02

jun15

Comentários no Facebook a notícia sobre show de passinho escancaram racismo e elitismo de muitos

passinho-preconceito

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Uma notícia recente da página facebookiana do jornal O Globo, sobre um show de passinho no Theatro Municipal do Rio de Janeiro realizado domingo passado, mostra a força e penetração do preconceito racista e elitista no Brasil, e como ele vem disfarçado de “gosto pessoal”. Centenas de comentários escancaram o ódio, o preconceito e a aversão que muitos têm da cultura criada pela juventude negra das periferias urbanas brasileiras.

Muitos declararam desgosto em ver um ritmo negro da periferia “destoar do estilo” do Theatro Municipal, tradicionalmente destinado a apresentações culturais apreciadas por um público de brancos ricos. Outros se revelaram adeptos de um conceito seletivo racista e elitista de “arte” e “cultura”.

Abaixo estão alguns exemplos de comentários preconceituosos carregados de racismo velado e elitismo, das duas primeiras “páginas” de comentários (os que aparecem primeiro ao carregar a página do post e os que aparecem depois de um clique em “Ver mais comentários”):

Aff, que ridículo! Vai destoar totalmente do estilo do Theatro Municipal. Lamentável.
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Cade o pessoal da Música? Os Instrumentistas, os Cantores líricos , O sapateado, a Dança contemporânea, O forró, o Ballet? ????
Tem Apresentar essa Porcaria? Me poupe .
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Enquanto cada vez mais livrarias fecham as portas e nossas escolas permanecem sucateadas, o Teatro Municipal ganha apresentação de “passinho de funk”. É isso que querem colocar na cabeça dos jovens no “país do futuro”.
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Sair da sua casa e ficar assistindo 4 ou 5 caras dançando passe de apagar cigarro ah vá TNC…
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Hoje em dia qualquer merda é chamada e pior, é considerada arte. O nível intelectual para a produção disso aí é mínimo…
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Ai não! logo no Teatro municipal !pqp
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Ecaa…degradaçao cultural total…
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Lamentável. Para onde estão levando o Brasil?
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É entretenimento, é exercício fisico, é discurso político, é dança, é integração; só não é arte, nem alta cultura. Isso não é.
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Essa dança vai acabar com a crise vai acabar com a violência enfim vai acabar com tudo de ruim na vida do brasileiro…..
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Que merda no municipal não é lugar para isso, essa cidade está cada dia se deteriorando, tanta coisa boa para ser espetáculo la. Que tristeza estão acabando com nosso Rio.
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QUANDO ISSO SERÁ CULTURa?? Coitadas das crianças de hoje.
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Que decadência.
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Dança feia. Isso não é cultura…
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VÃO ESTUDAR, MOLECADA. Dançar é o caralho. Depois, no futuro não venham criticar elite e reclamar de pobreza. Turma de Zé buceta.
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Deprimente ver o que está acontecendo com a cultura do nosso país.
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Mais uma porcaria pra englobar algo ridículo da nação brasileira. Funk brasileiro n é cultura e nunca será ponto final.
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cultura não sei de quem. Passinho, ave, isso e nada mais nada menos que promovendo uma cultura nem um pouco emparelhada na sociedade real no brasil, a midia força uma coisa que nao é.Mas assim como o termo ” presidenta ” , a midia força para que o povo aceite isso ,ridiculo.
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Isto é Cultura ??? Daqui a pouco vão querer fazer baile funk no Municipal.
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Por favor mantenham o lixo de fora do Teatro Municipal. A boa cultura agradece…
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chamar o funk de movimento cultural e retroceder na mente da minhoca,desde que esse lixo foi introduzido nas mentes das pessoas que as nossas criancas agora cantam pau na bct,bct no pau…
e o ser humano vai se afundando no lixo…
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NOSSA QUE “ESPETACULO CULTURAL”! DEPOIS PERGUNTAM O PQ O PAIS NAO VAI PRA FRENTE?!?
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O municipal virou lixeira!
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Cultura é ampla e dinâmica, então, o “passinho” é cultura. Agora, porque o Brasil está fazendo movimento para a cultura ser, digamos, tão pouco culta? Podemos fazer melhor – só acho!
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Tá ruim de programação !!!!
Isto não tem cultura nenhuma.

Fica bem evidente que muitos definem “cultura” e “arte” como aquelas manifestações de música, dança, dramaturgia, artes plásticas etc. que são feitas por brancos endinheirados das cidades – e, no máximo, por negros socializados na cultura de prevalência branca eurocêntrica – e apreciados e aprovados por uma elite social também de brancos.

Enquanto isso, a produção cultural de negros pobres, destacadamente aqueles que moram em comunidades carentes, é ridicularizada, tratada como “inferior” e “suja”, como uma “não arte” e uma “não cultura”.

Não é nada diferente do que como os colonialistas brancos europeus e os expansionistas eurodescendentes dos Estados Unidos e da América Latina do século 19 viam os povos nativos da África, das Américas, da Ásia e da Oceania. Consideravam-se os “civilizados” no “topo” da “linha evolutiva” humana, enquanto tachavam as culturas indígenas de outros continentes de “bárbaras” ou “selvagens”, de “subculturas” (não confundir com o conceito sociológico de “subcultura” como cultura dentro de uma outra cultura), de povos que “deviam” ser “civilizados” com o trabalho capitalista industrial, com a conversão à religião cristã ou com o fogo dos rifles e dos canhões.

É muito comum ver o funk – preconceituosamente generalizado e estereotipado como um ritmo de “letras depravadas” e “danças eróticas” -, o passinho – dança surgida no Baile Funk do Jacarezinho em 2004, segundo a notícia d’O Globo -, o rap, o hip-hop, o maracatu, o afoxé, as artes afrorreligiosas e outras produções artísticas de origem negra periférica sendo inferiorizados, marginalizados, satanizados, odiados sob o disfarce malfeito do “gosto pessoal”.

A quem não sabe, essa seletividade de “gostos” que privilegia as artes de brancos endinheirados e odeia e repudia – longe de verdadeiramente não ter “nada contra” e “não curtir” – as de pessoas negras pobres é racista e elitista. É uma das tantas maneiras que a sociedade brasileira de hoje encontra para discriminar negras e negros de maneira “sutil”, sem que seja considerada pela lei como estando incidindo em crime de racismo.

Se você, por exemplo:
– tem ódio contra o funk mas curte, por exemplo, músicas de rock com letras que apelam para a misoginia, a homofobia, a compulsão masculina por sexo hétero, a objetificação sexual de mulheres, o militarismo e a apologia ao consumo de drogas hoje ilegais;
– tem repulsa por músicas que mencionam os Orixás mas gosta de músicas evangélicas que pregam a discriminação contra quem, por ateísmo, vive “sem Deus”;
– acha “o máximo” danças extravagantes de jovens brancos universitários de classe média enquanto declara seu repúdio a danças de adolescentes negros da periferia;
– e/ou admira o engajamento de roqueiros e popstars brancos(as) ricos(as) em favor do meio ambiente e das populações pobres da África, mas dedica um olhar de aversão e desgosto aos/às rappers negros(as) que cantam os sofrimentos e privações pelos quais os moradores de favelas e outras comunidades pobres passam cotidianamente;
é hora de refletir se isso é um simples gosto individual ou é o preconceito racial e de classe introjetado em sua mentalidade pela socialização que você recebeu ao longo da vida.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

jones

junho 30 2015 Responder

Isso é cultura e merece espaço, porém é horrível, feio e da vergonha alheia. É só questão de gosto e a constituição permite os supostos elitistas serem metidos, desde que não cometam crime.

rubens moraes

junho 2 2015 Responder

Sem qualquer analise sociológica ou apologia ao pobrismo, não gosto porque é ruim mesmo e, no meu conceito, passa longe do que me agrada como arte.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo