difícil recuperar meio ambiente com tanto individualismo.

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