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Caso da moça trans crucificada: je suis quem mesmo?

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Editado em 14/06/2015 às 16h33. Informações divergentes circulam considerando a moça ora transexual, ora travesti. Preferi considerá-la “moça transgênera”, dada a falta de informação definitiva sobre a identidade de gênero dela.

Assistimos, nesses últimos dias, à reação indignada de cristãos que acreditaram que a performance de crucificação feita por uma moça transgênera, na Parada LGBT de São Paulo, foi uma “blasfêmia”, uma expressão de “cristofobia” que “profanou” a figura de Jesus. Mas percebamos que muitas dessas críticas vieram de gente que outrora havia se solidarizado, em janeiro passado, com os discursos “Je Suis Charlie Hebdo”, de alegada defesa da liberdade de expressão, e vive acusando os denunciantes de discursos preconceituosos de “ditadores do politicamente correto”. A contradição de discursos e a hipocrisia gritam nessa hora.

Notamos, na repercussão que essas pessoas deram à atuação da moça, que o discurso da livre expressão sumiu e deu lugar ao ressentimento religioso, à sensação de que o sagrado foi “aviltado”. Foi evidente o desejo de muitas delas de que a moça fosse exemplarmente punida por “blasfêmia” e “intolerância” religiosa. Porque, afinal, era ninguém menos que Jesus Cristo, ao mesmo tempo filho de Deus e o próprio Deus, sendo “desrespeitado”.

Não lhes importou o que a performance da mulher estava simbolizando e denunciando à sociedade. Foi ignorado pelos indignados que ali estava representada a metafórica crucificação à qual milhões de pessoas trans e pessoas não heterossexuais são submetidas todos os dias no mundo.

Não lhes foi nada relevante que a cruz e o sofrimento encenado emblemizam o quanto LGBTs são tratadas(os) como seres inferiores e indignos e expulsas(os) da sociedade com violência, física ou não, para as margens da mesma ou a morte.

Passou-lhes em branco também a analogia, sutilmente incitada por aquela mulher a ser pensada, entre as(os) ativistas de movimentos de minorias políticas e o Cristo bíblico – aquele que salvou uma adúltera de ser apedrejada, andava com pessoas discriminadas pela sociedade em que viviam, pregava o amor e o não julgamento ao próximo, defendia que amássemos nossos inimigos e foi condenado por subverter a ordem vigente.

Foi-lhes muito mais digna de nota a “profanação blasfêmica” de um símbolo do que a mensagem passada. E daí desejaram o “combate” contra quem lança mão de símbolos cristãos para fins não (tão) religiosos.

Foto: AFP

Foto: AFP

Diante disso, percebemos que o espírito do #JeSuisCharlie e do “viva o politicamente incorreto” desapareceu. Deu lugar a um discurso similar ao que era proferido por quem, mesmo tendo repudiado o ataque terrorista à sede do jornal francês, dizia ser inaceitável a profanação que aquele pasquim fazia, com fins de “humor” preconceituoso, do islã, do profeta Maomé, dos símbolos islâmicos e das próprias pessoas muçulmanas.

Veio à tona, diante de nós, que todo aquele palavrório em solidariedade ao Charlie Hebdo se aplicava apenas a fazer troça daquilo que não era cristão. A liberdade de expressão defendida nada mais era do que o direito de zombar das religiões alheias – e das minorias políticas em geral -, não se aplicando mais quando os objetos da sátira são, por exemplo, crucifixos, presépios natalinos e passagens bíblicas.

A manifestação de repulsa dos cristãos que se sentiram ofendidos em sua fé com a atuação da moça nos dá a oportunidade de questionarmos a essas pessoas o que elas entendem por “liberdade de expressão”.

Temos aí a chance de lhes perguntar também o que elas realmente queriam ao apoiar a campanha #JeSuisCharlie. Intencionavam defender a livre expressão de todos, independentemente de ofender a sensibilidade religiosa alheia, ou simplesmente arrogar para si os privilégios de serem preconceituosos contra não cristãos e calarem quem não crê que o cristianismo é mais sagrado e verdadeiro do que todas as demais (des)crenças religiosas?

Em poucas palavras: je suis quem mesmo? Ditadura do politicamente o quê?

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haroldo

junho 12 2015 Responder

Robson, uma duvida: voce acha que a campanha je suis charlie só alimenta a islamofobia e imcompreensao? é que eu tive essa impressao, não sei se é isso que voce quis dizer…

    Robson Fernando de Souza

    junho 12 2015 Responder

    Oi, Haroldo. Essa é uma questão polêmica, com argumentos concisos dos dois lados.

    De um lado, reforça que todos têm ou deveriam ter a liberdade de se expressar sem serem agredidos ou assassinados por motivos de expressão.

    Do outro, reforça também que, nessa liberdade, está incluído exercê-la de maneira irresponsável, de modo que determinada expressão conduza a reforçar preconceitos contra adeptos de religiões minoritárias – ou majoritárias, como a ATEA faz no Brasil contra o cristianismo, de forma quase gratuita e despolitizada.

    Eu acredito que o #JeSuisCharlie, da maneira que foi feita, era mais um meio de legitimar culturalmente os ataques a religiosos minoritários do que realmente pregar o respeito à liberdade de expressão de todos, incluindo pessoas da extrema-esquerda que querem a destruição da ordem vigente em favor de utopias totalmente diferentes dela.

Seimar

junho 11 2015 Responder

Concordo em partes,afinal a reivindicação dos lgbts é totalmente justa e merece apoio.Porém,não será atacando cristãos que serão ouvidos e nem estou falando do travesti/transsexual na cruz.Falo de usar Jesus em situações homo afetivas(beijando outro homem na boca,até mesmo na cruz)e até de usar imagens para cobrir genitálias.
E quanto ao caso Charlie,tenho um pensamento parecido,nada justifica a morte dos cartunistas,porém eles não precisaram escrachar tanto o islamismo assim.A única coisa boa é que depois lançaram outro número da revista com tantas caricaturas,que muçulmanos moderados e pacíficos fizeram um protestos também pacífico.
Mas acredito que conversando todos nós possamos chegar num consenso.Abraços!!!

    Robson Fernando de Souza

    junho 11 2015 Responder

    1. O que ela fez pra “atacar” cristãos?
    2. O certo é A travesti/transexual. Ela é mulher, e devemos respeitar as identidades de gênero de todas as pessoas.
    3. Não sabemos se ela é homossexual (lésbica). Orientação sexual e identidade de gênero são coisas distintas. Portanto não é possível dizer que ela “usou Jesus em situação homoafetiva”.

Patrick

junho 11 2015 Responder

Só uma correçã: ELA é uma transexual e não uma tavesti.

    Robson Fernando de Souza

    junho 11 2015 Responder

    Patrick, me indica, por favor, a fonte em que ela se declara transexual. Vi fontes dizendo que ela é travesti e fontes dizendo que ela é transexual. Abs

Rafael Marques

junho 11 2015 Responder

Esse povo, que se auto intitula cristão, deveria olhar para os seres humanos como um todo, não apenas como pessoas de segunda classe que assim que ele olham pela sociedade LGBT.

Jussara Solla

junho 10 2015 Responder

Acho impressionante a declaração de muitos de que a cruz é um símbolo cristão e portanto sagrada, por isso ninguém pode “bulir” com ela….e a pergunta que não quer calar…cada vez que esse cristão corta um bife, ele pensa no desrespeito aos hindus que tem a vaca como sagrada????
Se fossemos respeitar, não falar, não criticar toda crença que existe no mundo ficaríamos imobilizados…. Até surgir algum monge adepto do catatonismo e dizer que é desrespeito também!!!!!

Danilo

junho 10 2015 Responder

Ótimo texto. Só uma pequena correção a mulher que ia ser apedrejada era “adúltera” e não “prostituta”. E só aproveitando a deixa, ao contrário do que muitos pensam, ela não era a Maria Madalena. Abraços.

    Robson Fernando de Souza

    junho 10 2015 Responder

    Valeu, Danilo, corrigi aqui =) Abs

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