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O reino das falácias de Rachel Sheherazade (Parte 5)

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Esta é a quinta postagem, de dez, sobre o uso de falácias por Rachel Sheherazade em grande parte, senão em todos, de seus argumentos conservadores.

Ao contrário dos primeiros quatro posts, este possui quatro textos ao invés de três.

Leia aqui todos os posts da série

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13. O céu é o limite – 11/03/2015

Hoje, eu falo de um conterrâneo, paraibano como eu, cuja história inspiradora ilustra a Folha de São Paulo desta semana.

Nascido de família pobre no Sertão do Estado, Matheus Augusto da Silva poderia ser mais um “Silva” numa multidão de nordestinos pobres, condenados à ignorância, à miséria ou ao assistencialismo perpétuo.

Mas, o jovem, antes de tudo um forte, lutou contra o destino comum imposto a muitos conterrâneos. Filho e neto de pescadores, Matheus não queria o peixe na mão. Aprendeu, sozinho, a pescar seus sonhos.

Ainda criança, desenvolveu um projeto para aumentar o volume dos reservatórios de água de sua cidade, Boqueirão. Também criou um tipo de sabão à base de tamarindo, uma fruta conhecida e abundante na região.

Aos 11 anos, aquele menino paraibano cheio de ideias inovadores teve a mais importante delas: estudar nos Estados Unidos, onde estão as melhores universidades do mundo. Matheus queria estar entre os melhores.

Aos 22 anos, o paraibano cursa atualmente engenharia química e economia na Worcester Polytechnic Institute, perto de Boston. Fala seis idiomas. Fez dois intercâmbios. Estudou na China. Com outros estudantes, criou uma associação para desenvolver soluções de empreendedorismo que ajudem a melhorar o Brasil.

Matheus foge do padrão típico do brasileiro de escola pública: dependente de cotas, carente de aprovação automática, condicionado ao comodismo, condenado ao ostracismo. O paraibano foi além porque acreditou no seu potencial, e, apesar das dificuldades, não usou a pobreza como pretexto para a mediocridade ou o parasitismo.

Matheus foi longe por que apostou na meritocracia, que retribui a cada um na justa medida do seu esforço.

Ele fez por merecer. Por isso, merece brilhar. Para Matheus, o menino sertanejo que ousou pensar alto, o mundo ficou pequeno. Agora, o céu é o limite.

O argumento central do texto, a defesa da meritocracia capitalista com base no exemplo de Matheus, cai nas seguintes falácias:

Evidência anedótica – Coloca um relato individual como se fosse prova objetiva e confiável da teoria exposta (a funcionalidade da meritocracia no Brasil capitalista).

Inversão do acidente 1 – Coloca um caso excepcional, o de Matheus, como se fosse a regra geral.

Inversão do acidente 2 – Coloca um determinado tipo de estudante do ensino básico – cotistas, beneficiados por aprovação automática, “condicionados ao comodismo [e] condenados ao ostracismo” – como se fosse uma regra quase geral, um “padrão” no ensino público brasileiro, sem dar qualquer evidência estatística de que esse “padrão” realmente corresponde à maioria ou a uma parcela significativa dos estudantes de escolas públicas.

Falácia de omissão 1 – Sheherazade omite em quais circunstâncias Matheus foi premiado com uma bolsa de estudo nos EUA. O discurso dela não nos permite saber que, segundo depoimento do próprio rapaz (obs.: o acesso à página pode ser restrito), ele teve a ajuda de um curso gratuito de extensão da Universidade Federal de Campina Grande, de uma bolsa quase integral do Worcester Polytechnic Insititute e de recursos da brasileira Fundação Estudar. Ou seja, ele obteve ajuda externa, não conquistou tudo apenas com “esforço próprio” como pregam os meritocratas.

Falácia de omissão 2 – Omite também que a meritocracia capitalista “retribui a cada um na justa medida do seu esforço” apenas em algumas poucas situações, privilegia homens cisgêneros brancos dotados de renda familiar robusta e não beneficia uma grande maioria que tem ideias tão admiráveis quanto a de Matheus.

Falácia de omissão 3 – Ela deixa de informar aos seus ouvintes em quais situações há o benefício a indivíduos com a “retribuição na justa medida do esforço”.

Falácia do espantalho – Deixa a entender que estudantes cotistas são mais tendentes ao “comodismo” e ao “ostracismo”, sem apresentar qualquer prova disso, criticando-os com base nessas supostas características.

Invenção de fato, falácia do espantalho reversa – Teoriza que todas as pessoas seriam uniformemente passíveis de serem beneficiadas pelas dádivas da meritocracia capitalista, fazendo apologia à mesma com base nessa falsa característica.

Generalização precipitada 1, ataque pessoal (ad hominem) – Insinua a generalização, com linguagem grosseira, agressiva, ofensiva e preconceituosa, que os estudantes do ensino básico que correspondem ao “padrão típico do brasileiro de escola pública” são “medíocres” e “parasitas” e usam a pobreza como “pretexto” para “não vencer na vida”.

Falsa dicotomia – Defende sutilmente que só há dois tipos de pessoas pobres: aquelas que se beneficiam com ajuda estatal (cotas raciais e sociais, bolsas de renda mínima etc.) e são “incapazes” de ter ideias de inventos tecnológicos e/ou empreendimentos, e aquelas que “não precisam” de ajuda estatal e, do alto dessa “independência”, promovem maravilhas de engenharia ou de empreendedorismo. Ignora que há outros tipos, como pessoas que recebem uma ou mais ajudas estatais e, com o auxílio delas, conseguem “subir na vida” e pessoas que, mesmo dotadas de ideias primorosas, nunca conseguiram uma vida digna em função delas por causa da total falta de oportunidades e do descaso por parte do Estado e das empresas.

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14. Dois pesos e duas medidas – 10/03/2015

Foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff, a lei que torna o assassinato de mulheres crime hediondo.

Com isso, aumentará de 20 para 30 anos a pena máxima para quem for condenado por feminicídio.

Apesar de condenar qualquer abuso ou violência contra mulheres, eu não posso deixar de criticar essa lei, que julgo anticonstitucional.

Pois, se de acordo com a Lei Maior, todos são iguais, sem distinção de qualquer natureza… se homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos da Constituição, porque punir com maior rigor assassinos do sexo masculino?

Distorção de fato 1 – A igualdade prevista na Constituição não é igualdade formal, segundo a qual a lei deveria tratar de forma neutra, uniforme e não equitativa pessoas historicamente tratadas como desiguais e submetidas a tratamentos injustamente distintos, mas sim a igualdade material, que defende o tratamento justo com compensações e proteções para minorias historicamente oprimidas e prejudicadas de modo que algum dia haja realmente igualdade de tratamento sociocultural.

Falácia de omissão – Sheherazade omite que tratar de maneira uniforme pessoas historicamente privilegiadas e historicamente discriminadas é uma maneira de tratá-las como “naturalmente” desiguais, já que não reconhece a necessidade de reparar séculos de opressão e discriminação. Ignora que, por exemplo, promover o mesmo nível de proteção para uma categoria social que não é vítima de crimes de ódio (homens, por serem homens) e uma que é vítima frequente desse tipo de crime (mulheres, por serem mulheres) é uma forma de naturalizar desigualdades e, portanto, tratar de forma injustamente desigual.

Invenção de fato – Ela inventa que a equidade e a igualdade material são “inconstitucionais”, quando essa inconstitucionalidade não existe.

Falácia do espantalho – Sheherazade usa um jogo retórico para transformar punição com maior rigor a assassinatos de ódio misógino em punição com maior rigor a “assassinatos cometidos por homens”.

A justificativa dos defensores da proposta é que, por causa da cultura machista, as mulheres estariam em situação vulnerável perante os homens e muitas acabam mortas por maridos, companheiros e ex pela questão de gênero, ou seja, simplesmente por serem mulheres.

Mas, as estatísticas provam que as maiores vítimas de assassinatos brutais não são as mulheres. São os homens: jovens, pobres e negros.

Falácia de omissão 1, distorção de fato – Ela ignora que os homens não são assassinados em função de serem homens, ao contrário das mulheres, que muitas vezes são mortas em função de serem mulheres.

Falácia de omissão 2 – Ela ignora também que o assassinato com motivação racista já está sendo objeto de projeto de lei.

Então, partindo do mesmo argumento da lei do feminicídio, não seriam os homens, os pobres, os jovens e os negros igualmente vulneráveis? Não deveríamos então criar uma lei penal específica para cada um desses, digamos, grupos de risco?

Falsa dicotomia – Desconsidera que não só é totalmente possível discutir ao mesmo tempo crimes de ódio misógino, racista e elitista, como o assassinato racista já é discutido, vide PL 7.749/2014 (trata de assassinatos motivados por ódio racial). Aborda o assunto como se a tipificação do feminicídio excluísse a possibilidade de tipificar o homicídio motivado por ódio racial e/ou elitista.

Invenção de fato – Inventa que os homens em questão são assassinados não especificamente por serem negros e pobres (em especial por serem negros), mas sim “também”, ou mesmo principalmente, por serem homens.

Se nós mulheres rejeitamos, veementemente, o rótulo machista de sexo frágil, porque nos sujeitamos convenientemente à vitimização, por que militamos por leis paternalistas, porque nos deixamos tutelar pelo estado de forma diferenciada, como se não fôssemos iguais aos homens?

Quem luta por direitos iguais não pode exigir privilégios diferentes.

Falácia de omissão 1 – Ignora que o tratamento equitativo das minorias é um princípio democrático que, inclusive, busca promover a longo prazo a igualdade de tratamento e, eventualmente, o fim da necessidade de proteção especial a minorias alvos de discriminação – num futuro em que idealmente a discriminação contra elas seja efetivamente erradicada.

Falácia do espantalho – Teoriza indevidamente que leis equitativas, que dão maior proteção a quem precisa de mais proteção, são “paternalistas” e “concessoras de privilégio” e “naturalizam a desigualdade” (quando na verdade visam combater a desigualdade e neutralizar privilégios).

Falsa analogia – Compara equidade (que combate a desigualdade promovendo tratamentos específicos justos) com concessão de privilégios (que reforçam ainda mais desigualdades já existentes).

Invenção de fato – Inventa que mulheres recebem socialmente tratamento igual aos homens e que, portanto, seria injusto serem beneficiadas pela tipificação penal do feminicídio.

Falácia de omissão 2 – Omite que há toda uma estrutura social machista e misógina, que proporciona que homens misóginos matem mulheres em função de serem mulheres.

Além de afrontar o princípio constitucional da igualdade, esse projeto sexista pode ter o efeito inverso do que pretendem seus defensores e acirrar ainda mais o preconceito por gênero.

Distorção de fato – Distorce a igualdade material (já definida anteriormente) confundindo-a com igualdade formal (idem).

Falácia de equívoco – Confunde a definição de “sexismo” como machismo e misoginia com uma definição alternativa inventada, falsamente simétrica, de “sexismo” como “ódio de um gênero contra o outro, seja de homens contra mulheres, seja de mulheres contra homens”.

Redução ao absurdo – Traz uma consequência absurda e indesejável ao que é criticado, a partir da falsa premissa de que a tipificação do feminicídio “destrói a igualdade” ao invés de visar combater uma desigualdade.

Não é possível que tratemos vidas humanas com dois pesos e duas medidas. Como se a vida de uma mulher valesse mais que a de um homem.

Distorção de fato – Converte igualdade material e equidade em desigualdade.

Falácia do espantalho – Teoriza erradamente que a tipificação do feminicídio parte da suposta premissa “machista reversa” de que a vida da mulher naturalmente valeria mais do que a do homem, quando na verdade ela visa punir assassinatos motivados pela crença misógina de que a vida da mulher vale menos.

Invenção de fatos – Inventa que homens e mulheres já são tratados(as) com exata igualdade pela sociedade, sem nenhuma discriminação machista/misógina contra mulheres.

Falácia de omissão – Ignora o machismo e a misoginia que imperam na cultura brasileira – e de praticamente todos os demais países do mundo – e que ambos motivam um tipo de assassinato que não vitima homens cisgêneros.

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15. O Fiasco do Desarmamento – Salve-se quem Puder! – 25/02/2015

Ontem, no interior de São Paulo, a vítima de um assalto levou a melhor sobre os bandidos. Dono de uma relojoaria, ele foi surpreendido por três homens armados, mas reagiu e baleou dois dos marginais. Os assaltantes morreram. Ainda bem. Melhor eles que a vítima!

Falsa dicotomia – Sheherazade insinua que só seria possível uma única situação “desejável” ou uma única indesejável: os assaltantes serem mortos por legítima defesa da vítima ou saírem completamente impunes. Ignora que havia uma terceira possibilidade, ainda mais desejável: os assaltantes serem denunciados, presos e condenados.

Inversão do acidente – Considera, irresponsavelmente, que um caso na verdade excepcional (a reação bem sucedida do dono da relojoaria ao assalto) seria fruto de uma regra (segundo a qual todos os “cidadãos de bem” armados, ou a maioria deles, conseguirão matar seus algozes caso estejam com uma arma e reajam). É irresponsável porque, em função de um caso excepcional, elimina ou minimiza a alta probabilidade de o inocente ser morto pelos criminosos ao tentar reagir ao assalto.

E antes que os defensores de bandidos voltem sua fúria humanitária contra o comerciante ou contra esta que vos fala, é bom que saibam: a vítima não cometeu crime algum, apenas agiu em legítima defesa, e está plenamente, amparada pela lei.

Falácia do espantalho 1, petição de princípio – Parte da falsa premissa, dada como “certa” sem provas, de que defender os Direitos Humanos na segurança pública é “defender bandidos”. Chama os defensores dos DH de “defensores de bandidos” e insinua que eles “não se importam” com as vítimas de criminosos civis.

Falácia do espantalho 2 – Afirma preconceituosamente que os defensores dos Direitos Humanos repudiam a legítima defesa e criminalizam e constrangem aqueles(as) que conseguem, de alguma forma, incapacitar ou matar seus agressores.

Interessante ressaltar que o comerciante só pode se defender por que tinha porte de arma, uma exceção à regra, depois que entrou em vigor o temerário Estatuto do Desarmamento, que, praticamente, inviabilizou a legítima defesa aos cidadãos de bem deste país, dificultando ao máximo a compra de armas e munição e o direito ao porte.

Falsa dicotomia 1 – Divide rigorosamente os usuários de armas entre “bandidos” e “cidadãos de bem”, ignorando que há muitos “cidadãos de bem” criminosos, que não assaltam, sequestram ou matam mas cometem crimes (ou desvios éticos criminalizáveis) como racismo, intolerância religiosa, misoginia, xenofobia, apologia ao crime (quando, por exemplo, defende o abuso de autoridade por parte de policiais), corrupção (em atos como suborno de agentes de trânsito ao lhe aplicarem multa), contrabando, abandono de animais, agressão física contra crianças, difamação, discursos de ódio etc.

Mas, o que era mesmo que diziam os defensores do desarmamento? Que o Estatuto reduziria a violência. Demagogia pura! Mentira deslavada!

Falácia do espantalho – Alega que os defensores do Estatuto do Desarmamento teriam argumentado que a lei iria diminuir crimes cometidos por bandidos veteranos (assaltantes, sequestradores etc.). O que foi alegado ao se defender tal lei, na verdade, foi que o que diminuiriam seriam os crimes armados cometidos pelos chamados “cidadãos de bem”, em situações como brigas domésticas, brigas de trânsito e brigas de bar, além de diminuir a probabilidade de inocentes serem mortos ao tentarem reagir.

O Mapa da Violência prova que depois da nova lei, a criminalidade só recrudesceu. Nos sete anos antes do estatuto 211.562 pessoas foram mortas por armas de fogo. Sete anos depois, o número de assassinatos subiu para 245.496.

Falácia de correlação coincidente – Dá uma falsa evidência de relação de causa e efeito entre o desarmamento dos “cidadãos de bem” e o aumento dos homicídios.

Falácia de omissão 1 – Não informa em quais situações e tipos de crime houve a maioria dos assassinatos em questão.

Falácia de omissão 2 – Ignora determinados tipos de assassinato nos quais não adiantaria nada a posse de uma arma nas mãos de um “cidadão de bem”, como os assassinatos de inocentes por policiais.

Falácia de omissão 3 – Ignora a probabilidade de, nesse número de assassinatos, estarem incluídos, por exemplo, bandidos civis mortos por policiais na “guerra contra as drogas”; indígenas, camponeses e ambientalistas assassinados por pistoleiros contratados por latifundiários; inocentes mortos por policiais; mulheres vítimas de feminicídio (crime cometido, a saber, por muitos “homens de bem”) etc.

Argumento desconexo (non sequitur) – Insinua, a partir da premissa do aumento do número de assassinatos (alegadamente cometidos por bandidos), que não houve diminuição de nenhum tipo de crime contra a vida depois da sanção do Estatuto do Desarmamento. Por exemplo, não considera se os assassinatos em brigas de bar diminuíram graças a essa lei.

Convencidos de que o cidadão está desarmado, certos da vulnerabilidade da vítima, da sua incapacidade de reagir à violência, os criminosos se tornaram mais audaciosos e cruéis também. Tripudiam da vítima, não temem a polícia, debocham da justiça.

Omissão de fontes – Sheherazade elabora uma teoria, dotada de dados objetivos, desprovida de qualquer estudo que a comprove. É uma falácia de apelo a crenças do senso comum.

Inversão do acidente – Considera a situação descrita uma regra geral, ignorando que ela só se aplica a uma parcela dos crimes cometidos por bandidos civis.

Agora é “Salve-se quem puder!”

Redução ao absurdo – Estabelece que o Estatuto do Desarmamento trouxe uma suposta (e irreal) consequência absurda: o estado de insegurança total, o “salve-se quem puder”.

Falsa dicotomia sutil – Coloca, como única alternativa ao “controle da criminalidade” pelo armamento civil, o mencionado estado de insegurança total, ignorando, por exemplo, a possibilidade de se combater o crime com uma mescla de políticas sociais, que desencorajem a criminalidade como “única saída” para jovens sem oportunidades, com estratégias inteligentes de segurança pública que sejam eficazes em diminuir a incidência de determinados crimes.

Enquanto isso, dorme em berço esplêndido, na Câmara dos Deputados, o projeto de Lei que revoga o inútil Estatuto do Desarmamento. A proposta aguarda Constituição de uma Comissão Temporária na Casa.

Falácia de omissão – Omite as diversas situações em que o Estatuto do Desarmamento realmente inibiu crimes violentos, como as brigas de trânsito.

Argumento desconexo (non sequitur) – Traz a desconexa e inválida linha de raciocínio de que “Os crimes cometidos por bandidos não diminuíram, logo o Estatuto do Desarmamento é completamente inútil”, na qual a conclusão não tem relação válida com a premissa.

Em 2005, um referendo perguntou aos brasileiros se eles concordavam com a proibição da venda de armas. A maioria respondeu não. Ainda assim, o Estatuto do Desarmamento foi empurrado goela abaixo dos brasileiros.

Distorção de fato – Sheherazade distorce o fato de que o referendo de 2005 perguntava pela proibição total da venda de armas a civis no Brasil, ignorando que hoje a proibição estabelecida pelo Estatuto do Desarmamento não é total e há situações específicas em que ainda é possível para um civil comprar, possuir e portar armas.

Falácia do espantalho – Ela inventa que o Estatuto proibiu completamente, sem exceções possíveis, à revelia do resultado do referendo, a posse e porte de armas por civis.

A revogação desse dispositivo é imperiosa. O cidadão de bem precisa ter garantido seu direito de escolha: de portar ou não uma arma. De se defender por conta própria ou esperar socorro do Estado.

Falácia de omissão – Sheherazade omite as diversas situações em que o porte de arma por um civil não implica nem sua segurança, nem a garantia da ausência de crimes no local onde ele está. Por exemplo, omite que um “cidadão de bem” armado pode ser confundido com um bandido e morto pela PM, e que o mesmo “cidadão de bem”, numa outra situação, pode usar a arma para matar sua esposa numa briga conjugal.

E além do mais, o Estatuto do Desarmamento já provou a quem está servindo: aos que vivem à margem da lei.

Argumento desconexo (non sequitur) – Extrai, da premissa de que houve um aumento no número de assassinatos totais no Brasil entre 1997-2004 e 2004-2011, a conclusão de que “o Estatuto do Desarmamento está servindo aos bandidos”. A conclusão não condiz com a premissa porque, como foi dito, Sheherazade não investiga quais tipos de assassinato aumentaram e qual a relação, sociologicamente comprovada, entre o desarmamento de civis e o aumento do número de assassinatos.

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16. Médico ou monstro? – 23/02/2015

Depois de denunciar um crime, o médico virou monstro.

Aconteceu em um Hospital de São Bernardo do Campo, onde dava plantão o Dr. Mahmud Mourad. Ele atendeu uma mulher grávida de 4 meses, que havia tomado comprimidos de um remédio abortivo e deu entrada para fazer curetagem.

A paciente admitiu que fez o aborto por que foi largada pelo pai da criança. Simples assim. Não era um caso de aborto permitido por lei. Diante do crime cometido em flagrante, o doutor Mourad decidiu não se omitir e após prestar assistência à paciente, o médico chamou a polícia e denunciou a prática do aborto.

Falácia legalista (argumenta que “está na lei que é permitido, logo é certo” ou “está na lei que é proibido, logo é inquestionavelmente errado”, sendo uma espécie de argumento desconexo non sequitur) – Argumenta que o aborto é errado especificamente por ser tipificado como “crime” pela legislação penal vigente.

Falácia do espantalho – Faz um resumo maliciosamente simplista da razão que levou a mulher a abortar. Resume a “[ser] largada pelo pai da criança” o que poderia ter sido uma mescla, por exemplo, de não ter condições de dar sozinha uma vida minimamente digna para o possível bebê, não estar psicologicamente apta a levar a gravidez adiante e cuidar da criança depois de nascida e correr o risco de sofrer discriminação misógina dos seus pais por causa da gravidez mal recebida. Além disso, apaga completamente o que a moça sentia quando optou pelo aborto. É como se ela tivesse decidido abortar sentindo a mesma leveza e tranquilidade com que optaria por comprar um batom lilás ao invés de um vermelho.

O Código Penal é muito claro, e, em seu artigo 124, considera o aborto crime contra a vida. Se condenada, a mulher que pratica aborto pode ser condenada a prisão de um até três anos. O aborto, no Brasil, só é expressamente admitido por lei em dois únicos casos: quando a gestação representa risco de vida para a mãe ou quando a gravidez é resultado de estupro.

Falácia legalista – Repete que “aborto é considerado crime pela legislação, logo é inquestionavelmente errado”.

Mas, apesar de ter contribuído para a elucidação de um crime, o Dr. Mahmud Mourad será investigado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Para o Cremesp, o profissional violou o sigilo médico, previsto no artigo 73 do código de ética, que diz:

“É vedado ao médico: Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente.”

Como se vê, o sigilo médico não é um conceito absoluto, muito pelo contrário, pode ser bem subjetivo, pois admite exceções.

Denunciar um crime, como fez o Doutor Mourad não seria motivo mais que justo para quebrar o sigilo profissional?

Distorção de fato – Sheherazade trata de forma simplista a questão, ignorando as consequências éticas à mulher que abortou de denunciá-la.

Falácia de omissão – Ela omite que denunciar uma mulher abortante ao aparelho repressor estatal é um motivo fortemente injusto, por acarretar consequências psicológicas gravíssimas à mulher e ser uma ação alicerçada em misoginia.

Falácia legalista 1 – Considera a denúncia contra uma mulher abortante algo “certo” apenas por isso ser supostamente reconhecido pela lei como um “dever legal”.

Falácia legalista 2 – Novamente tacha o aborto de “crime, logo indubitavelmente errado”.

O Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo, diz que médicos têm o dever de denunciar suspeitas de maus-tratos contra criança ou adolescente.

O aborto é mais que uma violência física, é um crime gravíssimo perpetrado contra a vida do mais indefeso dos seres humanos, o nascituro, pois ainda no ventre da mãe, aquela que, por lei, deveria resguardá-lo de todos os perigos.

Falsa analogia – Compara indevidamente crianças já nascidas, dotadas de plena senciência e múltiplas emoções e interesses básicos próprios, com fetos em estágio não avançado, que não possuem nenhuma dessas características.

Apelo à misericórdia – Apela para a imagem do nascituro como “o mais indefeso dos seres humanos” e da mãe como “aquela que […] deveria resguardá-lo de todos os perigos”, de modo a fazer seus ouvintes sentirem pena do feto abortado e, assim, sentirem ódio da moça que o abortou e indignação pelo indiciamento do médico que a denunciou. O termo “crime gravíssimo” também reforça esse apelo à misericórdia.

Aproveitando a polêmica do aborto em São Bernardo, o deputado Jean Wyllys do PSOL, defensor de bandeiras como a descriminalização das drogas, e a legalização das casas de prostituição, entre outras bizarrices, afirmou que o aborto é um “direito individual”.

Santa ignorância! De que legislação ele tirou esse direito? Aborto, no Brasil, não é direito, é crime, sr. Willys. Passível de cadeia, tanto para a mulher que o pratica, quanto para quem a ajuda a abortar. Dê uma olhadinha no Código penal, deputado, não custa nada. 

Falácia de omissão – Sheherazade esquece-se que o direito da mulher à escolha por abortar ou manter a gravidez é um direito humano e uma liberdade individual.

Falácia legalista – Repete que “abortar é crime, logo é inquestionavelmente errado”.

Mas, não satisfeito com a primeira sandice, o ex BBB, que adora uma superexposição, arrematou: “Temos que tratar a interrupção da gravidez como uma questão de saúde pública”.

Desqualificação pessoal (ad hominem – Desqualifica Jean Wyllys para falar do tema por ele supostamente “adorar uma superexposição”.

Fuga ao tema (red herring) – Tenta introduzir uma discussão paralela (o suposto gosto do deputado por “superexposição”) de modo a atrapalhar o andamento do debate.

Sabe o que é caso de saúde pública? Dengue, malária, falta de água, falta de saneamento básico, falta de vacinação, falta de planejamento familiar…

Falsa dicotomia, falácia da prioridade – Estabelece uma falsa dicotomia segundo a qual só seria possível ou dedicar atenção de saúde pública ao aborto e excluir as demais questões ou dedicar atenção a essas outras questões deixando completamente à margem as mulheres que abortam.

Aborto, senhor deputado, é caso de polícia!

Falácia legalista – Repete que “abortar é crime, logo é inquestionavelmente errado”.

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Conheça as falácias nessas páginas:

http://www.logicallyfallacious.com/index.php/logical-fallacies (em inglês)
https://ateus.net/artigos/ceticismo/guia-de-falacias-logicas-do-stephen/
http://livrepensamento.com/guia-de-falacias-logicas/
http://veganagente.consciencia.blog.br/guia-de-falacias-carnistas/ (lista de falácias antiveganas que pode servir de base para detectar falácias com outros temas)

imagrs

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Visitante Satisfeito

junho 11 2015 Responder

Eu adoro essa série, é rir para não chorar dessas loucuras que tal mulher cria. Pior é que certas pessoas a idolatram e repetem as mesmas bobagens. Fico muito feliz por você, Robson, refutar tão dignamente esses absurdos, inclusive, tive a feliz oportunidade de ser abordado por uma dessas falácias e enviado o link de uma das postagens dessa série como resposta. Depois disso tal pessoa não mais fez contato comigo.

Enfim, agradeço por todo o trabalho de qualidade que tem feito, Robson, parabéns e continue assim, você é o tipo de pessoa necessária neste mundo.

    Robson Fernando de Souza

    junho 11 2015 Responder

    hehehehe Valeu ae =) Abs!

haroldo

maio 28 2015 Responder

Robson, eu considero Margareth Tatcher uma outra rainha coxinha, pois ela é racista, abafou sindicatos com toda violencia e promoveu a guerra das Malvinas. Vc concordaria com esse fato?

    Robson Fernando de Souza

    maio 29 2015 Responder

    Concordo, Haroldo. Tanto que muito coxinha analfabeto político-histórico por aí considera ela uma “ídola”.

Alex

maio 28 2015 Responder

Comentário grosseiro e machista apagado. Debateremos a questão da falácia legalista se você comentar com respeito e sem rispidez e dedo na cara. RFS

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo