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maio15

O reino das falácias de Rachel Sheherazade (Parte 4)

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Esta é a quarta postagem, de dez, sobre o uso de falácias por Rachel Sheherazade em grande parte, senão em quase todos, de seus argumentos conservadores.

Leia aqui todos os posts da série

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10. Olavo tem razão – 23/03/2015

As manifestações do dia 15 completaram, ontem, uma semana.

E que efeitos geraram os protestos que levaram quase dois milhões de pessoas às ruas, de forma espontânea, sem cachês, sem patrocínio, nem bandeiras de partidos políticos?

Falácia de omissão 1 – Sheherazade omite que houve estimativas muito mais modestas do público total dos protestos de 15 de março. São Paulo, por exemplo, segundo o Datafolha, teve estimadamente 210 mil pessoas no protesto, e não 1 milhão como disse a tendenciosa e fortemente enviesada PM.

Falácia de omissão 2 – Ela omite também que há a suspeita de participação de empresas e organizações internacionais interessadas na defesa do livre mercado e da direita política, além da participação ativa de gente do PSDB, do PP e de outros partidos de quadros conservadores e de simpatizantes desses partidos.

A resposta da presidente à voz das ruas foi um pacote anti-corrupção, a mesma promessa pós protestos de 2013, também copiada de 2005, quando o então presidente Lula enfrentava o turbilhão de denúncias do Mensalão.

A história se repete. As mentiras também.

Não vai funcionar um projeto anti-corrupção que emana de um partido umbilicalmente ligado à corrupção. Obviamente, o projeto já nascerá corrompido.

Desqualificação à pessoa (ad hominem), apelo à hipocrisia (tu quoque) – Afirma que o declarado projeto contra corrupção anunciado por Dilma “não vai funcionar” apenas porque foi supostamente idealizado por pessoas do PT, sem que não haja nenhuma relação de causa e efeito entre ser petista e participar de esquemas de corrupção.

Generalização precipitada sutil – Generaliza a todos os integrantes do PT o atributo de “envolvidos com corrupção”.

A corrupção é uma das três principais bandeiras do movimento, que exige também: FORA PT e FORA DILMA.

Falácia de omissão – A comentarista omitiu uma outra bandeira muito presente, bem menos palatável para a maioria dos próprios participantes do protesto: golpe militar.

Em artigo publicado no Jornal Diário do Comércio, intitulado QUEDA DE BRAÇO, o escritor e filósofo Olavo de Carvalho defende a cassação do registro do PT e o Impeachment da presidente.

Para o colunista, o partido é ilegal, porque é filiado a organização estrangeira, o Foro de São Paulo, uma entidade estratégica das esquerdas na América Latina, fundada pelo ditador Fidel Castro, e cujas resoluções são cumpridas pelo Partido dos Trabalhadores. A Lei dos Partidos Políticos em seu artigo 28, alínea II, proíbe a subordinação de legendas a entidade ou governo estrangeiro.

Distorção de fato – Extrapola-se o que realmente é o Foro de São Paulo. Ao invés de um fórum permanente de discussão entre partidos latino-americanos originalmente de esquerda, ele é tratado como se fosse uma organização internacional dotada de amplo poder político governante.

Segundo Olavo, o PT também infringe a alínea IV da mesma lei, pois comanda entidade paramilitar, como o MST, treinada para atividades de guerrilha, especializada em invadir e destruir propriedades rurais e em bloquear o direito de ir e vir do cidadão. Sempre que acha conveniente, o partido conclama seu “exército”, como bem nomeou o ex-presidente Lula, para interferir na política através da intimidação.

Distorção de fato, falácia do espantalho 1 – Tacha o MST de “entidade paramilitar” “guerrilheira”, distorcendo seu atributo original de ser um movimento social rural que não usa armas em suas manifestações.

Invenção de fato, falácia do espantalho 2 – Inventa que o MST é uma espécie de “exército” paramilitar a serviço do PT e “interfer[e] na política através da intimidação”.

Para quem não vê motivos concretos que justifiquem o Impeachment da presidente Dilma, Olavo de Carvalho dá mais uma boa razão e não tem nada a ver com o Petrolão. O Governo Dilma concedeu empréstimos bilionários através do BNDES a vários países, incluindo Cuba. Mas, segundo o artigo 49 da Constituição, tratados internacionais que impliquem despesas aos cofres públicos são da competência exclusiva do Congresso. Portanto, tais empréstimos além de inconstitucionais são ilegais, o que configura crime de improbidade administrativa.

É mais um forte pretexto para o FORA DILMA. E então? Olavo tem ou não tem razão?

Distorção e invenção de fato, falácia do espantalho – Sheherazade e Olavo distorcem a natureza dos empréstimos concedidos via BNDES, ignorando que eles são destinados a empresas empreiteiras que atuam em obras no exterior e inventando que o banco empresta, ao invés, diretamente a Estados estrangeiros. Com esse falso pretexto, dizem que o PT está “violando a Constituição” e “emprestando dinheiro a outros países em função de tratados internacionais”.

P.S.: Olavo não tem razão nenhuma.

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11. País mudo não muda #15demarço – 16/03/2015

Ontem, domingo, fui mais uma na multidão, quase afogada naquele mar sem fim de gente que tomou a avenida Paulista. Não se via tanta gente junta assim, protestando por um mesmo objetivo, desde o Movimento Diretas Já.

Falácia de omissão – Sheherazade omite que os protestos de junho de 2013, tanto em São Paulo como no Brasil como um todo, foram bem maiores do que os de 15 de março.

Ontem, o povo brasileiro deu uma aula de cidadania, de civismo e de civilidade.

Generalização precipitada, distorção de fato – Ela tacha como “o povo brasileiro” uma massa que na verdade era uma minoria – menos de 1% da população total do país – e não representava o pensamento de todos os brasileiros – já que havia milhões de outras pessoas discordando das razões e bandeiras daquelas manifestações.

Falácia de omissão – Ela ignora os diversos casos de agressão verbal ou mesmo física contra pessoas vestidas de vermelho, petistas e integrantes de movimentos sociais.

Convocados pela própria consciência, movidos pelo amor ao país, os manifestantes ocuparam as ruas pacificamente, com alegria, bom humor, com respeito, mas também com indignação. Vieram de graça, sem cachê, e a única recompensa que esperam é um Brasil melhor.

Falácia de omissão 1, distorção de fato 1 – Ignora que houve toda uma série de chamadas e convocações sutis ou explícitas, principalmente pela internet (páginas de redes sociais como a Revoltados Online, a Vem Pra Rua e a própria fanpage de Sheherazade) e pela televisão (em especial pela Globo), nos dias anteriores e no próprio dia de protesto. Omite espertamente que ela própria também fez sua convocação às massas. Ou seja, não foi “pela própria consciência”, mas sim, em grande parte, por persuasão e manipulação emocional promovidas por terceiros.

Falácia de omissão 2, distorção de fato 2 – Omite também os casos já mencionados de agressão verbal e/ou física contra petistas, membros de movimentos sociais e mesmo pessoas vestidas de vermelho.

Falácia de omissão 3 – Omite também as manifestações, algumas individuais, algumas grupais, cujo interesse por “um Brasil melhor” é no mínimo duvidoso: as que pediam golpe militar e perseguição política contra petistas e/ou dirigiam ofensas misóginas e lesbofóbicas contra Dilma.

Ontem, eu vi a nossa bela bandeira tremular em tantas mãos, num movimento genuinamente patriótico, vi tantos rostos pintados com as cores da nação, eu vi cartazes com muitos “BASTA”, ouvi o soar das panelas irrequietas e as vozes que gritavam em uníssono: “- Fora Dilma! – Fora PT!”

Falácia de omissão – Omite que houve muitos cartazes pedindo por uma intervenção militar vinda dos Estados Unidos, algo que de forma nenhuma poderia ser considerado “patriótico”, uma vez que violaria frontalmente a soberania nacional e o Estado Democrático de Direito.

É a voz das ruas. É a voz do povo. E nenhum governo ou parlamentar poderá dizer que não escutou esse brado retumbante, que ecoava dos quatro cantos do país. O mundo inteiro ouviu e viu o Brasil clamar pelo impeachment da presidente Dilma, persona non grata número um do país.

Generalização precipitada – Novamente considera que foi “o povo”, e não menos de 1% da população brasileira total, representante das crenças ideológicas de apenas uma parcela da população, que exerceu sua “voz” naquele dia.

Falácia do espantalho, falácia de omissão – Coloca Dilma Rousseff como “persona non grata número um do país”, esquecendo que há milhões de pessoas ainda acreditando nela e a apoiando* diante de todos os ataques vindos da direita.

*Essa afirmação não significa um apoio do Consciencia.blog.br a Dilma, nem sua adesão ao governismo petista, mas sim uma constatação da realidade.

Já o Governo emudeceu, se calou. Alvo dos protestos, Dilma, mais uma vez, se esquivou, se escondeu. Como Maria Antonieta, a perdulária rainha que, literalmente, perdeu a cabeça na Revolução Francesa, nossa presidente permanece encastelada no Palácio do Planalto, longe do povo, alheia a tudo que lhe cerca. Falou por seus vassalos e foi, novamente, respondida com panelaço de norte a sul.

Falácia de omissão, falácia do espantalho – Sheherazade pinta que Dilma e seu governo “se acovardaram”, omitindo a possibilidade de que viessem novos discursos dela e/ou de comandados seus nos dias seguintes ao 15 de março e imputando à presidenta uma “covardia” maior do que realmente é.

Não! As ruas não foram tomadas pela elite branca opressora – quem dera tivéssemos tantos ricos neste país de miseráveis.

Falácia de omissão 1 – A comentarista omite que os interesses ali defendidos eram de fato os interesses, ocultos ou escancarados, de boa parte da elite econômica e política brasileira.

Falácia de omissão 2 – Omite também que a gigantesca e esmagadora maioria dos manifestantes eram brancos de classes média, média-alta e alta.

Não! O descontentamento com o Governo não é partidário nem ideológico, não é regional ou social – é geral!

Falácia de omissão, distorção de fato – Sheherazade omite que há uma tendência partidária forte de parte dos “descontentes”, em grande parte por simpatia a um futuro governo federal do PSDB ou de um futuro partido assumidamente de direita (como o Partido Militar Brasileiro e o Novo).

Generalização precipitada – Novamente ela generaliza a toda a população brasileira um ponto de vista político adotado apenas por uma parcela da mesma.

O “Quinze de Março” foi só o início. Pois, uma jornada sempre parte de um primeiro passo. E assim como a chuva não começa como tempestade, toda revolução nasce de um grito – grito de insatisfação. Ontem o Brasil não se calou. Foi mais de um milhão de vozes. Só um país mudo é que não muda.

Generalização precipitada – Novamente generaliza a toda a população a “insatisfação” de uma parcela dela.

Anfibologia – Não deixa claro se esse “um milhão de vozes” foi apenas em São Paulo ou a soma de todos os manifestantes em todo o Brasil (e em países estrangeiros).

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12. #VEMPRARUA – 13/03/2015

O “panelaço” do domingo passado durante o pronunciamento da presidente Dilma em cadeia nacional foi o soar das trombetas, o começo das dores, o anúncio das mudanças que estão por vir.

Distorção de fato – Os efeitos do “panelaço” em questão foram extrapolados, exagerados, de modo que parecessem o prenúncio de uma “revolução” – uma especulação ingênua e insensata, para dizer o mínimo, já que no final das contas nenhuma “grande mudança” viria a acontecer desde então.

Neste domingo, em todo país, os descontentes sairão às ruas, vestidos de verde e amarelo, munidos de patriotismo e também de indignação. Exigirão, democraticamente, como permite a Constituição, a deposição de uma presidente que mentiu para o país, traiu a confiança do povo e levou o Brasil à bancarrota.

Anfibologia, falta de clareza – Fica aparente que são igualmente legitimadas pela constituição a manifestação “popular” do desejo de que Dilma Rousseff sofra impeachment e o próprio impeachment em si, nesse caso em que seria motivado pela presidenta ter “menti[do] para o país, tra[ído] a confiança do povo e lev[ado] o Brasil à bancarrota”.

Invenção de fato – Sheherazade inventa que o descumprimento de propostas eleitorais e a má condução econômica do país, desprovidos de crime de responsabilidade, seriam motivos constitucionalmente válidos para se depor um(a) presidente por meio do impeachment, quando isso na verdade não consta na Constituição Federal de 1988.

Os descontentes sairão de casa porque, como dizia o Dr. Ulisses Guimarães, “a única coisa que um político teme é o povo na rua”.

Os descontentes não são a elite branca ou a plebe negra. São gentes de todas as cores e classes, cidadãos de toda parte, todos juntos e misturados, um povo só, unido pelo bem do Brasil.

Distorção de fato 1, falácia de omissão 1 – Sheherazade nega um fato: o recorte de classe e de raça que marca a oposição radical de direita a Dilma, omitindo que há uma prevalência de brancos de classe média entre os antipetistas de direita.

Distorção de fato 2, Falácia de omissão 2 – Ela omite a existência de diferenças de interesses entre os organizadores do protesto de 15 de março. Esconde, por exemplo, que alguns querem golpe militar enquanto outros desejam o impeachment sem o uso da força armada.

Falácia de omissão 3 – Ela omite também a existência de pessoas cujo interesse “pelo bem do Brasil” é no mínimo duvidoso, como os defensores do golpe militar e do retorno da ditadura civil-militar.

Falácia de omissão 4 – Está omisso também que há interesses nada altruístas por parte de boa parte dos organizadores, senão de todos eles, na derrubada de Dilma. Longe de ser “pelo bem do Brasil”, há interesses privados, entre membros do PSDB, outros políticos conservadores e alguns grandes empresários, na remoção do PT do poder.

Os descontentes não formam um partido nem representam uma única ideologia. São apenas um povo cansado de ser enganado, traído, roubado, vilipendiado… uma gente sofrida, gente de bem que não suporta mais a corrupção no Governo, a institucionalização da roubalheira, a negação das falcatruas, a inépcia da Justiça, a conivência dos Poderes, os poderosos inimputáveis, as penas perdoadas, os larápios da nação!

Falsa dicotomia – Deixa a entender que, para se ter um movimento de rua, só haveria duas alternativas: ou ele ser a manifestação de um único partido e/ou uma única ideologia, ou ser um protesto totalmente apartidário e fortemente multi-ideológico. Esconde, por exemplo, que o protesto poderia ser – e foi, como se viu – representante de interesses (e partidos) especificamente de direita, convergindo interesses neoliberais, conservadores e fascistas num uníssono.

Distorção de fato, falácia do espantalho inversa 1 – Pinta o protesto como se fosse uma genuína demonstração de insatisfação com toda a desordem política vigente, independente dos partidos envolvidos. Omite que a “insatisfação” era focada rigidamente no PT e em Dilma e ignorava quase totalmente as falcatruas e as posturas antipopulares de políticos de outros partidos, incluindo de políticos não petistas denunciados na Operação Lava Jato, e de deputados estaduais e distritais, governadores, prefeitos e vereadores.

Falácia do espantalho, falácia de omissão 1 – Tacha o governo federal de único ou principal foco de corrupção, omitindo que políticos de diversos outros partidos – vários deles de oposição de direita ao PT – também estão “enlameados” pelas diversas frentes de apuração de escândalos de corrupção vigentes, como a própria Operação Lava Jato, a Operação Zelote e o escândalo do HSBC.

Falácia de omissão 2, falácia do espantalho inversa 2 – Pinta a crença de que todos os antipetistas de direita dispostos a ir ao protesto eram “gente de bem”, escondendo que há diversos antipetistas provavelmente envolvidos com corrupção e outros crimes no meio desses “indignados”. Omite também que mesmo parte da população “cidadã”, eleitora, tem uma biografia suja com pequenas corrupções e outros desvios de ética, como suborno de guardas, furada de filas, despejo de lixo em locais indevidos, discursos de ódio, manipulação noticiária e práticas discriminatórias contra minorias políticas.

Citada onze vezes pelos delatores do Petrolão, apontada como conhecedora da corrupção e acusada de omissão, Dilma Rousseff foi convenientemente protegida das investigações, mas não será poupada do julgamento das ruas. Este será implacável.

Omissão de fontes – Sheherazade não informa a(s) fonte(s) dessa informação sobre as supostas onze menções a Dilma.

Falta de clareza – Ela não especifica quais foram as circunstâncias que motivaram essas alegadas menções, nem quais teriam sido as denúncias diretas ou indiretas contra ela que as tivessem ensejado.

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Conheça as falácias nessas páginas:

http://www.logicallyfallacious.com/index.php/logical-fallacies (em inglês)
https://ateus.net/artigos/ceticismo/guia-de-falacias-logicas-do-stephen/
http://livrepensamento.com/guia-de-falacias-logicas/
http://veganagente.consciencia.blog.br/guia-de-falacias-carnistas/ (lista de falácias antiveganas que pode servir de base para detectar falácias com outros temas)

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